“Minha música amadureceu quando voltei a Pelotas”

Naira Hofmeister

Satolep Sambatown surpreendeu o público que assistiu à estréia do show na abertura do 14º Porto Alegre em Cena, na noite de 10 de setembro (foto). Vitor Ramil e seu violão dividiram o palco com o carioca Marcos Suzano e uma parafernália eletrônica de samplers e sintetizadores de som. “Bem vindos ao Porto Alegre Em Cena e à Satolep Sambatown, um universo tão novo para gente quanto para vocês”, alertou logo que subiu ao palco.

Corajosamente, a dupla apresentou ao público pela primeira vez o resultado da parceria – o disco ainda não havia chegado às lojas e os exemplares comercializados no saguão do Theatro São Pedro não tinham preço definido antes de a apresentação começar.

Dois dias depois do espetáculo, Vitor Ramil recebeu a reportagem no JÁ no apartamento de seus filhos, em Porto Alegre – onde também moraram nos anos 80 os outros dois irmãos famosos, Kleiton e Kledir, além do próprio Vitor.

Numa conversa franca, admitiu que a novidade pode afastar o público cativo que aprendeu a associar o compositor às milongas e baladas. “Mas escreve o que eu estou dizendo: daqui a alguns anos, o Satolep Sambatown vai ser super assimilado”.

Para Vitor Ramil, a experimentação é um quesito obrigatório na trajetória do artista. “Não quero ficar parado no mesmo lugar”.

Ao longo da conversa de quase duas horas, o artista também falou da influência de sua terra natal em sua música e sobre a importância de Pelotas para que ele encontrasse o caminho que queria seguir. “A minha música começou a crescer – não só ficar conhecida, mas em termos de qualidade, de amadurecimento – quando eu saí do Rio e fui pra Pelotas”, revela.

JÁ – Foi uma atitude bastante ousada subir ao palco e apresentar um universo absolutamente novo para o público.
Vitor Ramil
– E eu toquei todo o disco: são canções novas, arranjos absurdamente novos para o meu conceito. Pela primeira vez, eu toco musica eletrônica de uma forma explícita. Mas não é aquela eletrônica de festa, convencional. E não estamos referenciando em nenhuma banda inglesa ou nova-iorquina. O [Marcos] Suzano é um maluco que faz um som muito singular.

JÁ – Mas o público se acostumou a associar o teu nome a baladas e principalmente milongas. Algumas pessoas se surpreenderam com o que vocês apresentaram no palco…
VR
– Isso para mim é um barato! Quem não está envolvido com a produção artística, pode até falar que prefere ouvir canções de voz e violão. Então quando essa pessoa ouve outra coisa, fica chocada. Eu adoro baladas, mas se deixar, vou passar a vida inteira tocando a mesma coisa. E eu não quero ficar me divertindo a vida inteira, quero ir pra frente.

JÁ – O teu disco anterior [Longes] era muito diferente….
VR
– Quando eu me encontrei com o Suzano, tinha acabado de fazer o Longes, que é um disco super parado, melancólico, profundo. E que espantou muita gente. Quem tinha adorado o Tambong, que tinha um balanço bem brasileiro, foi ouvir o Longes e se deparou com um som sujo de guitarras. Satolep Sambatown surgiu de um convite para fazer um show num espaço cultural lá no Rio. Mas eu tinha me apresentado nesse local há pouco tempo e não queria repetir o repertório. Veio a idéia de convidar outro músico, mas eu não queria dois violões. Como eu já acompanhava o trabalho do Suzano e estava inquieto, louco para fazer algo diferente, resolvi experimentar.

JÁ – O público vai assimilar mais essa mudança?
VR
– Eu sei que parte do público se incomoda com algumas coisas. Mas escreve o que eu estou dizendo: daqui há alguns anos, o Satolep Sambatown vai ser super assimilado. Reverter expectativas, às vezes, nos faz perder uma fatia de público inicialmente. Mas ao longo do tempo, isso fortalece o trabalho artístico. As pessoas se dão conta de que tu não estás ali para bajular ninguém.

JÁ – Tua trajetória tem muitos exemplos de atitudes corajosas: morar em Pelotas também é uma delas…
VR – É curioso… Sabe que a minha carreira começou a andar mesmo, a minha música começou a crescer – não só a ficar conhecida, mas crescer em termos de qualidade, de amadurecimento – quando eu saí do Rio pra Pelotas. No final dos anos 80, a mídia de massa determinava as ondas: uma hora só rock, outra só sertanejo. Eu morava no Rio, não tinha interlocução, não havia espaço para a música que eu queria fazer, entendeu? Eu estava me sentindo muito desambientado.

