ELMAR BONES
“A fila andou, morreu o Ucha”. Eu estava acordando. Puxei de volta o cobertor sobre a cabeça, não podia ser. Lembrei dos versos que gritávamos nas madrugadas insanas da fronteira. “Que sabem vocês, inúteis diletantes?”. Repassei em segundos quase 60 anos de amizade e me dei conta: morreu um gênio do bem!
Isso foi o que sempre vi nele, desde que nos conhecemos ainda adolescentes. Uma inteligência superior, humilde, operosa, voltada para o entendimento, a solução, a harmonia, o lado positivo.
Foi assim que ele surgiu naquele distante 1962: um candidato que iria unificar o movimento estudantil radicalizado, naquela cidade conservadora que era Santana do Livramento.
Compôs a chapa com Aurélio Guerra, que trazia o apoio da parte mais esclarecida da elite local. Venceu com larga margem e seus primeiros projetos foram: um jornal, “Estudante Hoje”, e um evento esportivo para aproximar jovens de ambos os lados da fronteira de Brasil e Uruguai, os Jogos Internacionais da Primavera, evento pioneiro inspirado pelo grande mestre Rubens Mandarino.
No segundo semestre de 1963, um dos projetos da União Santanense de Estudantes era engajar os estudantes num programa de alfabetização de adultos – um terço dos adultos eram analfabetos na região.
Então, veio o golpe em 31 de março de 1964. A USES se alinha à resistência e uma faixa “OS ESTUDANTES ESTÃO COM JANGO” é estendida na frente da Prefeitura.
Surgem contestações. Um grupo, açulado pelos conservadores a favor do golpe militar, questionou o posicionamento da entidade: não representava a opinião de todos os estudantes. Uma assembléia à noite no porão da igreja não chega ao fim. É dissolvida por uma força do exército, que cerca o prédio. Um capitão e um tenente, de metralhadora em punho, tomam a porta e ordenam a saída, um a um, todos direto para casa sem comentário.
Lembro que saímos pela rua escura. Conhecíamos cada centímetro por ali, mas era como se caminhássemos sem rumo. Alguma coisa havia desmoronado. Depois vieram as ameaças, as prisões e a morte de amigos.
Bem mais tarde ele escreveria: “A palavra do revolucionário/ morreu na boca fuzilada”
A partir dali ele abraçou integralmente o jornalismo. Fez sua opção radical silenciosamente, sem explicar nem justificar. Fez por razões práticas indiscutíveis.
Começou pela base, como revisor, num tempo em que o jornal era impresso no chumbo antes de passar para o papel. Foi cronista, repórter, editor, diretor ao longo de sua carreira em grandes jornais e encarnou todas essas funções no jornal da Noite, que fundou há 30 anos para escrever sobre as coisas de que mais gostava – viagens, arte, boemia, vinho e boa carne.
Sua produção é impressionante – reportagens, notícias, colunas, crônicas, críticas, sem falar nos livros que publicou e dos que deve ter inéditos.
Seu testemunho é imprescindível para quem quiser escrever a história deste tempo entre nós. A indústria vinícola, por exempo: será impossível descrever a sua evolução sem recorrer aos seus inúmeros trabalhos.
Se quisesse ser amargo, diria que meu querido amigo Danilo Ucha malversou um imenso talento quando o colocou a serviço de uma profissão ingrata, que ainda exigia dele, aos 72 anos, mais de dez horas de trabalho por dia.
Mas pensando bem e vendo o que ele deixou em sua trajetória, acho que ele estava certo. Como sempre.
Danilo Ucha, um gênio do bem
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Comentários
Uma resposta para “Danilo Ucha, um gênio do bem”
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Bonito texto! Obrigado por compartilhar!

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