Higino Barros
Que prazer mais um corpo pede/ Após comido um tal feijão?/ Evidentemente uma rede/ E um gato para passar a mão…
( Feijoada à minha moda- Vinicius de Morais)
País de dimensão continental, o Brasil tem em suas diversas regiões culturas, linguajar, costumes, tipos humanos, geografia e culinárias diferentes, entre tantas outras peculiaridades. No entanto, um prato é definido como típico do País, o que melhor nos representa, a feijoada. Embora não seja bem assim.
Existe a crença, difundida pela cultura oral popular, que feijoada é um prato de origem africana. Teria sido criada nas senzalas dos escravos, com sobras menos nobres- rabo, orelha, língua e pé- da carne de porco comida pelos senhores portugueses.
Acontece que essas partes do porco são muito valorizadas na culinária europeia, inclusive a portuguesa. Assim, não seriam destinadas aos escravos. E feijão preto era um alimento distante da culinária dos escravos no Brasil colonial, embora seja de origem sul-americana e só integrado aos hábitos alimentares da população a partir do século XVIII.
Representação de brasilidade
Como observa o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo, sendo boa parte dos africanos seguidora do islamismo, como poderiam ter incluído a carne de porco no prato, já que a religião interdita seu consumo? Cascudo indica que a feijoada como a conhecemos, composta de feijão, carnes, hortaliças e legumes, seria uma combinação criada pelos portugueses, apenas no século XIX, em restaurantes frequentados pela elite escravocrata do Brasil.
Sua difusão teria se dado mais tarde em hotéis e pensões populares, principalmente a partir do Rio de Janeiro. E teria se tornado o símbolo culinário do País graças ao Movimento Modernista de 1922, interessado em constituir uma identidade nacional brasileira, segundo Carlos Alberto Dória, em Formação da Culinária Brasileira.
O certo é que o prato sempre fascinou os intelectuais brasileiros. No filme Macunaíma o diretor Joaquim Pedro promove o último encontro do herói picaresco do romance de Mário Andrade com o gigante Piamã, Venceslau Pietra, comedor de gente, numa feijoada. Macunaíma é convidado para uma feijoada em comemoração ao casamento da filha de Venceslau. A iguaria é servida dentro de uma grande piscina, onde a carne humana dos próprios convidados substitui as carnes típicas. A cena, no filme, é memorável e teve como locação um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro, o Parque Lage.
Outro artista que se apropria do tema feijoada é o compositor Chico Buarque de Holanda, autor do samba Feijoada Completa, composta em 1977, canção que nos tempos do politicamente correto de hoje não seria aprovada, já que em sua letra o homem avisa para a mulher, de última hora, que está levando um bando de amigos para almoçar. E recomenda colocar mais água no feijão.
Consta também que o compositor erudito Heitor Villa- Lobos, certa ocasião, depois de longa temporada europeia, foi às lágrimas em Paris, ao ser homenageado por amigos com uma autêntica feijoada brasileira.
Independente dessas questões, o prato foi adotado em todas as regiões do País, variando pouco em sua receita. Há lugares em que se usa feijão mulatinho ao invés do preto, outros usam carnes frescas no lugar de carnes maturadas.
Versão vegetariana
No Rio Grande do Sul, como nos outros estados sulistas, o hábito da feijoada está vinculado ao inverno, enquanto no resto do País ele é consumido em todas as estações do ano. Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro há um dia especial na semana em que é item obrigatório no cardápio dos restaurantes.
Antes que o inverno termine e dando continuidade ao Projeto Cultural Memória Alimentar, realizado mensalmente no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, o cozinheiro Daniel Ninov promove uma feijoada completa no próximo domingo, dia 28, com direito a uma versão vegetariana. A ideia é promover encontros gastronômicos em local que remete à cultura, como o Centro CEEE Erico Verissimo.
Na feijoada clássica, vão carnes suínas e charque bovino, acompanhado por farofa, couve e laranja. Entram na versão vegetariana feijão preto orgânico, usado também na clássica, cebola, tomate, berinjela, batata doce, moranga, nabo, pimentões, ervas frescas, tofu defumado e salsicha vegana.
Como a previsão do tempo para domingo é de sol, almoçar no Centro Histórico, visitar os equipamentos culturais próximos, na Praça da Alfândega e Rua da Praia, até o Gasômetro, é um programa recomentado. Depois, se deitar numa rede e passar a mão num gato, como sugere Vinicius de Morais.


Deixe um comentário