Antes da palestra, público assistiu ao documentário Falcão – Meninos doTráfico
(Fotos: Ricardo Giusti/PMPA/JÁ)
Carla Ruas
Na abertura da 3ª Semana Municipal da Juventude, na tarde deste sábado, 12 de agosto, o rapper MV Bill realizou uma palestra para os jovens sobre questões polêmicas como tráfico de drogas, preconceito e inclusão de cotas nas universidades. O seminário ocorreu no centro de Eventos da Cultura Gaúcha (Parque da Harmonia), após a exibição do documentário Falcão – Meninos do Tráfico, por MV Bill e Celso Athaíde.
O documentário que impressionou os brasileiros em março de 2006 serviu como ponto de partida para a conversa informal entre o músico e os cerca de 200 participantes na platéia. MV Bill explicou que a idéia de fazer o filme surgiu com o sucesso do videoclipe da música “Soldado do Morro”, que mostra o dia-a-dia de traficantes. A partir deste momento, ele passou a viajar para fazer shows e visitou comunidades carentes de todo Brasil.
O documentário, que demorou seis anos para ser filmado, mostra a vida de 17 jovens que trabalham com o tráfico de drogas. O resultado foi chocante: durante este período, 16 dos entrevistados morreram em função das atividades criminosas. O único que sobreviveu tinha o sonho de trabalhar no circo e hoje participa de aulas do Parque Beto Carreiro. “Mas o ideal não é tirar os jovens do tráfico. O ideal é que eles não tenham que entrar”, afirma Bill.
Uma das cenas do documentário mostra um falcão vestindo a camiseta do time de futebol Internacional e tomando chimarrão. “As pessoas acham que o crime só acontece no Rio e em São Paulo, mas aqui é igual, só que em menor escala”, disse.
Questionado sobre as soluções para o problema, MV Bill é enfático: “Não tem como acabar com o tráfico”. O rapper afirma que nem os países de primeiro mundo conseguiram erradicar a venda das drogas. Para ele, um dos entrevistados do filme responde a questão: “Se a comunidade tivesse um salário digno, o problema iria diminuir bastante“.
Dois Brasis
MV Bill: “No Brasil cada cargo parece uma boquinha de fumo”
Aproveitando o ano eleitoral, MV Bill fez um apelo aos jovens: “Mais criminosos do que esses meninos são os políticos corruptos”. Ele disse que existe uma parcela de honestidade entre os candidatos, mas tem que ter cuidado porque é difícil distinguir. “No Brasil cada cargo parece uma boquinha de fumo”.
Na visão do rapper, existem dois Brasis, duas realidades que coexistem no país. Quando o político rouba dinheiro público ele não vai preso, mas se o jovem da periferia comete um crime menor vai. “São duas leis diferentes”, lamenta.
Ele diz a polícia também age de formas distintas: “Na mesma situação tem a policia que protege o branco e a policia que dá porrada no negro”, denuncia. Para Bill, a primeira atitude que tem que ser tomada no Brasil é acabar com o preconceito e realizar um processo de inclusão “do Brasil no Brasil”.
Cotas
A inclusão de cotas raciais nas universidades públicas foi tema de participações incisivas da platéia. “Como é bom discutir sobre a questão racial quando a maioria quer fugir deste debate” disse Bill. Parte do público defendia a divisão de cotas por parâmetros de exclusão racial (negros, índios), e outros pela condição social (menos favorecidos, independente da origem genética).
Para o rapper, ignorar as diferenças raciais no Brasil é uma hipocrisia. “Quem é a maioria que está nas ruas? Quem é a minoria nas universidades ou na política? Os negros”. Ele defende que as cotas são uma necessidade neste primeiro momento de inclusão. “Mas tem que haver um movimento paralelo de melhora do ensino de base”.
A semana
O evento iniciou com a abertura oficial da Semana Municipal da Juventude, com a presença do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, do secretário da Juventude, Mauro Zacher e do secretário nacional da Juventude, Beto Curi. Também teve a participação de entidades como a Umespa (União Metropolitana dos Estudantes Secundários de Porto Alegre), Une (União Nacional dos Estudantes), Jornal Boca de Rua e Gapa (Grupo de Apoio à Prevenção da Aids), instalados em bancas.
Zacher lembra que a Semana da Juventude nasceu de uma lei aprovada pela Câmara Municipal e marca a participação do movimento jovem organizado. “Serve para fortalecer o diálogo com o governo sobre políticas públicas que favoreçam a juventude“.
Entre as atividades programadas até o dia 20, ele destaca a oficina de grafite, percussão, teatro e street ball com o grupo musical Afroreggae, destinado aos integrantes da Fase (Fundação de Assistência Social do Estado). A programação também inclui oficinas para a comunidade sobre prevenção à gravidez precoce, combate ao tabagismo e mercado de trabalho.

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