Dono de banca decide parar de vender as revistas Veja e Época


Ele quer que outros jornaleiros também percebam a importância de seu trabalho
(Fotos: Thais Fernandes/JÁ)

Marcelo Salles, especial para o JÁ *

Trinta e três anos, jornaleiro há nove. Proprietário da banca que fica num movimentado ponto de Porto Alegre, Fábio Marinho tomou uma decisão: não vai mais vender a revista Veja. “Não é mais possível ficarmos esperando que os outros venham fazer algo por nós (…). Todos somos, de alguma forma, responsáveis pelo mundo em que vivemos”.

Fábio está se formando em História e comunicou sua decisão em carta enviada ao jornalista Hamilton Octávio de Souza e publicada na revista Caros Amigos de julho (leia a íntegra aqui).

Sua esperança é, como conta nessa entrevista, contribuir para que outros jornaleiros “também tenham uma tomada de consciência e percebam a importância de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avanço dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que só tem trazido sacrifícios para a grande maioria da população”.

Seu e-mail é: marinho147@hotmail.com. E o endereço da banca é Rua Dom Diogo de Souza, n° 100, bairro Cristo Redentor.

Há quanto tempo você trabalha como jornaleiro?
Tenho 33 anos, sou jornaleiro há nove anos, sempre como proprietário e no mesmo ponto de venda.

Qual o perfil dos seus clientes?
O perfil de meus clientes é variado devido ao fato de minha banca ficar próxima a um terminal de ônibus que atravessa a cidade de norte a sul e na frente de uma instituição de ensino particular. Então, atendo desde o desempregado sem perspectiva até o empresário de sucesso; atendo pessoas de todas as classes econômicas.

Por que a decisão de parar de comercializar a revista Veja?
A gota d’água que me fez parar com a Veja foi uma “reportagem” sobre o presidente venezuelano Hugo Chávez, em que ele era retratado como um tiranete, um ser exótico, só que tudo era escrito num tom muito ofensivo, sem o menor respeito por um presidente de Estado, de uma nação soberana, eleito pelo voto popular. Aí eu pensei: a Veja foi longe demais. E tomei a decisão de não vendê-la novamente. Mas era uma decisão que vinha sendo amadurecida desde a época do “escândalo” do jornalista [Larry Rother], aquele que chamou o Lula de bêbado, quando a Veja fez uma série de reportagens tentando afirmar a mesma coisa. Olha, não sou lulista, mas a Veja foi desrespeitosa naquele momento, e comecei a pensar em não vendê-la. Essa decisão foi levada a termo a partir da tomada de consciência de que não é mais possível ficarmos esperando que os “outros” – ou o Lula, ou o “salvador” – venham fazer algo por nós, e de que todos nós, de alguma forma, somos responsáveis pelo mundo em que vivemos. Então, na minha opinião, é chegada a hora de fazermos algo para modificar a realidade que nos cerca; o que eu posso fazer é isto, então fiz.

Sua decisão se estende a alguma outra publicação ou é restrita à revista Veja?
A revista Época recebe um tratamento semelhante, embora há menos tempo, a partir da crise do “mensalão” (um ano, não é?). Também não sou petista, mas é fato que a revista forçou a barra, se calou durante os anos FHC e agora resolve praticar jornalismo investigativo? Dá licença! A revista Primeira Leitura que fechou as portas em junho também recebia tratamento semelhante, nem preciso dizer por quê, né?

Isso não pode prejudicar o seu trabalho, visto que a Veja é uma das publicações mais vendidas e que, portanto, gera grande retorno à banca?
Sobre perder vendas, bem, entre ganhar dinheiro com a Veja ou perder algumas vendas e contribuir para que os meus clientes descubram a Caros Amigos, a CartaCapital, a Reportagem, fico com esta segunda opção, sem falar no componente ético que em mim é muito forte.

Você não corre risco de sofrer algum tipo de boicote pelo mercado editorial como um todo, ou pela editora Abril em especial?
Realmente não dá mais para agüentar a Veja. Olha, não temo boicote, mas estou surpreso com a repercussão. Recebi vários e-mails de pessoas me cumprimentando e elogiando minha atitude. Vamos ver como a [editora] Abril vai reagir. Se me boicotarem, espero contar com sua ajuda para denunciarmos mais uma da Abril.

O que você gosta de ler, entre livros, jornais, revistas e sítios na internet?
Estou me formando em História e, portanto, gosto de tudo que esteja relacionado à política, teoria e educação. Afora isto, gosto dos grandes escritores nacionais como Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Erico Verissimo, Mario Quintana. Enfim, ler é meu vício. Revistas eu não leio muito por ter pego o vício de ler um livro inteiro de um autor e tentar entender suas teses. As poucas revistas que leio são Caros Amigos, CartaCapital e Reportagem e só. Jornal aqui no sul não tem um que preste, pelo menos que eu conheça. Infelizmente não consegui leitores para o Brasil de Fato e a distribuidora cortou meu reparte, de modo que evito ler jornais. De internet eu não gosto muito não, só utilizo para correspondência e downloads.

