
Alabarse, sobre os destaques desta edição: “Nekrosius é o nome do Em Cena” (Foto: Divulgação)
Naira Hofmeister
O diretor de teatro Luciano Alabarse é um dos responsáveis pela criação do Porto Alegre em Cena e pela sua elevação ao posto de “maior festival de teatro do Brasil”. Considerado arrogante por alguns, reverenciado por outros, Alabarse expõe alguns pontos de vista que alimentam essa polêmica nessa entrevista, concedida na segunda-feira, 24 de julho, no Solar Paraíso.
Depois de três anos afastado da coordenação do festival, ele enfrentou críticas na edição de 2005, por exterminar a “fila dos sem ingresso”, diminuir as apresentações descentralizadas e aumentar em 100% o valor das entradas, que até 2004, custavam R$ 10.
Os valores continuam R$ 20 para 2006, medida que é defenida com furor ideológico por Alabarse. Ele argumenta que o trabalho artístico deve ser pago, assim como qualquer outro. “Lamento que uma pessoa pense que pode simplesmente invadir o teatro: é uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas”.
Além de falar das novidades de 2006, como o 1º Troféu Braskem Em Cena, que vai distribuir quase R$ 30 mil em prêmios aos espetáculos gaúchos, o coordenador do festival sublinha as principais atrações que escolheu para a 13ª edição.
E faz uma crítica à “auto-suficiência” do gaúcho, que parece ter invadido o campo das artes. “O teatro que se faz no Rio Grande do Sul é bom, está num patamar de qualidade elogiável, mas não pode se bastar a si mesmo”, cutuca, numa alusão à freqüente prática de aplaudir todos os espetáculos em pé.

Alabarse: “Não há nada mais equivocado do que aplaudir de pé a todos os espetáculos. Eu fico sentado. Só levanto quando é algo excepcional” (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)
JÁ – Muda alguma coisa no Em Cena 2006?
Um festival de teatro é sempre a mesma coisa: apresentação de espetáculos convidados, dentro de um período de tempo. Não quero passar filmes no Em Cena, nem fazer instalações de artes plásticas… Quero uma programação cada vez mais qualificada e digna, no sentido da provocação e da beleza artística. Um evento cheio de atividades agregadas gera um inchaço desnecessário. Gosto quando um festival de teatro tenha na sua programação o seu foco absoluto.
JÁ – Mas há novidades…
Vamos ter uma atividade solidária à Casa dos Artistas, que está passando por uma fase muito difícil. Quem levar 1 kg de alimento tem desconto de 50% no ingresso. É uma atividade compatível, não demagógica, de visão social. E o público que ajudar tem a solidariedade do festival. Também pela primeira vez, a pedido de um patrocinador, teremos um prêmio no festival, que não é só de mérito, mas também de dinheiro, que acho importante. É o Troféu Braskem Em Cena, que vai premiar o melhor espetáculo gaúcho com R$ 20 mil.
JÁ – Quais os destaques da 13ª edição?
É uma das edições mais interessantes do meu ponto de vista, pois conseguimos espetáculos que jamais estariam em Porto Alegre. É uma oportunidade para que as pessoas venham à cidade. Tenho particular interesse de que o Brasil conheça o diretor lituano [Eimuntas] Nekrosius, com a sua versão de Othelo que é extraordinário e só vem a Porto Alegre. Ou a Pina Bausch, que vai se apresentar em São Paulo com ingressos à R$ 200 e aqui vai custar entre R$ 20 e R$ 10. É claro que qualquer festival ambiciona ter a Pina Bausch na sua programação, assim como o Nekrosius, que eu vi na Europa e em Buenos Aires. Esse é o nome do Porto Alegre em Cena que Porto Alegre ainda não conhece e que o Brasil nunca ouviu falar.
JÁ – Em 2005, o valor dos ingressos aumentou em 100%, diminuiu o número de espetáculos gratuitos e acabaram com “a fila dos sem ingresso”. Por quê?
