Entrevista: Mestre Paraquedas, clínico geral do carnaval de Porto Alegre

Matheus Chaparini
Eugênio Silva de Alencar, o Mestre Paraquedas, tem mais de mil músicas na bagagem de compositor, muitas delas emprestadas a diversas escolas de samba da capital, mais os hinos para tribos indígenas. Participou também na fundação de agremiações como Samba Puro, Praiana, Comando do Morro, Unidos da Conceição, Tribo Comanches. Além de compor, desenha fantasias e alegorias. Tem quase todos seus oitenta e dois anos dedicados à folia de Momo.
Por este versatilidade, Paraquedas se intitula clínico geral do carnaval porto alegrense.
Participou ainda da produção dos documentários O Grande Tambor e Batuque gaúcho. É mestre griô, carregando o compromisso de levar adiante a história da ancestralidade africana através da oralidade.
Um de seus sambas diz “da área do meu barraco aqui no morro a gente faz samba olhando a cidade lá embaixo.” Nesta mesma área, na rua Dona Firmina, Zona Leste, Paraquedas recebeu a reportagem do JÁ. Ao longo de uma tarde, falou sobre um pouco do que pode acompanhar da história do carnaval, desde os desfiles de blocos, nos bairros e na Rua da Praia, o surgimento das primeiras tribos, a revolução da fundação da primeira escola, a Academia de Samba Praiana, até os dias de hoje.
 
Qual a tua lembrança mais antiga de carnaval?
A lembrança mais antiga era de ir ver o carnaval na Rua da Praia, na Praça da Alfândega. Mas a primeira saída foi aos cinco anos. Saí, fantasiado de marinheiro, na cacunda do pai, no Bloco Aratimbó. Minha mãe era costureira e meu pai era policial e foi um dos fundadores do bloco. Naquele tempo, o carnaval era de um jeito, hoje é de outro jeito. Eram só blocos. E um bloco tinha oito no bateria e quinze pulando atrás. Daí tinha os Turunas, os Tesouras, tudo ali na Baronesa. O Bambas da Orgia era um bloco, era o maior que tinha: saía com quinze na bateria e trinta pulando.
 
Nasceu na Baronesa?
Não, nasci no Alto da Bronze. Fui morar na Baronesa do Gravataí aos 3 anos de idade. Eu estou com 82 e estou estudando ainda. Com uma criança às vezes eu aprendo, porque eu escuto muito. Graças a isso eu tenho o acompanhamento do desenvolvimento do carnaval.

Rua João Alfredo, na Cidade Baixa, enfeitada para receber os blocos, década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo
Rua João Alfredo, na Cidade Baixa, enfeitada para receber os blocos, década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo

E como eram os desfiles na época dos blocos?
Tinha os coretos, Porto Alegre chegou a ter 14. Ali na rua de baixo, aquele espaço largo, onde agora é fim da linha do ônibus Santa Catarina era o local do carnaval. Tinha coreto oficial ali na Barão do Amazonas, em frente ao portão do Jardim Botânico, na Anita Garibaldi, na Santana, na Cavalhada tinha dois.
O primeiro desfile era no oficial, no centro, porque as fantasias estavam novinhas. Quando chegava aqui no Partenon já tava tudo rasgado, um pé com sapato, outro não. Mas lá era de carinha limpa, tudo bonitinho pra fazer a apresentação. Aquilo era o que a prefeitura cobrava
Era tudo a pé. Ninguém tocava, era só uma surdinha, tum, tum, – os outros instrumentos só tocavam no coreto – e cada bloco tinha um refrão. Aqui do morro era “É o galo! É o galo! Senta o esporão”. Tinha outro que era “Choveu! Choveu!. O cabelo da nega encolheu.” Aí o bloco passava aqui e eu ia atrás, chegava na esquina e bah, tinha deixado a porta aberta. Daí eu voltava, mas outros já tinham entrado e assim ia.
E tinha um carnaval de clube também?
É, a Sogipa e o Leopoldina Juvenil tinham.
Mas era um carnaval de branco?
Era bem branco. Mas quem tocava eram os negros.
Mas tinha também os clubes de negros?
Sim, A primeira sociedade negra que se criou em Porto Alegre foi o Floresta Aurora, criado por negros oficiais do exército, que vieram transferidos de Pelotas. O nome é porque a rua Cristóvão Colombo se chamava Floresta e a Ramiro Barcellos se chamava Aurora. E o clube se criou naquela esquina. Depois o Floresta Aurora foi pra Barros Cassal, depois pra rua da Margem, que é a João Alfredo. Então criou-se o Prontidão, hoje Satélite Prontidão.
"Se o seu Hemetério tivesse noção que existia bloco afro ele não teria criado tribo indígena" / Matheus Chaparini
“Se o seu Hemetério tivesse noção que existia bloco afro ele não teria criado tribo indígena” / Matheus Chaparini

