
“Durante quatro anos, o presidente da República e o governo foram submetidos a um bombardeio” (Fotos: Helen Lopes/JÁ)
Helen Lopes
A filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) Marilena Chauí esteve em Porto Alegre nesta quarta-feira, 25 de outubro, para realizar palestras em universidades. Ela falou com jornalistas na sede no Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Estado.
Sem dar declarações à grande mídia desde o ano passado, Marilena criticou a atuação dos veículos nacionais na cobertura das eleições 2006 e propôs o fortalecimento da imprensa comunitária e alternativa, inclusive, através de subsídios do governo federal.
Portando uma pasta azul, com documentos e as duas últimas edições da revista Carta Capital, a professora afirmou que os ataques da imprensa ao governo Lula começaram no dia dois de janeiro de 2002. “Nunca em toda minha vida vi uma coisa igual. Durante quatro anos, o presidente da República e o governo foram submetidos a um bombardeio”, disse.
Para Marilena, as acusações “raras vezes eram a ações governamentais, mas sim dirigidas a pessoa do presidente ou a de algum ministro”, o que evidencia, na sua avaliação, um corte de classe. “É a luta de classes, no seu sentido marxista. Porque existe um conjunto de senhores do poder, do capital, contra um governo que, do ponto de vista da esquerda deixou muito a desejar, mas do ponto de vista da direita, fez mais do que o povo brasileiro merecia”, analisa a filósofa. “Chegaram até a tipificar o eleitorado de Lula: pretos, pardos e podres. E também os não instruídos”.
“Uma jornalista chegou a escrever que estava acontecendo um fenômeno preocupante para a democracia: o fato do povo estar contra a opinião pública. Esse idéia representa que a opinião pública é propriedade de um conjunto de intelectuais, jornalistas e empresários, detentores da verdade sobre a realidade social do país”, pondera.
Na análise da professora, o denuncismo da mídia está “ligado ao fato de que o PFL e o PSDB não admitiram a eleição do presidente Lula”. Para Marilena é uma crise midiática que contou com a contribuição de alguns dirigentes do PT de São Paulo. “Eles ajudaram no desastre, nisso são imbatíveis”, ironiza.
“A mídia produz o espetáculo e não permite que, em nenhum instante, as questões que subjazem a argumentação política possam aparecer. Por exemplo, até hoje, ninguém sabe porque o Roberto Jefferson criou aquele caso”, observa.
Para Marilena, “não há como mudar a posição da grande mídia”. “Nem com a concessão máxima que este governo fez com a TV digital.” Ela enfatiza, porém, que a comunicação é o coração de uma sociedade democrática.
“Se não houver circulação de informação, se não houver conflitos que se exprimam, não há democracia”, entende. E alerta para o que acontece nos dias atuais. “A comunicação se tornou uma questão totalmente tecnológica e o conhecimento, uma força produtiva do capital. Assim, a informação se tornou uma força econômica e um poder”.
A única solução para contrapor a padronização de pensamento e democratizar a comunicação “está na mídia alternativa, que esse governo não ajudou e precisa ajudar”, acredita. A filósofa propõe que, no caso de um segundo mandato, o presidente Lula ajude a estabelecer canais efetivos de comunicação comunitária. “Subsidiar a mídia comunitária e promover toda rede de uma estrutura alternativa é que temos que exigir”, defende.

“Não há nada a fazer em relação ao comportamento da mídia, pode-se fazer o que eu tenho feito. Não dou entrevistas, não me relaciono. Eles não são meus soberanos”
Restrições à grande imprensa
Marilena Chauí é um dos mais importantes nomes do pensamento político brasileiro. Escreveu títulos como O que é Ideologia e Convite à Filosofia.
Desde 2005, a professora não dá declarações à grande imprensa. Tanto que na sua visita ao Estado nesta quarta-feira, 25 de outubro, concedeu entrevista coletiva restrita a entidades sociais, sindicatos e ao Jornal JÁ. “Não há nada a fazer em relação ao comportamento da mídia, pode-se fazer o que eu tenho feito. Não dou entrevistas, não me relaciono. Eles não são meus soberanos. Podem ter o império que tiverem, mas sobre mim eles não tem”, ironiza a intelectual.

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