O ano em que a estatística foi manchete

Até os bagres cegos do Arroio Dilúvio sabem que as estatísticas são instrumentos limitados, como tudo, quando se trata de “medir a realidade”.
As estatísticas que resultam das pesquisasde opinião, por exemplo, podem ser úteis para retratar um dado momento.
Mas são voláteis e, para que se possa avaliar devidamente o que elas mostram, é preciso considerar muitas variáveis.
coAté a forma como as perguntas são feitas podem influir no resultado.
As estatísticas econômicas, então, nem se fala.
Geralmente, buscam sintetizar uma situação complexa, reduzir a um índice uma teia de fatos e resultados que nem sempre convergem para uma conclusão simples.
Claro, a estatística é uma ciência consagrada, de alta importância, e não se trata de questioná-la como tal.
O que se pode e deve questionar é a sua utilização acrítica e sua apresentação como verdade, como faz usual e levianamente o nosso jornalismo.
Neste sentido, o ano de 2015 foi emblemático.
Seria um bom exercício acadêmico levantar e analisar todas as manchetes produzidas pela nossa tão autodecantada imprensa com base em dados estatísticos.
Principalmente as que comprovavam as teses que dominam as grandes redações, de que o país, desgovernado, está mergulhando “na pior crise econômica de nossa história”.
Por exemplo: uma pesquisa do Ibope apontou que “86% dos brasileiros” querem a cassação de Eduardo Cunha e que “67% dos brasileiros” querem o impeachment  de Dilma.
O resultado a respeito de Cunha, não mereceu maior atenção. “Não vem ao caso”.
Afinal, Cunha, apesar do seu currículo (que ainda não apareceu por inteiro), é uma das encarnações do antigoverno.
Já em relação a Dilma, as manchetes se repetiram à exaustão, como prova de que “ninguém aguenta mais esse governo que está aí.”
Outro exemplo: foi manchete em todos os jornalões,  quase em uníssono, que os shopping centers este ano tiveram “o pior Natal dos últimos 10 anos”.
Houve queda de 1% (sim, um por cento, depois de uma longa curva ascendente no consumo) nas vendas, conforme o levantamento da associação nacional dos shoppings.
O aumento de 26% das vendas pela internet, apesar de todo o fascínio pelas “novas tecnologias”, foi considerado desprezível, porque desmentia a tese da “pior crise”.
Quero dizer: apesar de todo o discurso, o “jornalismo nativo” não consegue ver a realidade sem os óculos da ideologia e sem o obsequioso auxílio dos números generalizantes.
Feliz Ano Novo!

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