De Porto Alegre ao Porto Seco

Arthur Bloise *
Minhas primeiras lembranças do Carnaval de Porto Alegre são a de ser levado pela mão, com a família, lá nos idos dos anos 70, pela Avenida João Pessoa. Chamava atenção aquela multidão, cheiro de churrasco de rua no ar, fantasiados passavam apressados e música nos rostos e bocas. O samba de Porto Alegre tem outra cadência, outra estrutura, isso lhe dá uma especificidade muito especial. As pessoas que não estavam nas arquibancadas eram em número muito maior, milhares circulando pela madrugada, velhos, jovens, crianças. As que levavam as suas cadeiras de praia e ficavam no “setor da corda”, então – antes e depois das arquibancadas – eram incontáveis. Não tinha hora para o bloco ou escola de samba entrar e sair. Ficava-se a noite esperando e de repente, acontecia.
Ao contrário do discurso discriminatório de que “Porto Alegre não tem carnaval”, a cidade tinha vários carnavais. Antes de nós, teve na João Alfredo, teve na Borges. Tinha carnaval na zona norte e em muitos outros lugares. Carnaval de blocos, sociedades e salão. No fim dos anos 70 e anos 80, creio eu, a cidade teve um dos melhores carnavais de salão do país. Quem não gostava da rua podia se esbaldar no Verde e Branco, Vermelho e Branco, Municipal e praticamente todos os clubes da nossa querida capital tinham não um, mas muitos dias com muitos bailes de carnaval.
Na Santana, a Dona Maria Bravo garantiu por décadas um carnaval democrático. Lá não tinha cobrança de ingressos, mal tinha um coreto patrocinado por algum comerciante do bairro e a regra era clara: em algum momento, sabe-se lá quando, após o desfile oficial, as escolas virão aqui. E iam. Passar na Santana e ser ovacionado pelo público era tão ou mais importante que ganhar o desfile oficial. E na Santana, a mesma cena: famílias inteiras com cadeiras e sacolas cheias de pastel, sucos, cervejas e tudo o que se precisa para uma noite de festa na rua.
O tempo passou e, da João Pessoa, os desfiles migraram para a Perimetral. Tão lindo quanto as escolas era a decoração. Chegou a haver um ano em que o piscar das luzes acompanhava a batida de cada bateria de cada escola. Comprar ingresso para os desfiles era obra de logística impensável. Dois ou mais dias, antes de abrirem, nas bilheterias já havia gente acampada. Pretos, brancos, pardos, gente da periferia vinha de longe. Eram os quatro dias em que o espaço central da cidade era deles. Como sempre afirmam os sambas: quatro dias de reinado para os que não são nada. Enquanto grassava o discurso da cidade sem carnaval, vi com esses olhos, por vários anos, grupos de turistas argentinos e uruguaios participarem da festa atônitos. Eles não estavam interessados nas escolas de samba. Eles queriam era saber das tribos. Ah… essa coisa gaúcha e porto-alegrense que nos diferencia de todos os outros carnavais.
Aqui, conseguimos juntar os negros fazendo tribos indígenas no carnaval. O “must” para quem, de fora, está à procura das nossas peculiaridades e não das nossas mesmices. Meu avô, Décio Ferreira, ajudou a construir uma dessas: os Caetés. Lá nos tempos da Ilhota, outra comunidade pobre e predominantemente negra. Ficava ali onde hoje é o ginásio Tesourinha.
Porto Alegre tinha duas Muambas. O que hoje é chamado de ensaio técnico – expressão horrível para o carnaval – era o momento de afinar as baterias e ver o povo cair na folia sem oficialismos. Tinha a muamba oficial e a outra patrocinada por uma rede de comunicação que, à época, era administrada por seu fundador que tinha alguma preocupação social. Hoje, a família toca os negócios. O social ficou na lembrança.
Rua do Perdão, as bandas… As ruas com gente que trabalha e sorri. Apesar da vida que pouco sorri para essa gente.
Num dia de inverno do início dos anos 90, trabalhava eu na Câmara de Vereadores, fiquei sabendo de uma reunião de grupos contrários à construção do sambódromo na rua que fica transversal à Augusto de Carvalho, onde já, naquela época era o local dos desfiles. Chamou a minha atenção a composição do grupo: muitos indivíduos sem representação coletiva ou associativa, se dizendo ecologistas e tradicionalistas. Não queriam o carnaval ali de jeito nenhum. Desde as árvores (exóticas) que seriam derrubadas até o barulho que prejudicaria a população eram argumentos. Algum tempo depois, presenciei um espetáculo de intolerância absurdo: uma mobilização para a retirada da quadra da Imperadores do Samba que ficava na esquina da Ipiranga com a Érico Veríssimo. Desde moradores que se mudaram para o prédio ao lado da quadra – mesmo esta sendo bem mais antiga – até padre da paróquia local se uniu para banir o samba do vermelho branco. Independentemente de gostos de carnaval: quem nunca se esbaldou num ensaio do “Imperador”???