Eu tenho horror da fila dos sem ingressos!!! E esse ano, no que depender de mim, não haverá. Nenhum festival de teatro precisa alimentar esse vício. Todos eventos no mundo são pagos e tem políticas solidárias, de redução de preço de ingressos, de cotas de convites. Não vejo porque no nosso festival isso deva ser encorajado ou aplaudido. O trabalho artístico não tem que ser de graça. Ou sou convidado, ou compro um ingresso, ou não vou. No ano passado, as estatísticas mostraram que estávamos certos em nossa estratégia, porque 97% dos ingressos vendidos nas bilheterias do Em Cena, foram de R$ 10 [vendidos com 50% desconto]. Isso é estatística e os números não mentem. Se eu fosse praticar preços de mercado, cobraria R$ 40, R$ 50, R$ 200.
JÁ – Mas isso não exclui uma parte do público?
Se alguém quer trabalhar de graça, que seja feliz. O meu trabalho custa, eu sei quanto e isso deve ser repassado para o público. Tenho horror de gente que acha que o trabalho artístico tem que ser de graça! Porque nada no mundo é de graça. Não existe em nenhum lugar do mundo um ingresso tão acessível quanto o nosso. Não acho que seja educado, nem vou contribuir para a falta de educação com a cultura. Nem o Festival de Gramado é de graça, nem o Porto Verão Alegre, nem a Mostra de Inverno… Então, não vejo porque o Porto Alegre em Cena deveria fazer benemerência. Lamento que uma pessoa pense que simplesmente vai chegar e entrar no teatro, invadir. É uma falta de respeito com quem compra ingresso, com os artistas. Eu fui à Berlim, há dois meses e o ingresso custava 35 euros. No festival de Santiago do Chile, custava 200 pesos. Eu gosto que seja um ingresso extremamente barato, acessível, mas que tenha essa demarcação: a arte não é de graça, arte é trabalho e trabalho tem que ser remunerado.
JÁ – Sendo um projeto realizado via Lei de Incentivo à Cultura (LIC), não deveria existir uma responsabilidade de devolver ao público esse investimento?
A LIC me pede 10% dos convites e eu dou. Não devo nada à LIC, tudo que a LIC me pede, eu dou. As Leis de Incentivo, incentivam, não bancam, não é 100% subsidiado. As ações de inclusão social que a gente vai fazer são específicas. Por exemplo, esse ano chamei a Tônia Carreiro para mostrar seu espetáculo nos bairros da cidade. Tem também o Teatro de Rua, que tradicionalmente é sem ingressos, e as oficinas gratuitas. Esses são incentivos de um festival para que a população não fique sem nada. Ou seja, mesmo aqueles que não tem dinheiro algum para ir ao teatro, podem desfrutar o festival, nas ações de inclusão social. Quando um espetáculo é oferecido de graça, ele só atrapalha o trabalho dos artistas, porque eu não vou querer pagar para ver um espetáculo, se tem outro de graça.
JÁ – E qual o valor estimado de gastos no Porto Alegre em Cena 2006?
É difícil falar, pois ainda não fechamos os valores. Mas um festival como o nosso, não sai por menos de R$ 2 milhões. Ano passado custou R$ 2 milhões e 300 mil. Ainda mais que é um festival internacional, com grandes atrações, não é nada decadente. A mídia brasileira vem em peso, porque o Em Cena é uma potência artística e gera uma provocação estética.
JÁ – Que lhe parece a descentralização?
Não podemos transformar um festival de teatro em um evento de clientelismo para ganhar votos. Sou contra a demagogia. No ano passado, teve sim a parte da descentralização, mas não houve em todos bairros da cidade, porque não tinha orçamento para isso. Esse ano, é uma grande façanha do festival contar com uma estrela do porte da Tônia Carreiro, dirigida pelo Fauzi Arap, que é um dos meus diretores de teatro preferidos, para ir a essas populações de baixa renda. Não estou dando qualquer coisa, não estou fazendo política, eu acredito no que faço. Alguns espetáculos que farão duas apresentações, também vão aos bairros. Mas esse é um espetáculo pensado para isso. Eu não contratei a Tônia Carreiro para ir ao Theatro São Pedro, eu contratei ela para conhecer os bairros da cidade, baseada numa experiência que ela fez nos CEUs [Centros Educacionais Unificados] de São Paulo. Levar qualquer coisa, só para preencher uma planilha, não tem ganho real para a população, não fica nada. Nesse caso, acho que realmente estou colaborando com uma mudança, com um patamar. Mas não é por política, é por arte mesmo. E tem outras pessoas que colocam a política antes da arte.
