Da ocupação ao Presídio Central: o relato do repórter

MATHEUS CHAPARINI
É uma espécie de caixote de lata, todo pintado de preto pelo lado de dentro. Num dos lados, um banco, do outro, uma barra para prender algemas. Cabem ali duas pessoas, talvez três. Mas quando fui encaçapado na parte traseira do camburão da Polícia Civil, já eramos quarto.
Assim que a porta fecha, o ar fica escasso e quando a viatura anda, cai a total escuridão sobre os detidos. Ao todo, éramos dez, em três espaços do mesmo veículo.
Da Secretaria da Fazenda, no centro de Porto Alegre, fomos para a Delegacia da Criança e do Adolescente (DECA), onde ficaram os menores de idade. Dali, seguimos para a 3ª Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento, onde me identifiquei como jornalista e informei meu veículo. Em seguida fomos novamente embarcados.
Após uma parada de meia hora no presídio feminino Madre Pelletier para deixar as três jovens presas, seguimos para o Presídio Central, o lar gelado que nos aguardava no final de uma longa quarta-feira.
Na chegada, o clima é de pressão psicológica, como imaginávamos nós, os presos, quase todos em sua primeira visita a uma cadeia. Braços cruzados na altura do peito e cara na parede é o procedimento padrão.
Enquanto isso, soam ao fundo algumas piadas homofóbicas, comentários sobre uma briga violenta que estaria ocorrendo no presídio, o que não se confirmou, e o torturante ruído de um faca sendo raspada na parede por um brigadiano, como se a afiasse para alguma tarefa vindoura.
Fomos os sete identificados, revistados nus e encaminhados a uma cela do Jumbo, como os presos chamam o setor de triagem do Central, a “recepção do casarão”.
Nossa presença gerou um alvoroço entre os vizinhos da cela ao lado, mas o policial que nos conduzia esclareceu: “Não é duque!”
Duque treze é como são chamados os estupradores dentro do sistema carcerário. Estes presos costumam ficar separados dos demais. Havia dois “duques” na cela que nos aguardava, um espaço muito frio, de 3m X 4m, incluindo banheiro e um cheiro constante de merda e mijo.
Fomos presos pela Brigada Militar durante a ocupação da Secretaria da Fazenda por estudantes. O movimento queria uma reunião com o governador José Ivo Sartori, que, na véspera, havia fechado acordo de desocupação das escolas com um dos movimentos, integrado pela UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas) e pelo “Juntos”.
O Comitê das Escolas Independentes (CEI) não reconhece o acordo. “Foi mais uma rasteira da UBES”, afirmou um rapaz, “não nos representa”, definiu uma moça.
A intenção do grupo era conseguir uma reunião para negociar com o chefe do executivo. A intenção deste repórter que vos escreve era apenas noticiar este acontecimento.
O saldo foi a prisão de mais de 40 pessoas, a maioria menores de idade, quase todos estudantes, além deste repórter e do cineasta Kevin Darc, que prepara um filme sobre as ocupações escolares Brasil afora.
A ocupação foi decidida em reunião no início da manhã no Colégio Estadual Júlio de Castilhos.Os estudantes ocuparam o prédio em torno das 8h.
Às 9h chegou ao prédio o secretário adjunto da Fazenda, Luiz Antonio Bins. Vinte minutos depois, o secretário entrou no prédio acompanhado pelo comandante do policiamento da capital, Mário Ikeda, para uma reunião.
A reunião aconteceu na parte do prédio voltada para a rua Siqueira Campos. Apesar de os estudantes ocuparem somente a parte da Mauá, as duas entradas estavam fechadas. Conversei pela janela com uma funcionária terceirizada, que trabalha na faxina.
Ela contou que trabalha das 6h40 até as 16h50, tem 4 filhos estudando em escola estadual em Viamão. Ela considera que o ensino estadual está “péssimo”, mas não tem posição em relação às ocupações.
Rapidamente chega o Batalhão de Operações Especiais da Brigada Militar. Inicialmente eram oito viaturas e cerca vinte homens, vários mascarados e sem identificação na farda. Os agentes isolaram uma larga área ao lado do edifício, onde  comandante do 9º BPM, tenente-coronel Marcus Vinicius Oliveira. falou com a imprensa.
Ao fim das perguntas dos jornalistas, um estudante ponderou: “Não podemos esquecer que são menores de idade, né?”, ao que o comandante respondeu: “Só sei que são invasores”, e um mascarado exaltado encerrou o assunto: “Eu sei que são menores, ninguém aqui é retardado!”
Às 10h20, os estudantes pintavam uma faixa com o texto “Sem violência, lutamos pela educação”, quando escutaram apitos e tambores se aproximando da entrada da avenida Mauá. Eram estudantes, professores e militantes que vieram prestar apoio à ocupação. “O meu! Os nossos professores são muito foda, eles estão trancando a Mauá por nós”, exclamou uma menina”.
Até aí, tudo transcorria relativamente bem, apesar da presença cada vez maior do choque. Neste momento, já havia mais policiais do que estudantes.
Às 10h25, os estudantes se reuniram com o tenente-coronel Mário Ikeda. O diálogo foi rapido e os estudantes ganharam um prazo de dez minutos para desocuparem o local. E foi aí que começou o problema.
Os estudantes decidiram ficar no prédio. Eles questionavam a falta de uma reintegração de posse e exigiam a presença de advogados e do Conselho Tutelar no local, o que só foi permitido depois de iniciada a ação da Brigada Militar. Os jovens sentaram no chão e se deram as mãos, como forma de defesa.
Os brigadianos arrancaram um por um os estudantes, carregados pelas pernas, braços ou pela roupa. O spray de pimenta tomou o ar no saguão da Secretaria da Fazenda. A cada investida da tropa, os gritos de desespero das meninas e meninos se faziam ouvir. O capitão Trajano, que orientava a remoção dos ocupantes, chegou a esgotar um tubo inteiro, direcionado para o rosto dos estudantes, e solicitou mais um.
Os policiais estavam bastante exaltados e o capitão precisou conter seus homens pelo menos duas vezes.
Os relatos de agressões são diversos. Além de lançar o spray diretamente no rosto dos adolescentes, uma menina teve o pé pisado por um policial, um rapaz relata que levou dois socos na cabeça e outro disse que foi arrastado na escadaria de saída do prédio. Há um caso mais grave, de uma moça que relata que um grande hematoma no seu peito foi ignorado no exame de corpo de delito. Outro problema era a ausência de uma mulher para a realização dos exames.
Permaneci na secretaria até a retirada do último estudante, quando decidimos, eu e o cineasta Kevin Darc, sair do prédio e acompanhar o movimento do lado de fora. Neste momento, também fomos presos. Nos identificamos como profissionais de imprensa e a resposta do capitão foi: “Pra mim tu tá junto.”
Na saída, um homem vestido à paisana e com o rosto escondido por uma toca ninja semelhante à dos policiais arrancou o celular da minha mão. Ali estavam todas as fotos e vídeos que eu havia feito durante a cobertura, além de informações pessoais e profissionais.
Insisti em reaver meu telefone, enquanto brigadianos tentavam me empurrar para fora do prédio. Consegui pegar o aparelho, mas não evitar a prisão.
Ao meio dia teve início uma peregrinação que foi até a sede do Deca (Departamento Estadual da Criança e do Adolescente), 3ª DPPA, no bairro Navegantes,  depois Palácio da Polícia, 3ª DPPA novamente, Madre Pelletier e, por fim, Presídio Central.
Os maiores de idade foram conduzidos algemados até a cadeia, de onde só puderam sair em torno das 2h da madrugada. Mas o caso não acaba aí.
Os presos, incluindo este repórter, receberam liberdade provisória e vão responder a processo por dano qualificado em patrimônio público, associação criminosa e esbulho possessório. Os maiores de idade responderão ainda por corrupção de menores. É o caso deste repórter, preso durante o exercício profissional.

