Espaço Kuna oferece oficinas abertas à comunidade

Matheus Chaparini
A casa de fachada colorida desperta a curiosidade dos transeuntes dos primeiros metros da Avenida Osvaldo Aranha. Na calçada, um pequeno brechó, uma arara cheia de roupas: pode levar. Se puder, deixa outra roupa, ou um livro, ou uns trocados. Se não puder, tudo bem. A corrente fica solta no portão. Não resistindo à curiosidade, é só bater palma, à moda antiga das vizinhanças de bairro. Logo algum morador aparece ao fundo do corredor para te atender, com sotaque de Porto Alegre, da Bahia, de Minas ou mesmo em portunhol. Seja bem vindo ao Espaço Libertário Kuna.
O tablado que por mais de uma década foi espaço de aulas e apresentações de dança estava desocupado e sem utilidade há mais de três anos. Em outubro de 2014 um grupo ocupou a casa situada no número 418 da Osvaldo. Hoje, a Kuna conta com diversas atividades abertas ao público todos dias, como as oficinas de violão, bateria, teatro, yoga, massoterapia, circo, literatura independente. Além das fixas, acontecem também atividades eventuais com artistas de passagem pela cidade. Foi o caso de uma oficina de teatro de rua ministrada no mês passado por uma família de artistas mexicanos.
O coletivo também promove alguns eventos, como a Varieterça, que conta com apresentações dos moradores da casa, palco aberto para os visitantes e uma refeição coletiva. Nos sábado pela manhã, a Kuna vai para a rua com seu cortejo, que acontece na José Bonifácio junto à Feira Ecológica. O cortejo é uma das principais fonte de renda da casa. Além das contribuições em moeda no chapéu, ali eles ganham dos feirantes o recicle, as doações do fim da feira. As atividades da casa são gratuitas, mas o coletivo aceita doações de dinheiro, comida, livro ou qualquer coisa que possa ser útil ao espaço.
Além do tablado, de cerca de 100m², há ainda uma cozinha no andar de baixo, e no de cima um quarto com quatro camas, um banheiro e mais duas peças pequenas usadas para guardar as bagagens. Hoje moram 10 pessoas na Kuna. A rotatividade é bem grande, o que faz com que o lugar esteja em constante mudança. Arthur Yanai Barduche mora na casa há três meses e conta que neste período já presenciou algumas transformações no espaço. “A maior parte da galera é viajante. Algumas pessoas são mais fixas, mas em torno de 80% é itinerante.” explica Barduche.
Arthur nasceu em São Paulo e se criou em Minas Gerais, onde se formou em música. Quando chegou em Porto Alegre, com amigos que conheceu viajando, não sabia da existência da Kuna. “Quando eu entrei aqui eu falei que era formado e me propus a dar umas oficinas de música.” Arthur dá aulas de musicalização e violão nas sextas feiras.
Diogo Estivallete, o Baiano, é um dos moradores mais antigos, está na casa há sete meses. Quando chegou haviam apenas duas pessoas na casa. Ele explica que há uma preocupação para que o espaço não perca o caráter de espaço de difusão de conhecimentos. ”A gente procura ter muito cuidado pra que as pessoas que vem ficar aqui não pensem que por ser um processo de ocupação é um hotel. A gente procura ver qual a ideia da pessoa, qual a proposta.”
Natural de Salvador, Diogo mora em Porto Alegre há cinco anos. Antes de se mudar para a Kuna, ele havia sido demitido do emprego onde trabalhava com manutenção de
bombas hidráulicas e estava em situação de rua. Hoje trabalha como malabarista e se sustenta com as apresentações nas sinaleiras. Nos cortejos, Baiano se apresenta de vestido e salto alto, uma espécie de mulher barbada da Kuna. “É um questionamento em relação a gênero. O que é roupa de mulher ou roupa de homem? O que é brinquedo de menino ou de menina? Eu procuro trazer isso à tona. Como o malabares tem a questão da magia, faz as pessoas se questionarem inconscientemente.” explica Baiano.
A casa não tem luz nem água, cortados logo que o grupo se instalou. A água é captada no parque, a luz basicamente é de velas. Há uma bateria elétrica na casa, mas só é utilizada em eventos. Baiano estima em 160 litros o consumo diário de água. A louça é lavada em cumbuca e quase toda água é reaproveitada para o vaso sanitário e para lavar o chão.
Além das oficinas e eventos, o que a casa propõe é uma experiência de convívio e de troca, “a vida como fazer natural”, como o título de uma carta escrita pelo coletivo no começo da ocupação. O mesmo texto afirma que a Kuna é “uma ocupação que convida a todas a experimentar conteúdos e continentes sem perspectivas de resposta exata.” E aí, tá afim?

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Comentários

Uma resposta para “Espaço Kuna oferece oficinas abertas à comunidade”

  1. Avatar de Jo Reis
    Jo Reis

    Sempre me chamou a atenção o espaço ao passar pela frente, muito legal a matéria, que faz saber um pouco sobre o lugar e seus atuantes. Vida longa!

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