Mais títulos, menos vendas

Em 2005 foram vendidos 18 milhões de exemplares a menos que em 2004 (Foto: Carla Ruas/Arquivo JÁ Editores)

Guilherme Kolling

Desde 1990, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) promove a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”. As informações mais recentes mostram uma tendência curiosa. O número de títulos lançados aumentou, mas a venda de livros caiu. Em 2004, foram 34.858 livros em primeira edição e reedição, contra 41 mil em 2005. Mas as vendas, que chegaram a 288 milhões de unidades em 2004 baixaram para 270 milhões no ano passado.

“Trata-se de um fenômeno mundial. E o antídoto utilizado pelos editores é diversificar o número de títulos, atendendo ao mercado consumidor e aos autores. Escreve-se cada vez mais e os meios de produção facilitaram a publicação”, observa Paulo Ledur, diretor da AGE Editora.

Para o editor da Sulina, Luis Gomes, a queda nas vendas se explica pela baixa qualidade do conteúdo. “Aumentou muito a quantidade de livros técnico-científicos. As pessoas têm vontade de publicar e as editoras aceitam, mas com menos cuidados e critérios do que seria desejável. Nos livros de ficção também há uma oferta muito grande”, avalia.

O diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo, diz que a explicação é a demanda por novidades. “O mercado está na mão das grandes redes do varejo e elas impõem a compra, sob consiganção, somente de novidades, ou seja, o que já foi lançado há quatro ou seis meses já era. O sistema montado impõe que se lancem livros. Mas aumentar o número de publicações não significa que o brasileiro está lendo mais”.

Independente da qualidade editorial, a avaliação de que há, no declínio das vendas, grande influência da questão econômica é unanimdade. O empresário João Cervo, proprietário da Cervo, uma rede com oito livrarias, afirma que a queda não está relacionada à falta de interesse ou ao preço do livro, mas sim ao baixo poder aquisitivo da população, que gasta em outras necessidades. “O consumidor acaba tendo que fazer escolhas, a começar pelo lazer. Vai gastar R$ 40 num livro ou em cerveja, cinema?”, exemplifica Luis Gomes.

“A crise econômica do Estado é um fator determinante na queda das compras de livro”, observa ele. O presidente da Câmara do Livro, que distribui para editoras de obras didáticas sabe bem disso. “Os problemas da agricultura gaúcha se refletem diretamente na compra até do livro escolar. A crise do setor calçadista, a pobreza da Metade Sul, tudo isso atrapalha”, aponta.

O propreitário da livraria Terceiro Mundo e representante dos livreiros na CRL, Vitor Zandomeneghi, cita outro componente. A disputa com outras mídias, como internet. “As pessoas continuam lendo, só que não necessariamente o livro”, acredita. Apesar de concordar que o item é dos primeiros a serem cortados no orçamento familiar, ele cita a tendência mundial de diminuição do impresso.

“Livros e jornais não estão muito mais caros. Mas as vendas e as tiragens continuam caindo. Além disso, o Brasil não tem um mercado consumidor de livros forte. Uma grande fatia da população, independente de classe social, não tem o hábito da leitura”, ressalta Zandomeneghi.

Apesar da queda nas vendas de 18 milhões de exemplares na comparação entre 2004 e 2005, o faturamento aumentou no ano passado. “Com a diversificação dos títulos, as tiragens ficam menores e o preço unitário do livro aumenta. Isso é inevitável em qualquer processo produtivo. Mas ainda assim, convertendo o preço para dólar, o livro brasileiro é até barato”, acredita Paulo Ledur.

* Pesquisa realizada todos os anos desde 1990 que fornece um completo panorama da indústria do livro brasileira. São os mais confiáveis dos dados disponíveis sobre a quantidade de títulos e exemplares produzidos no Brasil. É patrocinada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

Na contramão, L&PM registra crescimento

Na avaliação do diretor da L&PM, Paulo Lima, a queda na venda de livros tem uma razão simples: preço alto e baixo poder de compra da população. Ou seja, a saída é vender livro barato, mas essa solução esbarra num hábito arraigado. “O editor brasileiro gosta de livro caro. E o livreiro brasileiro também. Acha que vai ganhar mais. Não percebe que o poder aquisitivo é baixo”, constata Lima. Prova de que esse não é o caminho é a própria L&PM, que vem crescendo em suas vendas de 20% a 35% por causa da coleção pocket, que tem preços acessíveis, cerca de um terço do preço do livro convencional. A oferta é a partir de R$ 6 e vai até por R$ 24, mas nesses casos, são livros com centenas de páginas. Os pockets representam 85% das vendas da L&PM.

Paulo Lima: mais de 6 milhões de pockets vendidos (Foto: Tânia Meinerz/Arquivo JÁ Editores)

Além do preço baixo, a estratégia da editora inclui a diversificação na distribuição, com a abertura de novos canais de venda, como supermercado, padaria, posto de gasolina. São 3 mil pontos de venda em todo Brasil. Se deixasse só em livrarias, esse número seria um terço disso.

“A questão do preço é muito importante. A redução do mercado aconteceu de fato. Mas não afetou a L&PM”, garante Lima. A editora lançou 80 pockets em 2006 e 12 livros convencionais. Ano que vem projeta 100 pockets e 40 livros. Já tem mais de 6 milhões de pockets vendidos desde 1997.

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