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Comentários

9 respostas para “Da ocupação ao Presídio Central: o relato do repórter”

  1. Avatar de Joana Berwanger
    Joana Berwanger

    Inacreditável!!!

  2. Avatar de Luis Augusto Waschburger
    Luis Augusto Waschburger

    Qual a razão das algemas? Revogaram a Súmula Vinculante nº 11 do STF? Eis o texto:
    “Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio
    de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte
    do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito,
    sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da
    autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere,
    sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.”

    1. Avatar de bolivardandrea
      bolivardandrea

      É bom que se espalhe esse tipo de coisa, o pessoal tem que saber dos seus direitos. O capitão da brigada, que aparece nas filmagens, merece um processinho também. Tem que ir atrás e não deixar passar!

  3. Avatar de fabrizio suarez
    fabrizio suarez

    policia militar tem q acabar!! ou, se não acabar, se submeter as leis civis qnd cometem crimes… o tribunal militar onera o estado e absolve todos esses bandidos fardados…

  4. Avatar de Luciane Cuervo
    Luciane Cuervo

    Estou estarrecida, indignada, deprimida. Policiais desalmados, governo desumano. 64 é aqui e agora.

  5. Avatar de Marilia
    Marilia

    Vivemos num estado de exceção. Desmilitarização Já! QUe vergonha essa polícia, que vergonha esse desgoverno!

  6. Avatar de Kharmen Kaldarash
    Kharmen Kaldarash

    Não sei o que dizer!!! Estou perplexa,entristecida e revoltada com tamanha brutalidade cometida aos profissionais que foram fazer o seu trabalho, e a crueldade com que nossos alunos foram tratados. Meu Deus…a que ponto chegou este “desgoverno”!! Acredito que ele costuma ganhar as coisas só no grito; não sabe negociar,dialogar e muito menos se apresenta para, pelo menos, tentar compreender o que se passa nas escolas que eles JAMAIS colocam os pés para saber como estão.
    TRISTEZA, REVOLTA TOTAL COM A BRIGADA MILITAR POR TER ACATADO ESTE ATO TÃO CRUEL CONTRA PESSOAS DE BEM!!!!!

  7. Avatar de Nihil Obstat
    Nihil Obstat

    Essa turminha que anda invadindo escolas por aí, não se dá conta de que não passam de massa de manobra de partidos políticos. Quanto ao jornalista, se estava no “bolo”, teve o que merecia. Na verdade ele não estava fazendo nenhuma cobertura no local, estava atuando junto com os baderneiros invasores “dimenor”. Agora, como ninguém conhece o jornal dele ou ele próprio, fica se vitimizando, para aparecer e se tornar conhecido. Sobre a “cobertura” que ele faz do movimento há mais de um mês, o que ele tem a relatar?

    1. Avatar de Matheus Reinheimer Schopf
      Matheus Reinheimer Schopf

      Gente como você merece o Sartori, simples assim!!! Entenda como elogio!!!

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