Pois bem, a prefeitura apresentou um projeto para que o sambódromo fosse quase atrás do Beira-Rio. Mobilização dos mesmos grupos, mesmos atores, mesmos argumentos. Chegaram a afirmar que o sambódromo desvalorizaria os imóveis, como quem insinua que vai ser construído um presídio. E não teve sambódromo e finalmente, fomos todos enxotados para o deserto das almas, num espaço outrora destinado a depósito de cargas, o tal Porto Seco.
Vim até aqui nesse papo melancólico de quem gosta de carnaval e do carnaval de Porto Alegre para afirmar que, sem sombra de dúvida, este é um exemplo claro do tipo de cidade que se planeja. Em abdicar de tomar para si e definir um projeto de cidade que contemple a sua população em sua diversidade, Porto Alegre vira a cidade planejada pelo mercado. Quem tem dinheiro planeja e executa. Quem não tem, a periferia é seu lugar. Nada mais clássico em se tratando de cidades nesses tempos de cidade-mercadoria.
O carnaval e seu povo errou quando aceitou a ida para o Porto Seco docemente. Erramos quando, em algum momento, nos referenciamos no carnaval do Rio e começamos a acreditar em escolas com carros enormes, estrutura permanente de cimento, etc. É preciso repensar se não é hora de voltar para onde o carnaval jamais deveria ter saído: o centro da cidade. Aliás, o que tem de semelhança os carnavais de Buenos Aires, Montevidéu e cidades europeias? Todos são no centro. Todos são para toda a população. Por quê? Porque o espaço público é para ser ocupado e o centro das cidades tem um simbólico de ser onde as coisas importantes devem acontecer.
Ocupação de espaço público pela população é muito bom para a população e muito ruim para quem não quer povo na rua.
O que vemos hoje é uma situação muito paradoxal na cidade: são trinta dias de carnaval de blocos no centro e o cancelamento de um dia de desfile no Porto Seco na periferia por falta de condições. Fica aí uma dica sobre a questão étnica e como ela é tratada nos pampas. Não é a toa que o povo de escola de samba é predominantemente negro. Classe e etnia cabem aqui.
Outro paradoxo: Uruguaiana, interiorzão aqui mesmo no RS, terra de tradição, dá um show quando faz um carnaval para 50.000 pessoas. Ah… mas no centro não tem espaço para os carros alegóricos. Carro alegórico? Por um carnaval mais horizontal, mais participação…
Enquanto isso, um jornal de Porto Alegre se gaba de a cidade estar ocupando os espaços públicos. Sim, estamos. Invariavelmente estamos ocupando os espaços públicos com eventos privados! Nada contra os eventos privados. Mas cadê a capacidade da cidade e sua administração, que já teve momentos memoráveis como os Bailes da Cidade na Redenção nos anos 90, planejar essa ocupação para que seja permanente e não dependente da boa vontade particular?
Vamos cedendo lentamente e a cidade vai sendo literalmente engolida pelo planejamento privado. É o Cais Mauá, são os shopping centers em profusão, a possível privatização do Mercado Público, cercamento de parques e praças. Vai se criando propositadamente um clima de guerra na cidade para justificar uma cidade com medo e uma cidade armada. Logo, logo e veremos a higienização social da cidade, algumas pinturas de meio fio e muito asfalto, garantia de eleição e reeleição em cidades mentalmente ganhas para esse modelo insustentável. Enquanto isso, um projeto que restringia a circulação de carros no centro histórico para dar lugar às pessoas e a ocupação permanente desse espaço é rejeitado veementemente. Mas planejar estacionamento com 4000 vagas para carros no Cais Mauá pode. Aliás, quando a cidade terá a chance de debater que o cais Mauá poderia ser um parque? E que o carnaval poderia ser lá? Sem chance. Já perceberam que quando o evento é público sempre tem problema de horário e barulho? Quando é privado parece que a tolerância aumenta.
Termino afirmando que estamos num bom momento para repensar a cidade. A comunidade carnavalesca de escolas de samba, talvez unida com os blocos que positivamente ocuparam seus espaços no centro e todos os que pensam a cidade como capital de cidadania e democracia precisarão muito mais do que fotos ao lado de candidatos a administradores da cidade para manter esta festa popular. O lugar do carnaval, o lugar das pessoas confraternizarem deve ser o Centro. O Centro deve ser das pessoas, o centro deve ser as pessoas.
Nada contra São Patrício, mas a cidade é de Nossa Senhora dos Navegantes, a Iemanjá.
*Geógrafo, servidor federal da UFRGS

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