Entrevista com o Nobel de Economia

Naira Hofmeister

O Prêmio Nobel de Economia em 2006, Edmund Phelps (foto), levou cerca de 20 jornalistas à sua entrevista coletiva na tarde desta terça-feira, 24 de abril. A conferência de imprensa atraiu inclusive veículos do centro do país. Câmeras de TV, fotógrafos e gravadores formaram um pequeno circo midiático para ouvir as teorias do professor sobre o capitalismo e suas aplicações na economia contemporânea.

Reflexivo, o norte-americano fez longas pausas antes de responder as perguntas. Ainda que as questões tenham sido variadas – desde as definições do Capitalismo Dinâmico, que será objeto da palestra, até os limites da intervenção estatal nas economias livres – grande parte da coletiva enfocou o Brasil.

“A economia brasileira não é uma das 20 sobre as quais eu me mantenho informado sistematicamente. No entanto, desde o Prêmio Nobel tenho concedido muitas entrevistas a brasileiros, o que me obrigou a fazer uma imersão no sistema de vocês nos últimos quatro meses”.

Introdução ao capitalismo dinâmico

Antes das perguntas, o economista e professor da UFRGS, Marcelo Portugal fez uma pequena intervenção para “contextualizar os repórteres”. Introduziu a teoria de Phelps que contesta a chamada Curva de Phillips, datada da década de 50 e que relacionava o incremento da inflação e as taxas de emprego. “Era lugar comum nas políticas da época, diminuir o desemprego com um certo custo de aumento da inflação”.

Uma escola em que, além de Phelps, também figuraram outros dois detentores do Nobel, Milton Friedman e Robert Lucas, todos com estudos sobre a teoria de Philips na década de 60. “O resultado da análise sobre o funcionamento da microeconomia por trás da Curva de Philips modificou a implementação das políticas de governo desde então”, observa Portugal.

O próprio Edmund Phelps fez questão de apresentar suas prerrogativas. “Passei a década de 90 numa cruzada pela inclusão das sociedades na economia”, iniciou. E complementou que a inclusão a que se referia, nada mais era que aumento do nível de emprego e de suporte aos trabalhadores.

Salientou que para essas variantes tornarem-se quantificáveis, era necessária a existência do livre mercado. “Na URSS não havia economia, então não era óbvio como fazer essa relação”. Assim, a primeira coisa a fazer para aplicar a tese de Phelps, é “reconhecer uma boa economia quando vemos uma”.

Para o economista norte-americano existem dois tipos de sistemas econômicos em desenvolvimento e ambos partem da propriedade privada. O primeiro, que ele considera o capitalismo em si, é “aberto a inovações e ao pluralismo”, já que nele, os “empresários fazem as escolhas”. Seu antagonista é o corporativismo ou a social-democracia, no qual a “propriedade privada é modificada pelas instituições, que protegem os interessados e seus parceiros sociais”.

A questão é descobrir qual dos dois sistemas se aproxima melhor do ideal de economia imaginado por Phelps e qual o centro da chamada “boa economia”. Esse será o foco da palestra da noite desta terça-feira, quando Edmund Phelps divide o palco do salão de Atos da UFRGS com Marcelo Portugal na conferência Capitalismo Dinâmico, o que é e como chegar lá?

Acompanhe os assuntos tratados na entrevista coletiva

Qual sua avaliação sobre o Bolsa-família e a política econômica do governo Lula?

Sei que esse tipo de subsídio é atraente, principalmente para famílias numerosas. Mas minha posição é de defesa de subvenções para empregados que tenham baixos salários, e não está relacionada ao tamanho da família, nem se o empregado é jovem ou moço, local ou estrangeiro. Acredito que essa é uma maneira de tornar o trabalho mais atraente, fazendo economia de impostos.

As taxas de impostos são amplamente criticadas no Brasil. A relação entre diminuição de impostos e queda da pobreza existe de fato?

É uma questão difícil e que exige uma resposta longa. Também é necessário saber a qual corte de taxas você se refere. Se forem sobre impostos que incidam nos salários, essa pode ser uma política benéfica a curto prazo. Assim, teríamos salários mais altos, maiores taxas de emprego, de poupança e, conseqüentemente, de consumo. Mas essa é uma situação transitória e tende a se diluir a longo prazo.