JÁ – Mas nas primeiras edições essas políticas de incentivo como a descentralização o subsídio dos ingressos já existiam…
Estou aqui para promover ações que qualifiquem o Porto Alegre em Cena. Por que o festival é considerado o melhor do Brasil? Porque eu tenho essa preocupação e meus líderes políticos me deixam trabalhar, não me sinto nem um pouco pressionado a fazer demagogia. Sempre foi assim, não só agora, mesmo quando a prefeitura era governada pelo PT. Nunca gostei da “fila dos sem”, isso cresceu assustadoramente na minha ausência… eu participei do 1º ao 8º e havia os espetáculos de rua, que sempre são de graça. Ano passado, trouxemos uma co-produção chilena e francesa, e era um espetáculo de rua magnífico nos bairros. Não era qualquer espetáculo, não gosto disso, nunca gostei. Até onde eu trabalhei esse era o meu padrão. Eu sei bem aonde quero chegar, na qualificação cada vez maior do evento. Só assim tem importância. Por que os festivais de cinema ou artes cênicas vão despertando menos interesse? Porque eles decaem em qualidade, vão fazendo política. Por exemplo, se um festival de cinema quer mais artistas globais do que gente de cinema – não tô falando de A ou B –, perde a importância. Não quero que perca a importância com o que não é importante. Minha busca é para que o festival traga profissionais, que não precisam ser necessariamente conhecidos, mas com qualidade. Não importa se a cidade não conhece, acho que já consegui ao longo da minha vida, um crédito na cidade e Porto Alegre sempre presta atenção no que eu proponho para ela como artista.
JÁ – Nesse tempo em que esteve afastado, essas questões mudaram o rumo do festival? Isso poderia ser marcado como uma diferença?
São diferenças, mas não fiquei preocupado com o festival enquanto não estava aqui, mesmo porque trabalhei no festival de teatro de Buenos Aires. As coisas acabam, assim como a direção de uma peça de teatro que termina. Nunca fico pensando no passado, sempre opero no presente e no futuro. Gosto muito do Ramiro [Silveira], é meu amigo e, salvo um engano meu, começou como meu estagiário lá na coordenação de Artes Cênicas. Nunca torci contra. Seria um engano se eu achasse que outras pessoas têm que pensar como eu. Cada um que estiver na frente do Em Cena vai imprimir a sua marca.
JÁ – E qual a marca que o Luciano Alabarse deixa?
Assisti aos vídeos de todas peças que mandaram, e foram quase 300. Tinha períodos em que eu dormia na frente na televisão, às vezes há surpresas magníficas no material que te mandam. Mas um festival não se faz só de inscrição, se faz de convites principalmente. São as peças que tu queres que estejam presentes. A parte nacional e internacional é da minha responsabilidade. A mais delicada de qualquer festival é sempre a local, porque todo mundo quer estar num evento dessa envergadura. Nessa parte, sempre divido a curadoria. Esse ano foram 10 curadores, todas pessoas de teatro, para que ninguém acredite que estou prejudicando ou protegendo determinados grupos. Desde o Luiz Paulo Vasconcelos, coordenador de Artes Cênicas, até o Aloísio Tomasoni, que é da área de dança, a gente do teatro que trabalha no festival, diretores e atores que não tinham peças disputando vagas.
JÁ – Quais as características que dos espetáculos de fora de Porto Alegre?
