
Naira Hofmeister
Um filme, muitos mitos: Cidadão Kane (Drama, EUA, 119 min, preto-e-branco, 1941), de Orson Welles é um marco na história do cinema. Se transformou em cult, amplamente debatido ao longo dos 60 anos de história que possui por ter inaugurado uma nova forma de narrativa. Romper a linearidade do tempo no cinema, utilizando flashback – hoje, um absoluto clichê – foi “invenção” de Welles.
Os recursos técnicos empregados também foram inovadores, como a obsessão do diretor em rodar as cenas com todos os planos em foco e utilizando jogos de luz e sombra pensados em conjunto com o diretor de fotografia Gregg Toland.
O outro mito é a própria estória que conta. Baseada na bibliografia do magnata William Randolph Hearst, considerado o fundador do jornalismo marrom, termo que define a imprensa sensacionalista, Cidadão Kane enfrentou uma cruzada da mídia americana na época, controlada por Hearst, que resultou num enorme fracasso de sua estréia.
A história, porém, se encarregaria de colocar o filme em seu lugar – no topo da lista das mais importantes películas produzidas – de onde nunca mais saiu. A trama inicia na mansão do protagonista, vivido pelo próprio Welles, onde Charles Foster Kane, em seu escritório, medita durante seus últimos minutos de vida.
Antes de morrer, o personagem fala a palavra que se transformaria em um fetiche para os cinéfilos: Rosebud. É em busca de seu significado que um repórter conduz a narrativa, encontrando-se com figuras importantes na vida de Kane.
O personagem percorre a trajetória de Kane, que viveu uma infância pobre transformou-se no dono de um poderoso impérios das comunicações nos Estados Unidos. Além da misteriosa palavra pronunciada antes de morrer, a história do longa-metragem encerra outras reflexões em si, sobre os desvios que o poder pode exercer na dignidade de um homem.
Quando foi rodado, Orson Welles manteve em sigilo sua intenção de narrar a vida de William Randolph Hearst. Quando o executivo de mídia descobriu que sua vida particular seria levada ao grande público, ameaçou o estúdio RKO, produtor do longa.
Tentou suborno – queria pagar o custo do filme, em troca da destruição dos negativos – chantagem (denunciar grandes maracutaias hollywoodianas à imprensa) e, finalmente, iniciou uma guerra difamadora contra o filme em seus jornais, revistas e rádios.
Por fim, a solução: Welles retirou de Cidadão Kane todas as referências que poderiam levar à identificação de Hearst no filme. Como se sabe, porém, o artifício não adiantou e o mundo inteiro assistiu Cidadão Kane sabendo de quem se trata na vida real.
No entanto, a pressão exercida pela imprensa acabou por tirar 8 dos 9 Oscars a que concorria, restando apenas o troféu de melhor roteiro, para Welles e Herman J. Mankiewicz.
A Sala Redenção exibe gratuitamente, na noite dessas segunda e terça-feira, 25 e 26 de setembro, o longa-metragem, seguido de debate com as professoras Mirriam Rossini e Fatimarlei Lunardeli, do Núcleo de Cinema e Comunicação da FABICO – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS.
Serviço:
Cidadão Kane será exibido nesta segunda e terça-feira, 25 e 26 de setembro, às 19h, na Sala Redenção, no Campus Central da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110). Entrada franca.

Deixe um comentário