"Colapso das colméias": abelhas nativas podem ser alternativa

GERALDO HASSE
A pesquisadora Tereza Cristina Guannini, da USP, junto com quatro colegas (entre eles Vanessa Imperatriz-Fonseca, da Fepagro), publicou no Journal of Entomology um artigo afirmando que, de 141 culturas agrícolas analisadas no Brasil, 85 são dependentes de polinizadores, variando o grau de dependência de 30% a 100%.
Na maçã, por exemplo, a influência da polinização por abelhas varia de 40% a 90%.
Segundo Giannini, o valor anual da contribuição econômica dos polinizadores foi estimado em cerca de US$ 12 bilhões — cerca de 30% do valor total (US$ 45 bilhões) das culturas dependentes.
Metade do valor da “contribuição” estudada viria da soja, planta originalmente pouco dependente da polinização mas que, supostamente, vem aumentando sua dependência em consequência da criação de centenas de variedades híbridas adaptadas a várias regiões do Brasil.
Tudo isso se atribui basicamente à abelha européia, sem que se saiba, porém, quanto pesam na polinização as abelhas nativas, ditas “sem ferrão” – na realidade, elas têm o ferrão atrofiado –, e outros insetos como as vespas.
Entre estas está a famosa lixiguana, cujo mel delicioso, consumido em excesso, provocou um porre quase mortal no naturalista francês Auguste Saint-Hilaire (1779-1853), que contou o episódio em seu célebre livro Viagem ao Rio Grande do Sul.
De fato, ainda se sabe muito pouco sobre o papel das abelhas nativas na manutenção da biodiversidade. Aí está o X da questão apícola no momento.
SÍNDROME DO COLAPSO DAS COLMÉIAS
Um fenômeno identificado em 2007, foi definido por pesquisadores como  a “síndrome do colapso das colméias”. A principal característica é o “desaparecimento” das abelhas européias.
Desde então, os pesquisadores começaram a encarar as abelhas sem ferrão como uma alternativa concreta para a polinização, serviço prestado há décadas pelos apicultores profissionais, que levam seus enxames de abelhas européias para lavouras e pomares. Além de ganhar com o aluguel das abelhas, eles mantêm a produção de mel, pólen e própolis.
A “síndrome do colapso das colméias” foi detectada originalmente na Europa e nos Estados Unidos, mas está ocorrendo também no Brasil e em outros países.
Uma das causas hipotéticas é que o problema seja decorrente do uso excessivo de insumos tóxicos nas lavouras. O fato é que uma parcela das abelhas que sai para pastar não volta aos ninhos.
Supõe-se que percam o senso de orientação. Pode ser que enlouqueçam, como acontece com agricultores contaminados por venenos agrícolas.
Outra hipótese é que as abelhas estariam se tornando  geneticamente vulneráveis por influência de alguma causa desconhecida.
Podem até estar sofrendo com as mudanças climáticas – o aumento da temperatura global, por exemplo – causadas pelo acúmulo de gases do efeito-estufa na atmosfera.
CONSUMO DE AGROTÓXICOS AUMENTOU 700%
O fato concreto é que desde 2008 o Brasil lidera o ranking mundial no uso dos chamados agrotóxicos. De acordo com a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), nos últimos 10 anos, a utilização mundial desse produto aumentou 93%.
No Brasil, o salto foi mais do que o dobro (190%), o que elevou para 130 mil toneladas o consumo anual de “defensivos agrícolas”.
Segundo a Embrapa, enquanto as áreas cultivadas nos últimos 40 anos cresceram 78%, o aumento no uso de agrotóxicos no mesmo período foi de 700%.
É uma escalada que não se contém nem com leis, nem com campanhas ecológicas. O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado brasileiro a criar (em 1982) uma lei de controle do uso de venenos agrícolas, que só podem ser receitados por engenheiros agrônomos.
Há dois anos, o município de Ijuí foi considerado o campeão mundial no uso de agrotóxicos na lavoura da soja.
Em dezembro passado, o Ministério da Agricultura suspendeu o uso de 63 fungicidas utilizados para controlar a ferrugem asiática nas lavouras de soja.
Os apicultores e as abelhas em geral agradecem, mas os brasileiros permanecem indefesos ao consumir alimentos in natura como frutas, legumes e verduras, 70% dos quais chegam aos consumidores como variados graus de substâncias tóxicas empregadas pelos agricultores.
BRASIL TEM QUASE 2 MIL ESPÉCIES DE ABELHAS
Fora a gloriosa Apis mellifera, de origem européia, há mais de 20 mil espécies de abelhas nativas no planeta, mas 95% delas são solitárias e muitas delas jamais foram estudadas.
No Brasil, há 1 676 espécies e as abelhas sem ferrão se concentram  mais nas regiões tropicais.
