
Veronica Cordeiro foi escolhida bolsista do projeto em 2005 (Fotos Naira Hofmeister/JÁ)
Naira Hofmeister
A sexta edição da Bolsa Iberê Camargo traz uma novidade: ao invés de um, em 2006, serão dois os destinos, a escolher. Buenos Aires (El Basilisco) e Chicago (The School of the Art Institute of Chicago) são os centros escolhidos para receber brasileiros que proponham experimentações artísticas.
Durante dois (Buenos Aires) ou três (Chicago) meses, a instituição proporciona residência nos institutos, oferecendo aos selecionados toda a infra-estrutura para o desenvolvimento de um trabalho, que deve ser proposto no momento da inscrição. Um dos únicos critérios exigidos pela Fundação é a inovação de linguagem. Aproximando-se cada vez mais da arte contemporânea, a Bolsa Iberê Camargo vai privilegiar projetos de suporte tecnológico e digital ou ainda aqueles que primem pela experimentação. “A Fundação tem uma história de incentivos ao desenvolvimento da arte contemporânea e busca ampliar esse diálogo a cada ano”, justifica Fernando Schüller, que organiza o projeto.
Durante o lançamento da sexta edição da Bolsa, Verônica Cordeiro exibiu o resultado dos meses que passou no School of the Art Institute, em Chicago. Vestindo a roupa que criou durante seu estágio, ela fez uma intervenção artística que indagava o papel da livraria na sociedade capitalista que gera desigualdades. Através de gravações da popular Rádio Capital AM, de São Paulo, ela problematizou os conceitos de informação e cultura nas classes alta e baixa: “Informação, entretenimento, cultura e auto-ajuda: os pobres buscam nas rádios as mesmas coisas que nós obtemos através da leitura”.

Para a artista, rádios estão para os populares, assim como os livros para os intelectuais
A questão abordada na performance da última quarta-feira, no entanto, foi apenas uma demonstração do esforço que artista faz para exterminar com a clássica dicotomia entre alta e baixa cultura. No período em que esteve em Chicago, patrocinada pela Fundação gaúcha, Verônica produziu o vestido-abrigo de sua Composição Não-Determinda – Peregrinação a Lugar Algum. Durante três dias, a artista vagou pelas ruas da cidade americana, usando sua roupa, feita de tecido de cobertor barato, comumente utilizado pelos moradores de rua. A roupa serve também como saco de dormir e conta com grandes bolsos impermeáveis onde ela guardou sua comida e outras utilidades.
Verônica relatou um intenso contato com a população das ruas: “Eu quis mostrar para eles que podem desenvolver sua criatividade para buscar soluções alternativas à mendigagem”. Ela pontuou também que há diferenças entre os moradores das ruas de Chicago e os brasileiros: “Aqui já existe uma cultura de reciclagem mais difundida, ao passo que lá a segregação é muito maior”, explica. A artista investe fundo na idéia de democratização da arte. No momento está produzindo um livro sobre cartas de um presidiário. “Quero que se rompam os muros entre essa população menos intelectualizada e a arte”.

Veronica durante sua estadia em Chicago (Foto Young Lee/divulgação/JÁ)
Para participar da seleção da Bolsa Iberê Camargo, basta preencher a ficha através do site www.iberecamargo.org.br até dia 10 de julho e enviar a documentação para o instituto. No preenchimento dos dados, os interessados devem optar por uma das escolas e desenvolver um projeto específico de acordo com os critérios definidos no regulamento.
A bolsa para o The School of Art Institute s Chicago tem a duração de três meses e conta com um auxilio de R$ 8 mil para todo o período, que vai de 18 de setembro a 14 de dezembro. A residência na El Basilisco é de dois meses, de 15 de outubro a 15 de dezembro e recebe ajuda de custo total de R$ 6 mil. A Fundação Iberê Camargo cobre ainda os custos com hospedagem, taxas de inscrição na escola e passagens aéreas. Durante os estágios no exterior, os bolsistas ministrarão aulas sobre a sua produção artísticas e a arte brasileira contemporânea.

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