O que é o capitalismo dinâmico, qual país o aplica e quais os seus resultados?

Acredito que os Estados Unidos podem ser um exemplo, ainda que não estejam tão próximos quanto poderiam do dinamismo. O capitalismo dinâmico possui muitos efeitos benéficos porque estimula os empregadores e recompensa a força de trabalho participativa. Se pensarmos nas nações com maiores taxas de desemprego, muitas estão concentradas na África do Norte, onde o sistema econômico se afasta do capitalismo. Por outro lado, na Europa, posso dar dois outros exemplos. A França e a Alemanha são as que mais sofrem com o desemprego. A França é anticapitalista de A a Z. Na Alemanha, há muitas instituições econômicas que tentam vetar os investimentos e inovações do mercado. Acredito que nessa pergunta haja uma sugestão de que há coisas na economia e na sociedade americana que são ruins. Concordo que sim, mas a maioria pode ser concertada mantendo-se o capitalismo.

Qual sua análise da economia brasileira?

A economia brasileira não é uma das 20 das quais me mantenho informado sistematicamente. No entanto, desde o Prêmio Nobel tenho concedido muitas entrevistas a brasileiros, o que me obrigou a fazer uma imersão no sistema de vocês nos últimos quatro meses. Dados recentes me fazem acreditar que o Brasil está entrando em um período de grandes investimentos. Mas temos que reconhecer que há muitas instituições econômicas – e a própria cultura econômica de vocês – que não são favoráveis à inovação. Mas isso é um processo de desenvolvimento que exige uma reforma institucional. Às vezes me perguntam se a China será de fato a nova liderança econômica no mundo e respondo que estarão preparados após três, quatro ou cinco estágios de reformas institucionais. Tenho a impressão de que as leis trabalhistas no Brasil são inspiradas na Itália da década de 1930, e ainda não foram reescritas. Isso é um impedimento à inovação, entre outros. Vocês até podem me argumentar que a Itália deu certo. Mas o fato é que a Itália é a Itália, é um país dinâmico e não naufragou apesar de suas instituições corporativistas.

Um dos palestrantes desse evento, Guy Sorman, defendeu que para a economia funcionar bem, a gestão de áreas lucrativas seria do mercado, ao passo que ao Estado caberia a administração dos prejuízos. O senhor poderia comentar essa afirmação?

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não defendo o Estado zero, nem as taxas zero. Essa me parece uma questão bastante antiga dentro das teorias econômicas: qual é o limite entre Estado e mercado? Posso dizer que não me preocupo com isso, com a porcentagem da economia que deve ficar a cargo de um ou de outro. Minha preocupação reside simplesmente no fato de que a economia seja dinamizada. Podemos usar como exemplo o sistema ferroviário inglês, que recentemente foi privatizado e está uma baderna. Mas isso realmente não está no foco de meus estudos.

Qual o impacto que relatório sobre o aquecimento global terá no desenvolvimento da economia?

É claro que estamos todos preocupados com o aquecimento global. Temos que admitir que ele existe e definir suas causas, para então pedir intervenções dos governos. Mas acredito que é prematuro determinar que políticas devem ser aplicadas, ainda que exista uma corrente que acredita já saber quais as causas desse aquecimento. Mas tenho certeza de que a solução não está na diminuição do crescimento da produção econômica. Nós precisamos dele [crescimento econômico] e acredito que essa tese nos leva ao oposto da solução correta.

No Brasil temos um alto nível de empreendedorismo, mas também taxas grandes de mortalidade de empresas. Como isso poderia ser revertido?

Outra questão difícil e longa. Não há uma resposta fórmula mágica para isso. Mas acredito que muitas empresas estejam nas mãos dos sistemas bancários. O que quero dizer é que os empreendedores necessitam não apenas de suporte financeiro, mas também de gerenciamento e força de trabalho.

Voltando a algumas questões dos colegas, o que define afinal o capitalismo dinâmico, quando o exemplo que o senhor dá são os Estados Unidos que utilizam o sistema de barreiras para defender sua economia. E novamente, quais seriam os limites da intervenção estatal na economia de mercado?

Eu concordo que a questão dos subsídios é de proporção. Por isso digo que os Estados Unidos poderiam ser mais dinâmicos do que de fato são. Não há um país puramente capitalista nem um anticapitalista.

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