Desafios do jornalismo ambiental em debate


O evento reuniu 100 pessoas neste final de semana na Faculdade de Comunicação da UFRGS (Foto: Tatiana Feldens/JÁ)

Patrícia Benvenuti e Tatiana Feldens

Há dois ingredientes básicos para o bom jornalismo: capacitação e ética. Essa foi a principal conclusão do I Congresso de Jornalismo Ambiental do Rio Grande do Sul (Conjars), que reuniu 100 pessoas neste final de semana em Porto Alegre para debater a cobertura ecológica no Estado. O evento, na Faculdade de Comunicação da UFRGS, também antecipou algumas discussões do 2º Congresso Nacional de Jornalismo Ambiental, que acontece em outubro na capital gaúcha.

A jornalista Elisângela Paim, do Núcleo Amigos da Terra Brasil (NAT/Brasil) faou que um dos papéis a imprensa é advertir a sociedade sobre os impactos do consumo desenfreado e o modelo de desenvolvimento econômico. “A mídia sempre apresenta as coisas em momentos episódicos, nunca em uma visão abrangente”, denuncia.

A questão do consumo também foi tratada pelo filósofo Vicente Medaglia, do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Inga) como causa da crise socioambiental. “Os valores da sociedade estão errados, as sociedades estão se auto-destruindo”, acredita. Segundo o ecologista, as pessoas confundem felicidade com consumo. Para ele, a imprensa deve desenvolver um modelo de felicidade que seja sustentável. Mas alertou que o sistema midiático é mantido por um sistema insustentável.

Entrando no campo da ética, o jornalista Roberto Villar Belmonte, da revista Campo Aberto, ressaltou a importância de pessoas conscientes nas redações. “Apesar dos nossos condicionamentos, como a ideologia, somos livres para escolher notícias e fontes”, disse. Villar acredita que a defesa da vida é o maior objetivo do jornalismo ambiental e que por isso não devem ser estabelecidas parcerias com as chamadas “empresas da morte”. Como exemplo, cita as entidades ligadas ao ramo dos agrotóxicos e do fumo.

Como alternativa à mídia tradicional, o ambientalista Tiago Eduardo Genehr, do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, defende o fortalecimento de mídias alternativas, como veículos das próprias instituições ecológicas. “São pequenas vozes que questionam nosso modo de vida e de consumo. É algo bem mais reflexivo e engajado”, comenta. O ambientalista critica a postura da mídia tradicional, que querendo ser neutra, acaba sendo passiva, e por sua vez deixa de relacionar os fatos, sem chegar na “raiz” das questões. “A grande mídia não questiona e torna verdade informações do governo e de assessorias de imprensa”, condena.

A jornalista da ONG Estação Vida, Gisele Neuls, que trabalha há um ano no norte do Mato Grosso, diz que o Estado vive abalado por questões ambientais. A área do Portal da Amazônia é composta por 16 municípios e 110 mil Km², dos quais 31% já foram depredados. A região é caracterizada por uma forte concentração de terra e de renda, pela pecuária (“onde o trabalho escravo é altamente lucrativo”), extração madeireira (“a ilegalidade é altamente lucrativa”) e assentamentos do Movimento Sem-Terra (MST). “É difícil trabalhar com esse público, que só vê a possibilidade de riqueza na exploração de recursos naturais”, conta Gisele. De acordo com ela, o pequeno agricultor reconhece o impacto da ocupação, mas fica dividido entre um sentimento de culpa e de revolta. “Eles sabem do mal, mas dizem que não tem culpa de terem sido levados para lá. É preciso ter muito cuidado para não afugentar ninguém”, completa. O trabalho da ONG no local é dificultado por interesses coronelistas e políticos. A equipe da instituição já sofreu ameaças “indiretas”.

“A importância do substantivo”

Wilson da Costa Bueno, doutor em Ciências da Comunicação e membro da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, discursou sobre a necessidade do jornalismo ambiental, o marketing verde e a eco-propaganda freqüentarem “galáxias distintas”. “Não é a mesma coisa, mas há uma tendência no mercado de aproximação, e isso é preocupante”.

O professor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/SP) também critica o que chama de “Síndrome de Lattes”, em que o jornalismo tende a ficar refém do saber técnico de pesquisadores que se sentem os donos da verdade. “Restringir o debate de opiniões porque elas não vêm de especialistas é um erro”, avalia. “Todos devem opinar e não apenas um círculo restrito de fontes que já se venderam para as grandes corporações”, ataca. Polêmico, Bueno desafia os que consideram que o jornalismo deve ser neutro. “Um jornalista que se diz neutro é no mínimo babaca”, provoca.

Semelhante avaliação tem o jornalista uruguaio Victor Bacchetta, que palestrou na sexta-feira 19 de maio, na abertura do Congresso,. Segundo o membro-fundador da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e Caribe – Rede Calc, no momento em que o veículo define sua pauta de trabalho já deixa de ser neutro, por que dentre os milhares de assuntos, define apenas alguns.

“O jornalista deve tratar o tema escolhido como um especialista ou profissional, sendo objetivo e responsável no tratamento de todas informações e das fontes relacionadas. O jornalismo que pretende ser gerador de cidadania deve deixar as opiniões pessoais e partidárias de lado. Sua tarefa principal consiste em apresentar a maior quantidade de elementos e da melhor qualidade possível, para que o leitor possa compreender o tema, sua origem e evolução, formando sua própria opinião,” finaliza.

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