E o surgimento das tribos indígenas?
O carnaval de índio foi criado pelo Seu Hemetério (de Barros), um negrão, era amigo do meu pai, criou a primeira tribo de índio: Os Caetés, em 43. Eu tinha uns 11 anos e ajudei a fazer a primeira alegoria dos Caetés. Neste tempo o carnaval era na Rua da Praia, na Praça da Alfândega. A entrada era ali do lado do Correio do Povo pra cá e a dispersão era na General Câmara ou naquela ruazinha que fecharam e agora ficam os engraxates.
Mas se o seu Hemetério tivesse noção que existia bloco afro ele não teria criado tribo indígena. Porque a intenção dos que compõe a primeira formação dos catésbos do carnaval não era homenagear os índios. Era sim botar pra fora sua necessidades tibais, era andar dançando, num outro ritmo…  Você olha as roupagens das fantasia tem mais linguagem afro que indígena.
 
As tribos vieram em substituição aos blocos?
Não, o seu Hemetério não queria aquilo de fantasia e tal. Porque o carnaval é meio marcial, tu sabe. O desfile de uma escola de samba é meio marcial. Como foi criada uma escola de samba? Quem criou a escola de samba foi Olavo Bilac, que era professor e reitor do Tiro de Guerra lá no Rio de Janeiro e tinha só negro naquela dele, era uma escola de recuperação. E eles todos eram fardados e tinha a banda marcial. Então, quando os negros não estavam marchando, faziam samba com os instrumentos da banda marcial. Dali surgiu a escola de samba.
 
Qual a importância do surgimento da Praiana para o carnaval de Porto Alegre?
A chegada da Praiana é um marco. Foi a primeira escola de samba – o Bambas tem uns cem anos, mas antes era bloco. Em seguida surgiu o Imperadores, porque o Bambas era azul e branco, daí botaram o vermelho pra contrastar e pra pegar o povo que não gosta do azul, aquela coisa do grenal. O imperador foi fundado com essa ideia.
Academia de Samba Praiana, um marco no carnaval de Porto Alegre / Matheus Chaparini
Academia de Samba Praiana, um marco no carnaval de Porto Alegre. Década de 1970 / Fototeca Sioma Breitman / Museu Joaquim José Felizardo

É dessa época que vem o nome Paraquedas?
É, eu servi 12 anos no exército como paraquedista no RJ. Tinha um tenente que serviu comigo e era mestre sala da mangueira. Mas como a Portela era mais perto, ele me levou lá. Quando eu vi aquelas tecnologias, os bonecos se mexendo, piscando olho… Bah, eu me encantei né, cara! Então durante 12 anos eu observei muito o carnaval carioca, desfilei, trabalhei no carnaval. E Eu trouxe muito pra cá, em matéria de alegoria, de desfile. Esse tempo no Rio lapidou o conhecimento duro que eu tinha.
 