JÁ – E decidiu sair do centro da produção artística e voltar para o interior do Rio Grande do Sul!
VR
– Quando cheguei aqui é que caiu a ficha: bah, mas que loucura que eu fiz, né? Saí fora do mercado, de tudo, de onde estão as pessoas, de onde está o meu trabalho, de onde eu deveria estar, né? Será que não foi um gol contra, será que eu não fiz a escolha errada? Mas, com o tempo, foi incrível!

JÁ – A tua identificação com Pelotas é muito forte, né?
VR – Um trabalho como Ramilonga dificilmente viria à tona em mim, na minha cabeça, num ambiente onde ele ia ser naturalmente rejeitado. Imagina eu aparecer numa gravadora e oferecer um disco de milonga, naquela época? Surreal, entende.

JÁ – O conceito da Estética do Frio também foi forjado nesse período?
VR – A idéia mesmo surgiu no Rio, antes de eu vir embora. Mas foi quando eu cheguei aqui que ela começou a fazer sentido pra mim. Aí o Luís Augusto Fischer começou a insistir muito comigo para eu escrever um ensaio para um livro da Editora da UFRGS, Nós, os Gaúchos. Essa montagem primeira da Estética do Frio aconteceu lá.

JÁ – Tem um debate sobre o que é ser gaúcho e o que é ser brasileiro…
VR
– Quando eu escrevi a Estética do Frio, tinha acabado de ver aquele carnaval, aquele monte de informação de cor e luz. Aquilo tudo me trouxe toda informação do que era muito forte na música brasileira, toda a imagem de Brasil, aquilo que estava na minha cabeça. Acho que o tropicalismo transformou tudo numa espuma de praia, eclética: de repente, tudo valia. Era uma variedade que, para quem estava tentando botar um foco, definir, se entender, se enxergar, não ajudava.

JÁ – Então voltar foi definitivo para o trabalho que tu desenvolveu depois?
VR – Foi como se eu tivesse passado uma régua, uma régua e um compasso naquilo ali, sabe? Parafraseando o Gil, a régua e compasso para mim, vieram através de imagens do sul, na ocasião. Eu falo no livro que pensei num gaúcho olhando o pampa e tal, mas não que o gaúcho fosse se tornar o meu símbolo do que deveria ser a música, não. Ele estava ali de alguma forma me surpreendendo. Pensei, por que ele está ali? Porque ele deve estar no meu imaginário, ele está reivindicando o seu lugar no meu imaginário – eu estou reivindicando o gauchismo. E eu não sou gaúcho da campanha, criado em fazenda. Eu sou da cidade.

JÁ – Mas esse trabalho atual tem uma atmosfera quente: muito pandeiro, batuque. É o fim da Estética do Frio?
VR – As pessoas estão falando muito sobre a Estética do Frio, são muitos trabalhos em universidades, em escolas, de antropólogos. Mas estão analisando em cima de uma coisa que, pra mim, de alguma forma, já foi. Acho que ela faz sentido ainda, porque tem umas reflexões ali que transcendem a minha individualidade. Pensar a identidade do Rio Grande do Sul, isso tem valor em qualquer época. Mas eu estou com a cabeça muito pra outro lado.

JÁ – Isso antecipa novos trabalhos? Acabaram-se as milongas?
VR – Com o sampler, tu manipula uma onda de som. Quando eu canto, é uma onda de som também. Então, é uma barreira que a gente tem que vencer. Isso não quer dizer que o meu próximo disco vai ser louquíssimo, de eletrônica. Vou te dizer: o meu projeto seguinte vai ser de violão e voz.

JÁ – Essa apresentação acabou antecipando a estréia de Satolep Sambatown. O que ainda vai mudar no espetáculo?
VR – Como o show anda está nascendo, estamos numa fase ainda de elaboração. Então, por exemplo, eu fui com uma roupa do [Alexandre] Hercovitch que eu tenho – uma coisa clássico-louca – e o Suzano foi com um terno japonês. Depois, tiramos os casacos para ficar só de camiseta. Acho agora que temos que sujar um pouco mais o nosso figurino.

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