Os comércios de rua são antigos, existem desde muito antes de alguém ter a ideia de colocar um monte de lojas e cinemas e estabelecimentos de alimentação todos em um mesmo lugar, climatizado, onde não se ve a luz do dia, criando os famosos shoppings centers. Os shopping tiveram sua fase de esplendor, mas já dão sinais de declínio. Isto no mundo inteiro. E em Porto Alegre não poderia ser diferente.
Na capital que concentra a maior quantidade de shoppings por habitante, o comércio de calçada começa a retomar um glamour que lhe foi tomado temporariamente pelos centros comerciais.
No Bom Fim, as lojas de rua sempre foram a tônica do comércio. O bairro nunca teve um shopping. “Acho que o público aqui do bairro não quer um shopping não. As pessoas estão buscando as lojas de rua”, comenta Priscila Zanetti, proprietária da Oi Gracia.
Há cerca de dois anos, Priscila se mudou com sua loja da Cidade Baixa para o Bom Fim. Um dos fatores que pesou na escolha do novo local foi a tradição do comércio de calçada. Ela conta que chegou a ser procurada por um grande centro comercial para migrar sua loja, mas preferiu ficar na rua.
A Fernandes Vieira tem um comércio diversificado, é um shopping na rua, com vista para o parque. As esquinas com a Osvaldo, Henrique Dias e Vasco da Gama concentram a maior parte dos estabelecimentos, encontra-se de tudo: pet shop, loja de roupa, para homens e mulheres, comida de vários tipos, bares, bolaria, supermercado, loja de colchões, uma tradicional casa de produtos judaicos, dentre outros.
Um dos mais tradicionais é a delicatessem Le Chain, especializada em produtos judaicos, que funciona há 23 anos. A mais nova habitante da rua é a Lux, loja especializada em vestidos, com produção própria, que foi inaugurada no dia 11 de agosto.
Outra característica destes estabelecimentos é a possibilidade de integração com o espaço público. A Fome de Bolo, por exemplo, utiliza bancos em parte da calçada e também para estacionar a bicicleta de entregas. A bolaria está em ampliação, assumindo a loja do lado, onde funcionava a Pano Pop, que passou a ocupar outra loja próxima juntamente com a Beatnik.
Na entrada da loja Minimim, a criatividade chama atenção de quem passa. Ao lado da porta, há uma cabana montada, o caminho que leva da rua à porta do estabelecimento é um jogo de amarelinha e os bancos são troncos de árvores com almofadas que simulam cogumelos estilo desenho animado. O ambiente é convidativo para o público alvo: as crianças.
Com suas calçadas arborizadas, comércio diversificado e boa localização, desembocando no parque, a Fernandes Vieira é uma rua agradável e convidativa para quem mora, trabalha, vai às compras e mesmo para quem está só de passagem.
Vestidos estampados
Há dois anos a Oi Gracia se mudou da Joaquim Nabuco, na Cidade Baixa, para a Fernandes. O movimento da rua foi um dos atrativos, o resultado foi satisfatório. A loja trabalha com vestidos estampados de tamanho único. Além dos modelos disponíveis na loja, a cliente pode misturar modelos e encomendar uma peça exclusiva.

Aniversário e ampliação
Em agosto, a Fome de Bolo completou um ano, celebrado com evento na calçada em frente à loja, no dia 12. Além da festa, a data marca a ampliação da loja, que dobrou o espaço físico e a equipe. Além da venda no balcão dos bolos de 400 e 800g, a loja já fornece também para cafés, como o Cantante, na Fernandes, e o Josephynas, na João Telles.

A rua foi criada em 1896, pelo então intendente Dr. João Luiz de Faria Santos, segundo o livro Guia Hisótirco de Porto Alegre, do historiador Sérgio da Costa Franco. Através do Ato nº7, de 10 de abril daquele ano, Faria Santos nomeou três novas ruas na região do Bom Fim: Fernandes Vieira, Felipe Camarão e Henrique Dias; um português, um índio potiguar e um africano, escravo liberto. Os três foram combatentes da Insurreição Pernambucana, na metade do século XVII, que culminou com a expulsão dos holandeses, que ocupavam algumas regiões do Nordeste brasileiro, principalmente Recife e Olinda.

João Fernandes Vieira foi um português de origem controversa, nascido na Ilha da Madeira, em 1610. É provável que tenha nascido Francisco de Ornelas e mudado de nome posteriormente. Migrou para Pernambuco aos dez anos de idade, onde trabalhou como assalariado, obteve prestígio, fez fortuna em poucos anos e tornou-se um homem importante da sociedade pernambucana. Combateu como voluntário, defendendo os portugueses na invasão holandesa, em 1630. Depois passou a manter boas relações com o Governo Holandês, de quem foi homem de confiança. Gozava da consideração dos dois lados.
Quando a insatisfação dos senhores de engenho de Pernambuco em relação ao governo holandês se intensificou, especialmente após a partida de Maurício de Nassau para a Holanda, em 1644, se afastou dos holandeses e tornou-se um dos líderes da chamada Insurreição Pernambucana. Ocupou também diversos cargos públicos.
João Fernandes Vieira morreu no dia 10 de janeiro de 1681, em Olinda. Em 2012, ele e outros combatentes da Insurreição tiveram seus nomes escritos no Livro dos Heróis da Pátria.

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