Dilma já sonha com a primavera

Na sua passagem por Porto Alegre, a presidenta Dilma Rousseff retomou as rédeas do seu governo, abalado recentemente pelas manifestações populares que varreram o país de norte a sul.
Falante e otimista, a presidenta garantiu que o dragão da inflação finalmente se acalmou e que a recente queda de 0,1% do nível do emprego não é nada nesse momento de maré baixa da economia mundial.
Olhando por outro lado, a taxa de desemprego em torno de 6% seria um fenômeno quando comparada, por exemplo, aos 25% da Espanha ou aos 12% dos EUA. Pois bem, retomando o fio da meada econômica – sem a emergência marqueteira que ronda os passos da presidenta –, devemos reconhecer que ainda estamos longe de um bom diagnóstico da situação, pois os dados são muito contraditórios.
Numa entrevista coletiva “improvisada” no saguão do edifício em que se hospeda em Porto Alegre, a presidenta Dilma Rousseff retomou as rédeas do seu governo, abalado pelas manifestações populares, mas dando sinais de recuperação nas últimas pesquisas (o índice de aprovação subiu 8 pontos no Ibope).
Aos repórteres que tentaram extrair-lhe uma declaração típica de quem está em campanha pela reeleição, Dilma disse estar com todo o gás para trabalhar “até o dia 31 de dezembro de 2014”.
Falante e otimista, a presidenta garantiu que o dragão da inflação finalmente se acalmou e que a recente queda de 0,1% do nível do emprego não é nada nesse momento de maré baixa da economia mundial.
Olhando por outro lado, a taxa de desemprego em torno de 6% seria um fenômeno quando comparada, por exemplo, aos 25% da Espanha ou aos 12% dos EUA.
Pois bem, retomando o fio da meada econômica – sem a emergência marqueteira que ronda os passos da presidenta –, devemos reconhecer que ainda estamos longe de um bom diagnóstico da situação, pois os dados são muito contraditórios.
Primeiro, onde a coisa vai mal? Como sempre, o maior nó aparece no fronte externo: dólar em alta, exportações em queda, importações crescendo, dívida governamental realimentando os juros básicos da economia.
Desconexão
No front interno, marcado pela estagnação do consumo e o aumento do endividamento das pessoas, a pressão inflacionária recolocou no horizonte o risco do desemprego, mas nesse campo o jogo se encaminha para o empate. Mesmo com a supersafra 2012/13, o aquecimento do mercado da construção civil e a desoneração fiscal de vários setores, a indústria brasileira viu cair o volume de encomendas. É uma situação desconexa. Até parece que de nada valeu o refresco da redução das tarifas de energia em fevereiro.
Refresco? Nada disso, a redução das tarifas elétricas foi vitamina na veia, mas parece não ter funcionado, pois a economia havia sofrido o aumento dos derivados de petróleo. Mas é lógico pensar que sem as reduções de tarifas e impostos a situação teria ficado muito pior. Isso só vamos saber depois que baixarem totalmente as águas do tsunami de junho/julho.
O que sabemos é que, combinando descontentamento político com insegurança econômica, as manifestações populares comandadas pelas redes sociais levaram 30 pontos percentuais da credibilidade de Dilma Rousseff, que já vinha disparando os primeiros tiros eleitorais contra Aecio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva.
Até José Serra saiu da cova para dizer que não morreu, como havia ficado mais ou menos claro em novembro de 2010. Aí veio o Papa pra dar uma folga ao bumba-meu-boi petista. Depois de lançar alguns projetos logo queimados pelos aliados e opositores de plantão, a presidenta volta ao ponto de origem, em Porto Alegre, em busca de uma primavera ainda distante.
Um dos diagnósticos da crise diz que o governo federal errou ao apostar no consumo fácil. Esses críticos vinculados à ortodoxia acadêmica acham que na economia não pode haver rédea frouxa. Mas qual seria a alternativa? Os manuais da economia não têm receita para situações anômalas.
Em artigo recente, o jornalista (formado também em economia) Luis Nassif atribuiu ao ministro Guido Mantega a culpa pela atual “crise” econômica brasileira. É muita crise para uma só pessoa. Sem brilho pessoal, Mantega não age sozinho, embora pareça bastante isolado na Fazenda.
No fundo, no fundo, vem sendo fritado em pouca gordura, mas o PT não dispõe de nenhum economista realmente equipado para exercer o cargo mais pesado do Planalto, depois da Presidência. O veterano Paul Singer, por exemplo, é muito respeitado, mas não tem interlocução com as cúpulas empresariais nem se sujeita a usar gravata.
Como solução para a “crise”, recomenda-se (ao governo) aumentar os investimentos em infraestrutura, como se à obrigação de ter uma política econômica austera a Presidência devesse somar o encargo de orientar e financiar os empreendedores privados.
Estatal ou liberal
A estes bastaria entrar com a gestão e, depois, desfrutar dos lucros, numa repetição de outros ciclos de crescimento da economia brasileira – lembremos apenas os governos militares, o tempo de JK e a longa época de Vargas. E acabamos na velha lenga-lenga: se o governo comanda, é estatizante; se deixa rolar, é liberal demais.
O Programa de Aceleração do Crescimento está devagar não apenas porque faltam recursos, mas porque não há projetos executivos e demoram as licenças ambientais. Recursos, projetos e licenças: o tripé de ouro do desenvolvimentismo roussefiano funciona precariamente, mas a culpa não é só do governo federal.
E aqui entramos numa discussão político-econômica aquecida pelas recentes manifestações populares: qual o modelo que queremos?
Uma economia comandada por grandes investimentos público-privados em usinas, aeroportos, pontes, estradas, ferrovias – tudo isso com escasso controle ambiental?
Ou uma economia ecologicamente sustentável centrada nos pequenos negócios?
Os grandes empresários, os professores de economia e os políticos acham graça dessa última hipótese, mesmo sabendo que o capitalismo predatório não tem futuro. Mais 50, 100, 200 anos e o planeta estará na última lona. Quem vive preso no trânsito das grandes cidades sabe intuitivamente que “o carro está pegando”.
O mais lógico seria parar de enxugar gelo, mas ninguém tem coragem de levantar as mãos e dizer: “Minha gente, está na hora de pormos a mão na consciência e iniciar um programa de desaceleração do crescimento.”
Sendo ela a inventora do PAC, não será Dilma Rousseff quem provavelmente proporá esse pacto pela sustentabilidade. Quem está teoricamente mais próximo desse “basta ao crescimento predatório” é Marina Silva, que tenta construir uma nova alternativa partidária para um novo salto eleitoral em 2014.

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