
Prédio histórico construído por Wiederspahn abriga o empreendimento cultural do Banco Santander (Foto: Divulgação/JÁ)
Naira Hofmeister
Em agosto de 2001, a antiga sede do Banco Meridional, na Praça da Alfândega, reabriu, totalmente reformada, sob a proposta de se tornar um novo centro cultural em Porto Alegre. Cinco anos e um milhão e meio de visitantes depois, o Santander Cultural mostra que a iniciativa, voltada ao relacionamento com o cliente foi muito além do marketing.
Além de difusora de cultura, a instituição agregou à sua meta o incentivo à produção artística local, através de atividades desenvolvidas junto à comunidade, atendendo mais de 75 mil pessoas em cursos, seminários, debates e encontros, a maioria gratuitos.
“Seria o maior investimento do grupo na área de cultura em todo o Brasil e queríamos que, mais do que patrocinar, o Santander Cultural fosse gestor de cultura”, lembra a superintendente do Santander Cultural, Liliana Magalhães.
Quando o Banco Meridional foi vendido ao Grupo Santander, da Espanha – na mesma negociação que envolveu o Bradesco, de São Paulo – acabou herdando o prédio histórico da Praça da Alfândega, em estilo neoclássico, construído entre os anos 1927 e 1932, projeto do famoso arquiteto Theodor Wiederpahn.
Recém-chegado ao Estado, o grupo espanhol concluiu um estudo sobre hábitos dos gaúchos, indicando altos índices educacionais, de organização e participação política da sociedade. “O Rio Grande do Sul é uma matriz cultural brasileira, aqui se incita a reflexão artística e cidadã”, analisa Liliana, que esteve presente em todo processo de implementação do empreendimento.
Foi a junção dessa característica do pensar cultural no Rio Grande do Sul com a tradição do banco de patrocinar a cultura em todo o mundo, aliadas ao prédio da Praça da Alfândega, que nasceu o Santander Cultural.
“A maneira como desenvolvemos essa interação que faz o Santander Cultural ser o que é, um canal de relacionamento entre Porto Alegre e o mundo”, opina Liliana. A política de incentivo à cultura da instituição passa obrigatoriamente pelo aval da sociedade.

Liliana Magalhães examina obras que vão compor a exposição “SOMOS a Cultura Brasileira” (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)
“Existem muitas formas de investir em cultura, uma delas, por exemplo é dar dinheiro para grandes nomes. A nossa metodologia é nos aliarmos à comunidade, funcionar com agente integrador”. Para isso, conta Liliana, o Santander Cultural possui assessorias especializadas em cada área de atuação.
A programação de filmes é feita em parceira com a Casa de Cinema de Porto Alegre; a área musical tem entre seus consultores Cláudio Levitan, Arthur de Faria e Juarez Fonseca. Finalmente, as artes plásticas estão sob responsabilidade da própria Liliana, que auxiliada por um grupo de curadores desenvolve os projetos de exposições.
“Todos os nomes que já passaram pelo Santander Cultural entram em nossa lista de curadores”, explica. Dessa forma, crê a superintendente, o espaço funciona simultaneamente como receptor e difusor de cultura. “Nada vem pronto, isso aqui funciona como um laboratório de experiências, concebemos cada exposição especialmente para o Santander”.
Uma opção pela cultura reflexiva
Mais difícil do que simplesmente investir na cultura é determinar o que vai ser posto em discussão na sociedade. A política do Santander, segundo Liliana, é aliar diversão e reflexão nas suas atividades. “Por isso, ao invés de colocarmos um filme em cartaz, inserimos ele num contexto de mostra, para que se revele uma ferramenta de análise”.
Mais ou menos na mesma lógica, as exposições que passam pelo Santander desenvolvem obrigatoriamente atividades paralelas junto à comunidade. A recente !Mirabolante Miró, por exemplo, reuniu mais de 200 obras do artista plástico catalão e levou um público de190 mil pessoas à exposição.
A conexão direta com a cidade, no entanto, se deu nas 192 atividades simultâneas que desenvolveu. Provavelmente, a mais significativa tenha sido o projeto Ruas Mirabolantes, que convidou 10 artistas de rua da cidade para, inspirados na mostra, criarem obras serigrafadas de intervenção urbana. Os cartazes das releituras foram colados em muros, paredes e tapumes pela cidade e a experiência foi registrada em vídeo.
Talvez por isso, a instituição penetre em vários ambientes sociais: “No cinema, por exemplo, tu vê todo o tipo de gente, desde o intelectual que procura um filme artístico até o popular, que vem porque o ingresso é barato”, acredita.
Só assim para atingir o número médio de 1.225 visitantes por dia. Foram 16.000 professores em capacitação, 107 mil espectadores de cinema, 36 mil pessoas em shows e oficinas de música e 200 mil estudantes em visitas mediadas nas exposições.
Além disso, a instituição tem como parceiros grandes eventos culturais da cidade, como a Feira do Livro, a Bienal do Mercosul e até mesmo o Fórum Social Mundial.
O empreendimento mantém ainda as iniciativas da Incubadora Cultural, onde atenta para os principais movimentos de vanguarda artística no mundo e um centro de excelência tecnológica. Também participa junto com a prefeitura municipal do projeto de Revitalização do Centro da capital. “O Santander Cultural vem trazendo oxigênio para o Porto Alegre”, resume Liliana.
SOMOS o que mostramos
Para comemorar os cinco anos de atividade cultural, o Santader inaugura na noite dessa quinta-feira, 10 de agosto, a mostra SOMOS a criação popular brasileira, que reúne mais de 500 obras que perfazem um panorama artístico do país, visto pelos olhos do povo.
Tratam-se de artistas populares que produzem ‘artesanato’ – muitas vezes tido como uma face menor da arte. “Pretendemos exatamente romper com essa separação: o que nos interessa nessa mostra é a força poética e a beleza de cada obra”, explica.