Como se deu o surgimento da figura do mestre sala?
Os brancos davam as roupas velhas que não queriam mais, eles vestiam, e saiam fazendo aquelas reverências, imitando os gestos dos brancos, tirando onda. Aí que surgiu essa figura de mestre sala.
Aqui, no tempo dos blocos, tinha a figura do Remelecho, que também tinha o apelido de ‘assusta-criança’. Ele ia na frente, animando, e não tinha compromisso nenhum com o rtimo, o negócio era chamar atenção. Ele chegava “Ahhh!!!” e as criancinhas saiam correndo “ai, socorro mãe” e ele virava cambota, botava língua pra fora, fazia um zoião.
O carnaval aqui no Rio Grande do Sul não tem essa tradição de mestre sala, isso é mais no Rio. São detalhes da coisa que dizem muito. Ali está a raiz, a tradição da coisa, compreende? Não essa superficialidade do carnaval de Porto Alegre, que é só oba oba. Mas você chega num Império Serrano, no RJ, ali e serrinha, é jongo, é raiz profunda da cosia. O jongo é a raíz do samba.
 
Este ano a gente tem um momento diferente para o carnaval, com o corte dos repasses pela Prefeitura…
Olha, esse carnaval profissional que tem hoje começou a partir de um cidadão que tinha a alcunha de Comendador, que era dono da Pepsi Cola. E foi esse cidadão que mal acostumou os carnavalescos de Porto Alegre. Até então ninguém cobrava nada para tocar, a escola te dava o mínimo, o chapéu, a camiseta, se quisesse fantasia bonita tinha que fazer.
Mas ele traia uma proposta que já estava rolando no Rio de Janeiro. Ele copiou e trouxe para cá. Isso ali por 1968. Quando ele encampou o carnaval, o coreto era Pepsi Cola, a mídia toda do carnaval era Pepsi Cola, então eles tavam ganhando muito dinheiro com isso aí. Mas ele saiu, a Pepsi saiu e a negrada continuou exigindo a mordomia que ele ofereceu a partir daquele tempo que ele encampou o carnaval.
A partir desse cidadão, comercializou o carnaval. E está esse estado de coisa que tá ai.
"A partir do Comendador, comercializou o carnaval. Aí está esse estado de coisa" / Matheus Chaparini
“A partir do Comendador, comercializou o carnaval. Aí está esse estado de coisa que tá ai” / Matheus Chaparini

 

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Comentários

4 respostas para “Entrevista: Mestre Paraquedas, clínico geral do carnaval de Porto Alegre”

  1. Avatar de Claude Siboney
    Claude Siboney

    Sou fã do Paraquedas, mas tem muitas coisas ele não tem conhecimento ou faltou memória…!!! Além disso, Areal da Baronesa, Floresta Aurora e Satélite Prontidão e Acadêmia de Samba Praiana não é da década 70 e sim 60.

  2. Avatar de Claude Siboney
    Claude Siboney

    Desculpe-me, mas como foi publicado sem pontos e vírgulas, ficou parecendo que eu não tenho conhecimento… Falei que Floresta Aurora, Satélite Prontidão tiveram uma importância crucial na sociedade contemporânea negra, mas faltou informações, pois o Floresta Aurora, por muitos anos ficou na Lima e Silva e o Satélite Prontidão na Barão do Gravataí. No Areal da Baronesa teve muitos blocos, “Nós os Comandos”, “Aí vem a Marinha”, “Os Tesouras” e muitos outros, tribos Xavantes, Bororós, Caetés, Tapuias, Guaianazes. Alem disso, durante o carnaval, muitos eram presos por desordens públicas e eram soltos somente na quarta-feira de cinzas e quando saiam, chamavam “O que sobrou da luta”.

  3. Avatar de Flávio Peres
    Flávio Peres

    Mestre, sou filho do Guegue, o Ze Luis Peres, que fez o samba exaltação da Samba Puro que é cantado até hoje: “Que é que é lindo como o mar…” Meu pai sempre falou do seu trabalho com profunda admiração. É uma alegria saber da sua lucidez e saúde aos 83! Vida Longa Mestre Pára -Quedas!!!

  4. Avatar de Rafael
    Rafael

    Senhores, que entrevista! É um resumo tão rico que nos deixa sem palavras. Obrigado!

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