Sergio Lagranha
A cerimônia de abertura do 5º Fórum Brasil Coreia, na noite de quarta-feira (12/8) na Unisinos, teve inovação – seu mote principal em relação à tecnologia – até no discurso. Pela primeira vez, segundo disse, o embaixador da Coreia dota Sul no Brasil, Jeong-gwan Lee, pronunciou-se em português. E o fez tão bem, ao ler suas palavras, que ao final arrancou sonoros e demorados aplausos da plateia que lotou o Anfiteatro Padre Werner, no campus da Unisinos, em São Leopoldo.
No país há cerca de três meses, Lee disse que há inúmeras áreas a serem exploradas por Brasil e Coreia, cujas capacidades são distintas e complementares. O reitor da Unisinos, padre Marcelo Fernandes de Aquino, que falou a seguir, brincou: “O embaixador fala muito melhor português do que nós falamos coreano”. O reitor defendeu a reafirmação de valores republicanos e democráticos pelo Brasil como a “grande oportunidade do momento”. Pregou o compromisso com a transparência, repulsa à corrupção e a inclusão das pessoas à vida digna.
O presidente da Korea Foundation for Advanced Studies (KFAS), Inkook Park, ressaltou a importância do avanço tecnológico na superação de problemas enfrentados pelas nações. Conforme ele, o Brasil conseguirá desenvolver-se cada vez mais de forma sustentável e terá crescente influência global.
O coordenador do 5º Fórum Brasil Coreia, professor doutor Rodrigo da Rosa Righi, destacou a presença de visitantes estrangeiros, além dos coreanos. Entre eles, representantes dos Estados Unidos, Índia e Alemanha e dos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Roraima.
Este ano, o foco do Fórum será na cadeia de semicondutores (chips) e tecnologias da informação e da comunicação aplicadas à saúde. O campo da saúde é vasto e só no Rio Grande do Sul há uma demanda de insumos e equipamentos médicos, num montante aproximado de R$ 4 bilhões anuais, informa o CEO do Parque Tecnológico São Leopoldo (Tecnosinos), Luiz Maldaner. “Mais de 80% dessa demanda é satisfeita com produtos importados de outros estados brasileiros e do exterior. Assim, há um vasto campo para pesquisa e desenvolvimento nessa área que pode ser perfeitamente desenvolvida aqui na região. Essa é uma área nova que pode desempenhar um importante papel no sentido de tornar-se um novo polo de desenvolvimento para o Estado.” O Tecnosinos está junto ao Campus, em São Leopoldo, e sua governança se estabelece entre a Unisinos, empresas e iniciativa pública.
Painéis abordam Medical Valley e Internet do futuro
Durante o Painel 1 da primeira noite do Fórum Brasil Coreia, sobre Tecnologias Avançadas para a Saúde, o representante do Central Institute of Healthcare Engineering (ZiMT), Tobias Zobel, discorreu a respeito do Medical Valley, de Erlangen (Alemanha). Trata-se de um cluster de tecnologia para a saúde, que envolve dezenas de hospitais e cerca de 500 companhias em um raio de 15 quilômetros, empregando 45 mil profissionais.
Zobel disse ver condições reais de criar um cluster semelhante no Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul, a partir da parceria com a Unisinos. O processo de internacionalização do Medical Valley também contempla Estados Unidos (Boston) e China. Entre os benefícios da iniciativa de avanço tecnológico estão a elevação da qualidade dos tratamentos médicos e a redução de custos.
A médica gaúcha radicada em São Paulo Walesca Santos apresentou a Feira Hospitalar, que lidera há 23 edições e só está atrás da Medica, de Düsseldorf, na Alemanha, em negócios com produtos, equipamentos, serviços, tecnologia para hospitais, laboratórios, farmácias etc. Na edição deste ano abrigou 1.250 expositores, 33 países e 96 mil visitantes.
O professor convidado do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Unisinos e presidente da Comissão Científica do CISS/Hospitalar, Fabio Leite Gastal, observou que o Brasil vem fazendo a transição da economia industrial para a economia do conhecimento e que o Rio Grande do Sul, por ter alguns dos melhores hospitais do país, coloca-se em posição privilegiada quando a saúde é vista como estratégia econômica.
No Painel 2, sobre a Internet do Futuro e o Impacto nos Hospitais, Dhananjay Singh, da Hankuk University, disse que há pesquisadores trabalhando para uma nova arquitetura da rede em diferentes continentes. Prevê-se que em 2020 haverá 75 bilhões de dispositivos conectados.
Antonio Alberti, da Inatel, observou que uma corrente de pesquisadores quer avançar em cima do que se tem hoje e outra é mais afeita ao conceito de clean slate, começar de novo, com uma nova abordagem, ao qual se filia o projeto NovaGenesis, da Inatel.
Nesta quinta-feira, 13, continuam durante a tarde e à noite as palestras e painéis do 5º Fórum Brasil Coreia, no Anfiteatro Padre Werner. O Fórum é um evento institucional da Escola Politécnica Unisinos.