Pelo que você observa entre seus clientes, há uma insatisfação com as publicações da grande imprensa? Você acredita haver espaço entre os leitores para publicações com linhas editoriais que destoam da mídia hegemônica?
Pois é, já está tão difícil vender as revistas alternativas… não sei se há espaço para novas publicações. Se você já esteve em alguma edição do Fórum Social Mundial, deve ter percebido que a indignação é maior do que a gente pensa, mas daí a sustentar uma nova revista eu já não sei, minha percepção de jornaleiro é que não, mas estou vendo a situação de um ponto de observação muito restrito que é minha banca.

Por favor, esteja à vontade para acrescentar qualquer outra informação que julgue relevante.
Olha, escrevi aquela carta para o Hamilton Octávio de Souza na esperança de vê-la publicada e que outros jornaleiros como eu fizessem algo parecido. A minha categoria é muito desunida e o sindicato (pelo menos aqui em Porto Alegre) trabalha para mantê-la desunida. Assim, espero que outros também tenham uma tomada de consciência e percebam a importância de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avanço dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que só tem trazido sacrifícios para a grande maioria da população.

* Matéria originalmente publicada no site Fazendo Média (www.fazendomedia.com)
Marcelo Salles – salles@fazendomedia.com

“Tinha que tomar uma atitude ao invés de só criticar”

Thais Fernandes, especial para o JÁ *

Há um ano e meio, o estudante de História e dono de banca Fábio Marinho resolveu parar de vender as revistas Veja, Época e Primeira Leitura. “Em certa medida também sou responsável pela difusão da informação”, explica.

O jornaleiro não se diz panfletário. Conta que pensou em fazer apenas a sua parte, alertando a categoria dos donos de bancas para a importância da consciência no trabalho que exercem. “Faço parte de uma indústria, e tinha que tomar uma atitude ao invés de só criticar”, afirma.

Para ele, a revista Veja é muito agressiva e tendenciosa em suas coberturas – uma reportagem sobre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi a gota d’água para que tomasse a decisão de não vender mais a publicação.

“Primeiro foi o Lula. Em uma matéria que falava sobre o jornalista americano, que chamou o presidente de bêbado, Lula aparecia nas fotos de olho vermelho ou de outra forma que lembrasse o alcoolismo. O Chávez a mesma coisa, tentaram destruir a imagem dele de líder. Os dois são presidentes eleitos democraticamente, e precisam ser respeitados”, conta.

A revista Época acabou indo pelo mesmo caminho, e também parou de aparecer nas prateleiras de Fábio. A Primeira Leitura, que fechou suas portas no último mês de junho, antes ficava “só nos cantinhos, onde as pessoas não enxergam”, e também parou de ser comercializada.

Perguntado sobre sua orientação política, Marinho se diz de esquerda, um “socialista democrata, mas não sou Lulista e nem petista”, ressalta.

Uma possível resposta das editoras proprietárias das publicações não é preocupação para Fábio, e segundo José Claudino de Oliveira, assessor jurídico do sindicato dos vendedores de jornais e revistas do RS, nem deveria ser.

Na opinião de Oliveira, a empresa não teria motivos para se preocupar com uma ação isolada como a do jornaleiro, que não traz prejuízos. Esclarece que o sindicato une autônomos em busca de melhores condições de trabalho e nada mais, e a decisão de Fábio é particular, não tendo nenhuma participação da entidade. “Se não vender quem não ganha é ele”, explica.

O assessor diz ainda que, se o jornaleiro precisar de ajuda caso haja a ofensiva, seu caso terá de ser estudado, pois é atípico. “Se tu tens uma padaria, e vende pão, não vai ficar questionando o tempo todo de onde vem a farinha”, exemplifica Oliveira.

Fábio não concorda, e diz que “se a farinha é transgênica ou radioativa” precisa sim, ser questionada. Mesmo sabendo que a maioria dos seus clientes quase nunca quer estabelecer um diálogo para confrontar pensamentos, e sim um “monólogo” para a pura e simples exposição dos mesmos, ele segue firme na sua decisão usando a sua “pequena, mas útil margem de manobra”.

* Matéria originalmente publicada na versão impressa do Fazendo Média

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Comentários

  1. Avatar de KIM
    KIM

    VERDADE QUEM PRATICA JORNALISMO ISENTO E 1ºQUALIDADE E A REVISTA CARTA CAPITAL,QUEM DENUNCIOU O COLLOR DE MELLO,YEDA CRUCIUS,ELA VC VENDE NE?

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