Obras aguardam conclusão da montagem da mostra que abre para o público na sexta-feira, 11 de agosto
A equipe de produção percorreu os cantos do Brasil atrás de artistas que revelassem características regionais, formadoras da cultura, que tivessem como principal marca, a força da criação. A busca foi norteada pelo princípio de que qualquer forma artística nasce como um objeto de utilidade cotidiana. Por isso, a exposição percorre a história, trazendo por exemplo, pequenos monolitos, pedras lascadas que serviam para o corte na Era Neolítica ou ferramentas da época da colonização européia. Passa também por objetos domésticos, como uma frigideira para aquecer pães ou uma ratoeira inteligente: “Nessas obras, procuramos uma forma especial”, revela José Alberto Nemer, consultor da mostra.
O caráter multimídia encarnado pelo Santander Cultural vai estar presente na mostra. Além da exposição das obras de artistas como Galdino, Conceição dos Bugres, Antônio Poteiro ou Chico Tabibuia, um audiovisual foi concebido pela curadoria da mostra, com o intuito de pensar a diversidade como caráter universal. “Esse vídeo contém o conceito da exposição, mostra quanto o regional pode ser global e vice-versa”, revela Liliana.
Para completar, a mostra será embalada ao som de três peças compostas por Arrigo Barnabé, que, executadas continua e simultaneamente formam juntas, a obra principal: “Minha intenção não era meramente ilustrar a mostra, mas sim, dialogar com ela”, revela Arrigo.
As ‘partes’ serão divididas de acordo com os ambientes: uma peça, em estéreo para o centro da exposição e duas monos, um para as laterais e outra para o andar superior. Como o ambiente é todo vazado, explica Arrigo, será possível ouvi-las em conjunto, e, dependendo do espaço, uma vai se sobrepor às outras duas.
Arrigo aproveita para fazer um comparativo entre a dita Música Popular Brasileira e a mostra que marca os cinco anos do Santander Cultural: “A MPB tem um envolvimento muito grande com a indústria fonográfica, e assim, perde um pouco da sua pureza. Acredito que essa mostre retoma a arte popular com a ingenuidade que lhe é característica”, opina.
A mostra será inaugurada para convidados na noite desta quinta-feira, 10 de agosto. O público poderá visitá-la, gratuitamente, a partir da sexta-feira, 11. O Santander Cultural abre de segunda a sexta-feiras, das 10h às 19h e sábados, domingos e feriados, das 11h às 19h. O endereço é Rua Sete de Setembro, 1028 e o telefone para contatos, 3287.5500.

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