No Rio Grande do Sul, totalizam 400, mas apenas 24 espécies de abelhas sem ferrão são conhecidas e, destas, não mais do que sete são razoavelmente estudadas.
Em seu manual sobre as abelhas nativas do Rio Grande do Sul, Sidia Witter adverte que a espécie guaraipo está ameaçada de extinção devido à destruição das árvores que elas utilizam para fazer os ninhos, ou seja o desmatamento das áreas de ocorrência na Mata Atlântica e de fontes de alimento.
A carne-de vaca é uma espécie de planta nativa da Mata com Araucária, utilizada pela guaraipo para produzir o valioso mel branco bastante conhecido no nordeste gaúcho.
Destacam-se a jataí, a mandaçaia, a manduri, a tubuna, a tubiba, a guaraipo e as mirins – oito espécies, três das quais fazem ninhos subterrâneos.
Em seu “Manual de Manejo de Abelhas Sem Ferrão”, com 144 páginas, publicada em fins de 2015, a pesquisadora Sidia Witter, que opera em parceria com pesquisadores de outras instituições como a Embrapa, a Epagri (SC) e a UFRGS, trata do assunto.
As conclusões indicam que as abelhas nativas mais conhecidas – jataí, mandaçaia, manduri, mirim, guaraipo, tubuna e tubiba – são comprovadamente importantes na polinização de vegetais como abóbora, açaí, alfafa, araçá, berinjela, butiá, cacau, café, canola, cajá, cornichão, cupuaçu, girassol, goiaba, guaraná, maçã, maracujá, morango, pimenta, pimentão, soja, tomate, trevo e urucum, entre outras.
Sidia Witter estuda há cinco anos especialmente a bieira, uma das mirins, cujo mel é “uma delícia”. Os méis das nativas são, de fato, diferenciados. Os índios foram seus primeiros consumidores.
Vem daí, da antiguidade americana, o conhecimento dos hábitos desses insetos fascinantes. Seus méis contêm maior índice de água do que o mel convencional da Apis mellifera. Por isso e por outros detalhes, as abelhas nativas não se enquadram na legislação que rege a apicultura profissional.
Por suas características peculiares, as abelhas nativas são criadas mais por hobby do que para gerar renda em sítios rurais ou quintais urbanos.
Sidia Witter fala com carinho de um apicultor de 90 anos que desde criança cria em Turuçu uma espécie de abelha sem ferrão. “Ele ganhou um ninho do pai e hoje tem 300 ninhos…”
Por aí se vê que a criação de abelhas nativas é uma atividade sentimental que, segundo algumas pessoas, favorece a longevidade dos seres humanos.
Aos 85 anos, o agrônomo Warwick Kerr, que introduziu no Brasil a abelha africana, dando origem a um híbrido mais vigoroso do que a abelha européia, acredita que a picada das abelhas melhora a circulação sanguínea dos animais que não sejam alérgicos ao seu veneno.
Uma vez, ele levou 500 picadas de Apis mellifera, passou mal e até perdeu um pouco de sangue na urina, mas ficou imunizado para sempre.
A CHAVE DA BIODIVERSIDADE
Segundo a pesquisadora apícola da Fepagro, no universo pouco conhecido das abelhas nativas há um mercado exclusivo cujo principal indicador é o valor de um enxame de jataí: pode variar de R$ 60 a R$ 180, duas a cinco vezes mais do que um enxame de Apis mellifera, domesticada há milhares de anos.
O mel da jataí é muito apreciado, mas seu uso e seu valor são segredos da culinária doméstica brasileira. Além disso, é preciso atentar para os volumes de produção, que não se comparam aos da Apis mellifera.
Um enxame de européias (50 mil abelhas) pode produzir 40 quilos de mel por ano. Um ninho de abelhas nativas (2 mil indivíduos) não oferece mais do que um a dois quilos por ano.
Se não cabe comparar o volume de produção de mel das abelhas profissionalizadas e das abelhas nativas, faz todo  sentido estudar o papel de cada uma delas no aspecto ecológico.
Como aliadas naturais dos agricultores, todas as abelhas são fieis seguradoras da manutenção da biodiversidade e do equilíbrio do ambiente natural.
Em seu manual sobre as abelhas nativas do Rio Grande do Sul, Sidia Witter adverte que a espécie guaraipo está ameaçada de extinção devido à destruição do seu pasto preferencial — a pata-de-vaca, vegetal outrora abundante nos Campos de Cima da Serra. Com o néctar dessa planta, as abelhas fazem um valioso mel branco bastante conhecido no nordeste gaúcho.
Para os consumidores pode não ser uma grande perda, mas para a ciência é um sinal de perigo: o desaparecimento de espécies vegetais em consequência do desmanche de ecossistemas concorre para aniquilar insetos e outros animais que ainda não foram sequer estudados. Entre os atingidos, pode estar o homem.

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