
Governo não compra livros há anos – bibliotecas públicas estão defasadas (Foto: Divulgação)
Guilherme Kolling *
O declínio nas vendas do mercado livreiro é um fenômeno nacional, mas no Rio Grande do Sul o quadro é agravado pela crise financeira que afeta o Estado há três décadas.
O principal efeito deste déficit crônico nas contas do poder público estadual é o sucateamento e defasagem das bibliotecas públicas.
“São 15 anos sem um programa de compra de livro. A Biblioteca Pública não adquire exemplares novos há mais de 20 anos. Imagine como estão os acervos das nossas escolas”, alerta o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira.
A queixa ecoa entre diversos editores. “O Estado está falido e não investe. Nossa editora tem 15 anos. Já vendemos para diversos governos, mas de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná”, conta Luís Fernando Araújo, diretor da Artes e Ofícios.
“O Governo não tem fomentado a leitura e o mercado se ressente disso”, avalia João Carneiro, da Tomo Editorial. Os editores observam que a compra governamental é um fator importante nas vendas e no preço do livro, que depende do tamanho da edição.
Ou seja, se a comercialização de parte da tiragem está garantida, é possível imprimir mais exemplares a um custo unitário mais barato para o leitor. “Aqui não há esse agente”, resume Carneiro.
O exemplo vem de outros países. “O Brasil nunca teve uma política de compra de livros. Mas na França, só para dar um exemplo, a venda de boa parte das edições dos livros está garantida por universidades e bibliotecas”, compara Luis Gomes, editor da Sulina.
O diretor da AGE Editora, Paulo Ledur, cita o caso dos Estados Unidos. “Lá, as bibliotecas representam 60% do mercado editorial. Temos 3 mil escolas públicas no Rio Grande do Sul. Só esse número já supera a tiragem tradicional dos livros aqui editados. E no Brasil, as bibliotecas representam 10% do mercado. A lógica seria o contrário, já que se trata de um país carente, em que o livro deveria estar disponível em acervos públicos”.
Última compra foi feita por Britto
O diretor da L&PM, Paulo Lima, lembra que a última aquisição feita pelo Palácio Piratini foi na gestão de Antônio Britto, numa ação isolada que ocorreu por conta de um embaraço que o governador passou.
Ao visitar em Cruz Alta a biblioteca de uma escola chamada Erico Verissimo, ele pediu, em meio aos alunos, que a diretora lhe entregasse um determinado livro do escritor. Não havia nem um exemplar. Britto solicitou então que lhe alcançassem qualquer obra de Erico. Mas não tinha uma sequer, informou, encabulada, a executiva do colégio.
O fato irritou o ex-governador, que imediatamente criou na Secretaria da Educação o Projeto “Estante do Autor Gaúcho”, em que escolas públicas estaduais recebiam de 30 a 60 exemplares de livros da literatura sul-riograndense. Desde então, não houve novas aquisições.
Questionada se vai acabar com esse jejum, a governadora eleita Yeda Crusius respondeu que a distribuição de livros é sempre feita por financiamento do Governo Federal. Ela pretende exigir de Brasília a continuidade do projeto “Uma biblioteca em cada escola”. Sobre a aquisição de livros pelo Estado, Yeda informa que, “enquanto o Governo não tiver recursos próprios, terá que se valer de parcerias”.
RS perde terreno
A Câmara Riograndense do Livro divulgou durante a Feira uma pesquisa sobre os hábitos de leitura da população gaúcha. A pesquisa feita pelo Ibope e preparada pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe apontou que o Rio Grande do Sul lê três vezes mais que o resto do país.
Enquanto a taxa nacional é de 1,8 livro por ano, no Estado, esse número cresce para 5,5. Estudos semelhantes na América Latina indicam que o índice de leitura no continente é de 2,4 livros ao ano.
Foram aplicados 1.008 questionários em 60 dos 496 municípios gaúchos. A amostragem foi definida através de cotas sociais estipuladas pelo IBGE, como a repartição entre homens e mulheres, grau de instrução, idade e renda familiar. O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.
Outra pesquisa apresentada ao longo do evento foi a de alfabetismo funcional. Apenas 30% da população do Estado consegue ler um texto e identificar o conteúdo. No Brasil, esse índice é de 25%. Apesar dos resultados positivos em nível de país, editores contam que o Rio Grande do Sul está perdendo posições por conta da falta de aquisição de livros do Governo e do sucateamento das bibliotecas.
“Sempre fomos o terceiro pólo livreiro no Brasil. Mas hoje devemos ser o sexto. Minas Gerais, Paraná, Distrito Federal e sabe-se lá quem mais já nos passaram”, avalia o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.
O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda. “O gaúcho se vangloria de seu nível de leitura, mas esse índice começou a cair de forma vertiginosa. É um reflexo do desabastecimento de livros em escolas e bibliotecas”. Seu sócio na editora, Ivan Pinheiro Machado, completa o depoimento. “Quando distribuo um livro aqui no Rio Grande do Sul, sei que metade vai voltar, não vende. Mas se encaminho para São Paulo, logo estão me pedindo um novo repasse”.
“Bibliotecas públicas estão num atoleiro”
Em 2003, quando Germano Rigotto assumiu no Palácio Piratini, houve uma tentativa do Clube dos Editores do Rio Grande do Sul, Câmara Riograndense do Livro e Associação dos Representantes de Editoras do RS de convencer o Governo do Estado a comprar livros para escolas públicas.
A idéia era que a aquisição acontecesse através de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A proposta esbarrou no endividamento do Estado, sem condições de obter novos financiamentos. O Governo adiou por mais algumas temporadas o aparelhamento das bibliotecas.
Para 2007, a Câmara Riograndense do Livro terá um novo instrumento para pressionar o Governo. Trata-se de uma pesquisa que vai mapear e diagnosticar a situação das bibliotecas públicas e comunitárias em todo Rio Grande.
Esse “Raio-X” deve ficar pronto até o final do ano. “A idéia é ir nas autoridades e mostrar essa situação. Temos que tirar as bibliotecas gaúchas do atoleiro”, propõe o presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira.
O editor da Tomo, João Carneiro, que faz parte da diretoria da CRL, entende que a saída é mobilizar a sociedade para que as bibliotecas públicas e comunitárias sejam encaradas como um lugar de formação de leitores.
“São locais de difusão do conhecimento. Cada município precisa de um espaço bem equipado, com profissionais capacitados e verbas para custeio, isto é, para compra de livros. É um processo que vamos desencadear no início do ano que vem”, projeta Carneiro.
Um dos argumentos que será exposto ao novo Governo é a constatação, obtida na pesquisa feita pelo Ibope, de que a maior parte da população lê livros emprestados. Um terço dos entrevistados busca livros em bibliotecas e outro terço pede emprestado a amigos ou conhecidos. Apenas 32% do universo pesquisado vai às compras.
Outra informação importante é que as bibliotecas são uma referência importante, principalmente para jovens leitores: 35% dos gaúchos costumam freqüentar bibliotecas. O número mais que duplica quando o universo é reduzido à população com menos idade: entre 11 e 15 anos, 86% utilizam o serviço de empréstimo de livros.
A Câmara do Livro defende a popularização da biblioteca a partir da criação de pequenas salas de leitura e empréstimo de livros, seja em sindicatos, igrejas, condomínios. “Não adianta esperarmos por grandes prédios que têm alto custo, qualquer espaço pode receber uma biblioteca comunitária”, sustenta o presidente da entidade, Waldir da Silveira.
* Colaborou Naira Hofmeister
Leia mais sobre o assunto

Deixe um comentário