Movimentos sociais encenam 'julgamento da mídia golpista' na Matriz

Naira Hofmeister
Em meio a uma movimentação de centenas de acampados, churrasqueiras, ambulantes com isopores cheios de bebidas e tendas que vendem produtos da reforma agrária, a Praça da Matriz serviu de palco, na noite de sábado (16), para uma curiosa encenação.
Conduzida pelo jornalista Ayrton Centeno, no papel de juiz, a brincadeira foi intitulada “julgamento da mídia golpista” com direito a testemunhas de acusação e um desajeitado advogado de defesa.
O debate era sobre o papel da imprensa na crise política atual, mas não faltaram testemunhas para lembrar que inflação aumentou antes nas páginas de jornais do que nas prateleiras do supermercado, que a mídia silenciou durante a ditadura, que as novelas mercantilizam o corpo da mulher e reduzem o papel dos negros ao de subalternos, que no noticiário, favela só produz violência…
“A imprensa brasileira é a principal responsável pelo atraso no avanço democrático do país”, resumiu o ex-deputado (PT) Raul Pont, que falou na condição de “sequestrado pela Operação Bandeirante (Oban)”, durante a Ditadura Militar.
De Santa Maria veio um depoimento inesperado. Uma jovem lembrou a cobertura frenética que os veículos de comunicação fizeram da tragédia da boate Kiss, quando morreram 242 pessoas, sobretudo jovens.
“Passaram um mês mostrando a dor e o sofrimento 24 horas por dia na televisão. Mas quando ocupamos durante uma semana a Câmara de Vereadores para cobrar uma investigação séria sobre os responsáveis pelo incêndio, rodaram uma matéria de 30 segundos em rede nacional”, surpreendeu-se.
Alternativas de mídia

A maioria das críticas era sobre a distorção que a imprensa faz das ações de movimentos sociais – cuja versão atual é o ataque ferrenho ao governo federal, cuja base são esses movimentos.
No “vácuo” dessa cobertura ausente é que trabalha há 12 anos o jornalista Gustavo Turck, do Coletivo Catarse. “Há muitos excluídos da imprensa”, recordou.
Ele fez uma defesa das pequenas iniciativas de imprensa que há no Brasil, mas pediu: “Parem de nos chamar de mídia alternativa, nós somos alternativa de mídia”.
Seu colega de Catarse, Marcelo Cogo, lembrou que a grande imprensa se sustenta basicamente de publicidade – grande parte dela, proveniente de fontes oficiais.
“É justo que governos coloquem diariamente milhões de reais nessas empresas, mantendo essa mídia que os golpeia”, condenou.
Jornalistas explorados
O jornalista Wálmaro Paz, que fez carreira ao longo de 45 anos nos grandes conglomerados como Diários Associados, Caldas Júnior e RBS, recordou a fragilidade das relações trabalhistas nessas empresas.
“Elas vivem da exploração dos nossos colegas, seus donos enriquecem graças ao nosso suor”, lamentou.
Ele fez um apelo para que o trabalho dos profissionais da imprensa fosse respeitado. “Antes podíamos recorrer à cláusula de consciência para rejeitar uma pauta, mas hoje, isso é impossível”, revelou, fazendo uma referência ao enxuto mercado para jornalistas no Brasil.
Essa não foi a primeira atividade crítica à cobertura da imprensa no acampamento ao longo dessa última semana. Na quarta-feira à noite foi pendurado um varal dos cartunistas que teve a mídia como alvo. Também houve uma palestra da professora e doutora em Comunicação, Christa Berger e do presidente do Sindicato dos Jornalistas, Milton Simas, sobre o “papel da mídia no golpe”.

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