Nunca preparo nada, simplesmente vou ver os espetáculos. A melhor forma para selecionar, é assistir às peças. Se pudesse, veria todos, mas não tenho tanto dinheiro assim, porque tudo isso é do meu bolso. Não procuro coisas específicas: o que importa é que te surpreendam. Às vezes é uma direção surpreendente, outras uma atuação maravilhosa ou um texto que te chama atenção. Pode tudo em teatro, diferentes linguagens, provocação. Não acho que teatro é só para as pessoas gostarem, é para provocar também. Nem todos espetáculos são belos, alguns são incômodos, trazem inovações estéticas que chocam o gosto conservador, mas todo o festival tem que ter isso. Ninguém entra por ser amigo, ou deixa de estar porque eu não conheço. Tem, que ter um valor estético.
JÁ – Recentemente, duas peças shakespearianas estiveram em cartaz na cidade: o Hamlet, dirigido por você, e Sonho de uma noite de verão, da Patrícia Fagundes. Mas há uma corrente que defende o teatro contemporâneo para estimular a reflexão sobre a vida moderna e acredita que montar clássicos seria algo menos engajado…
Acho que clássicos são clássicos, justamente por se incorporarem ao imaginário do ocidente. Achar que um Sheakspeare não tem nada a dizer dos dias de hoje é estranho. Um dos defeitos de Porto Alegre é que a cidade tem muito pouco contato com os clássicos. Se a gente vai a Berlim, por exemplo, sempre tem uma ou duas montagens de Shakespeare, Ibsen, Tchecov. Por exemplo, o Hamlet fazia 30 anos que não era montada em Porto Alegre. Ou seja, toda uma geração que não viu… não vejo qual é o ganho disso. Não gosto é do dogma… não acho que nem o clássico seja a salvação, e tampouco o contemporâneo. O teatro é um território sem preconceitos. E uma cidade que não tem acesso ao clássico é uma cidade menor, sem cultura.
JÁ – Qual a tua avaliação da produção cênica local?
Ontem [23 de julho] assisti à peça da Deborah [Finochiaro], Sobre Anjos e Grilos. Lá pelas tantas, o Mario Quintana diz assim: “Porto Alegre, num determinado tempo, era uma pequena cidade grande, e hoje acho que é uma grande cidade pequena”. Isso é tão bonito e tão verdadeiro… Eu não me identifico em nada com essa coisa separatista, histórica, do Rio Grande do Sul, da Revolução Farroupilha. Não gosto disso, gosto de estar conectado com o Brasil, com o mundo e gosto que o mundo esteja conectado com Porto Alegre. Não tenho nenhuma relação de deslumbramento com o mundo, mas também não tenho de auto-suficiência e às vezes penso que o nosso povo acredita que pode ser auto-suficiente e não há nada mais enganoso que isso, ainda mais na arte. O teatro que se faz no Rio Grande do Sul é bom, está num patamar de qualidade elogiável, mas não pode se bastar a si mesmo. Temos que ver o teatro do mundo, o que as pessoas estão fazendo ou realizando. Essa troca é legal, não é subserviente, e trabalho para que aconteça. Uma boa temporada de teatro mescla tudo: experiências de vanguarda, clássicos, teatro de texto, sem texto.
JÁ – E essa prática que se instaurou em Porto Alegre, de aplaudir de pé a todos os espetáculos?
Não há nada mais equivocado do que isso, eu fico sentado. Só me levanto para aplaudir quando é algo realmente excepcional. Também não gosto de ser aplaudido de pé por costume ou hábito. Nenhum lugar do mundo aplaude de pé por hábito… e aqui sim. Isso causa a falsa impressão de que tudo é muito bom e não é. Não sou o vilão da novela quando digo que tudo não é bom em teatro. Procuro ter sempre uma perspectiva para selecionar. Pensar que aqui temos o melhor teatro do mundo, que ninguém erra… isso é o começo de uma ilusão nefasta que é a de achar que somos melhores, superiores ao outros. E não somos, simplesmente porque é da troca com os outros que vem o crescimento. Sempre vejo muito teatro gaúcho, não tenho nenhum problema de aplaudir teatro gaúcho, mas essa arrogância é desnecessária. O que ajuda é eu, como diretor de teatro, querer me aperfeiçoar. O público não aplaudindo tudo de pé ou pensando que eu tenho que trabalhar de graça. E essas experiências de troca, como se faz no Em Cena é que despertam o interesse.

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