Naira Hofmeister
Passava pouco das 18h30 desta segunda-feira (21) quando centenas de notas de dólares cobriram as escadarias de acesso ao edifício da prefeitura municipal de Porto Alegre, no Centro Histórico da Capital.
Era o ápice do ato político organizado pelos coletivos contrários ao modelo de revitalização proposto para a antiga área portuária da cidade, que inclui a restauração dos armazéns tombados pelo patrimônio histórico e a construção de três espigões, um shopping center e estacionamento para 4 mil veículos.
Depois de um ano intenso de trabalho para tentar barrar o empreendimento – que incluiu a realização de dezenas de festas, visitas, reuniões com autoridades e ações na Justiça – a brincadeira serviu como catarse coletiva. Todos queriam atirar seu punhado de notas falsas sobre o Paço Municipal e apenas as réplicas tocavam o chão, algum participante as recolhia para fazê-las voarem novamente.
Apesar das risadas, o ato estava carregado de simbolismo: o dinheiro impresso representava a “recompra” do Cais Mauá pela população, uma referência ao processo de privatização da área – e de toda a orla central do Guaíba – denunciados por movimentos como A Cidade Que Queremos e Cais Mauá de Todos.

Houve também um “desabraço” ao prédio da prefeitura, quando os manifestantes deram as costas à porta de entrada para manifestar o rechaço pela política urbana implementada em Porto Alegre nas últimas gestões, além de discursos de lideranças tradicionais e de rostos novos – convocados pelos coletivos Defesa Pública da Alegria e Levante Popular da Juventude –, batucada, samba e hip hop improvisados.
Ao fim do ato, ao ritmo de Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, os manifestantes entoavam: “Cais, cais, cais, cais, cais, cais / Traz o povo pro cais, traz o povo pro cais, traz o povo pro cais”.
Criatividade atrai população

Realizado no final do horário comercial e em um dos pontos com maior volume de circulação de pessoas no Centro Histórico, o ato atraiu curiosos que desconheciam por completo o debate sobre o polêmico projeto de revitalização do Cais Mauá.
“Eu olho muito tevê, leio jornal e ouço rádio, mas não estou sabendo desse projeto”, admitiu o aposentado Jairo Balbueno, 68 anos, que, convencido da importância da pauta levou para casa uma pilha de panfletos “para distribuir aos vizinhos”.
“Eu me criei nesse rio, ele é nosso, é uma beleza da cidade”, justificou.
Já o empresário Antonio Carlos, 40 anos, reproduzia cada fala dos manifestantes para o filho, através do WhatsApp. Ele é portoalegrense, mas está morando em São Paulo e veio apenas passar uns dias na Capital gaúcha. “A primeira coisa que eu entendi é que o cais está fechado, mas antes era aberto, a gente podia ir lá ver o pôr-do-sol”, comparou.
Esportista nas horas vagas, Antonio Carlos estava com sua bicicleta, mas foi em uma competição de corrida recente que ele se deparou com os tapumes da orla do Guaíba, no trecho entre a Usina do Gasômetro e a Rótula das Cuias.
“É um circuito que tem em todo o Brasil e eu escolhi não correr em São Paulo, mas aqui, para poder ver o rio. E ele não estava lá”, revoltou-se.
Por sua vez, Fabrício Fagundes, 24 anos, parou por alguns minutos sua caminhada de reconhecimento do Centro Histórico de Porto Alegre para ver o escracho contra a prefeitura. “Sou turista, estava em Florianópolis e passei por aqui antes de seguir para o Alegrete”, explicou.
Apresentado aos argumentos dos manifestantes, que gritavam “não vai ter shopping”, ele aplaudiu: “Estão certíssimos! Shopping tem em qualquer lugar do mundo. Quando a gente é turista, quer mais é conhecer os lugares emblemáticos, importantes e tradicionais das cidades”.
Catador emblemático se soma aos protestos

Entre as dezenas de pessoas que participaram do ato, uma não conseguiria passar despercebida. Carregando seu carrinho com jornais velhos e papelão, Antônio Viana Carboneiro, o catador de lixo mais emblemático da cidade, foi ao Centro Histórico acompanhado do filho mais moço.
“Os catadores apoiam esse movimento e pedem que todos os que estão aqui também olhem para a nossa luta com carinho”, explicou.
Ao longo de mais de 30 anos de militância, Carboneiro liderou os moradores da Vila dos Papeleiros na busca por seus direitos, incluindo a mudança da comunidade para uma área urbanizada. Agora ele batalha pelo direito ao trabalho, ameaçado pela lei que baniu carroças e carrinhos de catadores das ruas de Porto Alegre.
“Agora conseguimos um ano mais antes que entre em vigor, mas precisamos de mais apoio para que o meu pessoal não passe necessidade”, justifica.
Para Carboneiro, há dois pontos de contato entre os movimentos que defendem uma alternativa ao atual projeto de revitalização do Cais Mauá e os catadores de lixo de Porto Alegre: a busca pela ampliação do diálogo com o poder público e o meio ambiente.
“Cada catador é um ambientalista porque se vê uma garrafa, uma latinha, um papelão na rua, ele recolhe, evitando que isso vá parar nos rios. É um trabalho para a mãe natureza e que permite que a gente compre material escolar para os filhos, arroz e feijão dignamente”, esclarece.
Manifestantes jogam dólares na prefeitura contra privatização do Cais Mauá
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Comentários
Uma resposta para “Manifestantes jogam dólares na prefeitura contra privatização do Cais Mauá”
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Eles deveriam jogar na RBS, a verdadeira interessada na especulação imobiliária que tomou conta da seus subordinados na prefeitura. Quando o PDT, via Vieira da Cunha, virou sigla de aluguel da RBS, não foi só Fortunati que ganhou, Lasier Martins também. E, na entrada e na saída, o pedágio da RBS.

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