Integração global da Internet das coisas
Entre os palestrantes do 5º Fórum Brasil Coreia nomes como do professor Daeyoung Kim, do renomado Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia (Kaist), a porta de entrada para tecnologia e inovação na Coreia do Sul nas últimas quatro décadas. Em sua palestra que aconteceu ontem no Anfiteatro Padre Werner, no campus da Unisinos, Kim explicou que todos os padrões da Internet das Coisas – revolução tecnológica que tem como objetivo conectar os itens usados do dia a dia à rede mundial de computadores – vão coexistir ao mesmo tempo.
Kim faz parte do braço coreano das Auto-ID Labs, as principais rede global de pesquisa de laboratórios acadêmicos no campo da Internet das Coisas. Os laboratórios compreendem sete universidades de pesquisa mais renomados do mundo localizadas em quatro continentes diferentes. A ideia é criar um EPC global como um grande padrão que vai integrar a Internet das Coisas e oferecer através de uma interface comum. Desenvolver como será a Internet das Coisas em termos de padronização de modo a expandi-la.
É uma iniciativa do GS1, uma organização neutra, sem fins lucrativos, que facilita a colaboração entre parceiros de negócio, organizações e prestadores de serviços tecnológicos, de forma a resolver desafios de negócio que alavanquem normas e garantam a visibilidade ao longo de toda a cadeia de valor. Existem braços da GS1 em mais de 70 países, inclusive no Brasil.
Um exemplo de ação do GS1 é o código de barra utilizado no varejo. Em determinado momento todo o processo foi padronizado pelo GS1. A sede do GS1 fica em Bruxelas e periodicamente os membros reúnem-se para melhorar e padronizar o que já existe.
Atualmente, o grupo de Kim trabalha na implementação do código livre chamada Oliot (Open linguage for Internet of things). O GS1 tem um padrão global e o Auto-ID Lab está implementando e oferecendo uma biblioteca para ser baixada de uma forma livre por todos prestadores ao redor do mundo. Se um grupo resolve desenvolver um aplicativo para se comunicar com a Internet das Coisas poderá baixar essa biblioteca, o Oliot, que é livre, de código aberto. Kim está implementando na Coreia do Sul o EPC global através do Auto-ID Lab. Dentro do projeto do Oliot ele trabalha para a implementação do GS1, como disponibilizar isso numa biblioteca. Integram o projeto Oliot também empresas de Tecnologia da Informação.
Fórum aproxima academia e indústria
O objetivo do Fórum Brasil Coreia de aproximar a academia da indústria tem tudo a ver com o Instituto Tecnológico de Semicondutores (itt Chip), criado em julho de 2012 pela Unisinos, mas ainda em fase de implantação com a construção de um prédio de dois pavimentos composto por área de apoio, administração, área de pesquisa (Sala Limpa) e laboratórios.
O professor do mestrado em Engenharia Elétrica da Unisinos, Willyan Hasenkamp, afirma que não tem como construir o elo entre a comunidade acadêmica e indústria sem mostrar o que existe no mundo nessa área. “Isso o Fórum proporciona e motiva as empresas interessadas.”
Ele cita como exemplo a palestra do professor da Escola de Engenharia Elétrica e da Computação, do Georgia Institute of Technology, Muhannad Bakir. A Universidade da Georgia é uma das mais importantes instituições dos Estados Unidos e 0 Instituto de Tecnologias, referência mundial na área de encapsulamento e teste de semicondutores, foco da atuação da Unisinos nesse setor. “Por isso, o Fórum Brasil Coreia provoca um círculo virtuoso”, ressalta Hasenkamp.
O objetivo do Instituto é criar um centro de referência em encapsulamento e teste de semicondutores, com formação de recursos humanos altamente qualificados e suporte tecnológico empresarial, por meio da prestação de serviços. O itt Chip tem sinergia e complementaridade ao Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada do RS (Ceitec), criando uma cadeia estruturada da indústria de semicondutores no Rio Grande do Sul.
Segundo Hasenkanp, o leigo não tem ideia do que se pode fazer com o encapsulamento de semicondutores. “Hoje as pessoas carregam junto ao corpo cerca de 12 chips em celulares, notebooks e tablets. Além disso, eles estão presentes também nos novos produtos que possuem dispositivos eletrônicos como cafeteiras e lâmpadas LED. Com a Internet das coisas a transmissão de dados deixará tudo conectado. E o Brasil não pode ficar fora desse novo mundo.”
Quando o itt Chip funcionar plenamente, a Unisinos estará apta para prestação de serviços, desenvolvimento de pesquisa e inovação para toda a cadeia eletrônica do Estado e do País, aproximando ainda mais empresas da academia.
5º Fórum Brasil Coreia discute a tecnologia da informação aplicada na saúde
Escrito por
em
Adquira nossas publicações
texto asjjsa akskalsa

Deixe um comentário