Naira Hofmeister
Em algum lugar no bairro latino de Miami, Nancy deve ter olhado para aquela cena da bandeira cubana sendo hasteada em Washington, na última segunda-feira, (20) dividida entre o alívio e o rancor.
Quantas histórias como a sua poderão ser evitadas a partir do restabelecimento das relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba, simbolizados pelo ato transmitido pelas TVs em todo o mundo?
Naquele ano de 2006, ela havia decidido – apesar do aperto no peito que lhe provocava – ir embora de Havana. Nancy amava seu país e o regime dos irmãos Castro: seus olhos se acendiam e a boca se rasgava em um sorriso muito vermelho de batom quando ela apontava, do “balcón” do apartamento em Centro Havana, com exatidão, o caminho percorrido por Fidel diante de sua janela, em uma celebração do aniversário da Revolução Cubana.
A saudade da pátria, entretanto – ela calculava – haveria de doer menos que a da filha, que deixara o país ainda adolescente: primeiro circulou pela América Central em busca de um emprego que pagasse mais que os 15 dólares mensais de teto salarial vigente em Cuba. Em Porto Rico encontrou a oportunidade como corretora de imóveis e a passagem do território norte-americano para o continente foi rápida.
Durante quase uma década, elas haviam se visto uma única vez quando a menina conseguiu visitar a mãe durante uns poucos dias, já que a permanência em território nacional era rigorosamente contabilizada – e taxada – pelo governo cubano. Telefonemas tampouco eram frequentes.
O quarto da “niña” não havia sido desmontado e nele Nancy recebia estrangeiros que estivessem de visita ao país. Ilegalmente, já que ela não havia se registrado e nem pagava as taxas ao governo para ter tal autorização.
Quando eu conheci o espaço – no qual morei durante três meses – ela me disse que seríamos “como mãe e filha” – “porque eu hoje estou só, e tens a idade da minha menina” – e foi assim que eu fui introduzida a esse drama tão universal da separação, mas que em Cuba tem um inegável apelo especial.
A cada aluguel mensal recebido – que equivalia a cinco dias em uma pensão autorizada barata, mas cujo valor era bem mais alto que os tais 15 dólares de teto salarial – Nancy conseguia pagar para entrar uma vez no então chamado escritório de interesses dos Estados Unidos em Cuba, diante do qual um outdoor provocava: “Señores imperialistas: no les tenemos ningún miedo!”
Hoje esse prédio é a embaixada americana e duvido que a mensagem ainda esteja lá.
Uma vez dentro do edifício, ela precisava contar com o bom humor dos funcionários. Durante o período em que estive com ela, nunca houve boas notícias. A cada visita, Nancy voltava com instruções diferentes das que havia recebido da vez anterior. E com uma lista de novos documentos que precisava providenciar – todos com alto custo para a maior parte da população cubana.
Mas se a burocracia fazia o possível para que ela desistisse, sua filha, do outro lado daquele estreito que os balseiros atravessam, deu uma forcinha ao ânimo materno: engravidou. Brindamos com Havana Club Añejo Especial e nem sentimos a ressaca no dia seguinte, tamanha a felicidade (eu também já a sentia como minha) com o anúncio da chegada do Máximo – Nancy se divertia com o nome escolhido para o netinho.
Graças a ele Nancy não desistiu: pensava no neto, na ajuda que precisaria dar a filha e ria com as lições de inglês que tentava aprender. As vezes, a galhofa escondia um certo nervosismo, porque dava para sentir que ela estava morrendo de medo de não se adaptar, de deixar a pátria da qual era uma entusiasta, de ser confundida com uma traidora.
De noite me perguntava como era estar longe de casa, e, acho, devia se perguntar como seria estar longe de casa. Mas embora buscasse nas minhas palavras algum alento era impossível esquecer que eu tinha uma passagem de volta comprada, que só precisava ir até a companhia aérea para postergar um pouco mais enquanto não cumprisse “minha missão” naquele lugar: cobrir uma suposta abertura de Cuba após o afastamento (que era temporário mas que depois de dois anos foi oficializado) de Fidel Castro do poder.
Como para lograr tal objetivo seria preciso permanecer na ilha quase 10 anos, retornei a Porto Alegre sem poder testemunhar esse momento histórico. Nancy tampouco consegiu.
Ainda sob o impacto daqueles três meses sobre os quais não construí outras certezas além do imenso amor por aquele povo feliz, recebi a notícia de que ela havia finalmente conseguido seu visto e a passagem aérea para Miami.
Na sua despedida, soube que preparou um prato de lagostas – caríssimas para os nativos da Ilha, que ela comprava no mercado negro como todas as iguarias que de vez em quando nos dávamos ao luxo de consumir. O mesmo que havia feito em meu aniversário de 25 anos.
Durante todos esse anos ela nunca deixou de me abastecer com informações sobre “su Cubita querida”: mandava fotos de Fidel Castro em mesas redondas, artigos de jornalistas sobre a Ilha e até uma manchete que dizia “Fidel Castro é considerado o maior estadista do mundo por um jornal de Bangladesh”.
Quando o comandante em chefe se afastou definitivamente das funções administrativas, em 2008, e o poder ficou nas mãos de Raúl, ela me escreveu: “Ele não podia permitir que o elegessem dada dua idade e complicado estado de saúde. Está velho e doente, mas segue sendo Fidelllllllll, para os que queiram e para os que não”.
Nancy nunca deixou de amar a seu país e ao seu povo. Aos poucos deve ter se acostumado aos norte-americanos e talvez até tenha assistido à cerimônia de içamento da bandeira cubana pela televisão (antes ela havia me confessado que preferia desligar o aparelho quando começavam a falar de Cuba, porque não aguentava ouvir os “horrores e as idiotices” dos comentaristas sobre sua pátria).
Fico pensando se Nancy vai poder desfrutar dessa aproximação, se tentará visitar familiares e amigos que seguem em Cuba ou se o trauma da burocracia é forte demais para ser superado. Ou então se a crise econômica não a colocou em dificuldades ou ainda se o tempo não terá apaziguado seu coração e aplacado as saudades.
O último e-mail que recebi dela, em janeiro deste ano – Nancy nunca se esquece do meu aniversário e todos os anos me manda saudações virtuais – terminava com um singelo “with love”.
Desde Cuba, with love
Escrito por
em
Adquira nossas publicações
texto asjjsa akskalsa

Deixe um comentário