O Che que Cuba admira

Naira Hofmeister*

A opinião mais mortal sobre Che Guevara nas ruas de Havana soa num suave timbre. A cubana admira muito mais do que o caráter e a coragem do guerrilheiro argentino que, ao lado de Fidel Castro, derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista e implantou o socialismo na ilha caribeña. “Era muito sexy”, resume uma senhora de meia idade que tem um pôster do herói na cabeceira da cama.

Aos homens, resta narrar as intermináveis lendas que cercam sua personalidade, invariavelmente relacionada ao altruísmo, desapego e moral exemplar. A coisa mais comum em Cuba é topar com alguém que conheceu Che Guevara.

Dizem os “historiadores” das ruas cubanas que Che inventou ele mesmo uma espingarda quando suas armas foram tomadas pelo exército. Também são inúmeros os relatos de histórias engraçadas, todas com um profundo ensinamento moral.

“Na Serra do Escambray, Che recebeu de presente dos camponeses uma galinha, que não dava para alimentar mais de uma pessoa. Ele estava morto de fome – assim como suas tropas e o próprio sertanejo. Che mandou cozinhar o frango e deu aos cachorros do acampamento, dizendo que nunca aceitaria comer mais do que sua tropa apenas porque tinha um grau militar”, narra Orlando, que vive próximo à cidade de Trinidad, por onde passou a Coluna 8, comandada pelo argentino. O camponês jura que viu com os próprios olhos a cena.

“Ele encarnou o ideal de justiça social que os revolucionários pregavam. Por isso a batalha por Santa Clara durou três dias e não três meses, como previam. Sua postura estimulava muito os combatentes”, observa Jose Amadeo Brito, que lutou em 1958 ao lado de Che e hoje reúne material para um livro sobre o mítico guerrilheiro.

Mesmo depois de sua triunfal vitória sobre o exército batistiano, Che Guevara não se rendeu ao conforto de membro do governo.

Conrado Moreno (foto) tem hoje 87 anos e foi operador da Rádio Rebelde – criada por Che Guevara para transmitir as informações da Sierra Maestra aos demais acampamentos guerrilheiros. Também funcionava como agência internacional de notícias.

Depois que entraram em Havana, Conrado foi falar com o comandante e pedir-lhe autorização para voltar à cidade natal, no interior. Conrado disse que não entendia o sistema de transporte – muitas linhas de ônibus, ruas grandes demais, carros por toda a parte. Che pareceu comovido e mandou que voltasse no dia seguinte.

Quando retornou, Conrado não encontrou Che. Ele não estava, mas havia deixado um envelope que o homem imaginou ser um ofício de desligamento ou transferência. “Quando abri, retirei de dentro uma porção de mapas das ruas de Havana e todas as rotas de ônibus ativas”. Ele diz que hoje consegue rir do acontecimento, mas na época sentiu-se ofendido.

Conhecedores relatam outra face

Defensor clássico das teses neoliberais, o cubano Carlos Alberto Montaner, que vive fora da Ilha há quase 50 anos, tem uma visão distinta de Guevara. “Ele matou muita gente em La Cabaña”, e citou duas frases que confere ao guerrilheiro. Uma carta para a primeira esposa, Hilda Gadea, escrita na Sierra, em que diz que “está sedento de sangue”. Outra, depois do triunfo da Revolução, na qual diz que “Um bom revolucionário tem que ser uma verdadeira máquina de matar”.

A mística em torno do guerreiro serve ao regime de Fidel Catsro, acredita Montaner. “Fidel queria de fato acabar com Che, porque ele não se subordinava a ninguém e era intelectualmente arrogante”. A importância do mártir foi a única responsável pela manutenção de sua figura no panteão dos heróis contemporâneos.

O biógrafo de Che, Jon Lee Anderson, discorda. “Assassinato é diferente de execução”. Ele admite que a execução massiva de inimigos dos guerrilheiros, logo que tomaram o poder – e que foi comandada por Guevara desde o quartel de La Cabaña –, foi um erro. “Uma atitude imprudente, aberta à imprensa e com julgamentos à jato. Mas em termos relativos não foi uma revolução sangrenta”, avalia.

Jon Lee defende que Che Guevara foi um homem extraordinário. “Era admirado por amigos e por inimigos”. Mas entende que há diferença entre o culto guevarista na América Latina e em outras partes do mundo. “Aqui ele simboliza os problemas que até hoje tem que ser resolvidos. No primeiro mundo, as pessoas não se enxergam mais em causa política alguma”, compara. O herói, fora de sua terra, é explorado comercialmente pela mídia, o que o torna facilmente substituível.

E é essa face de herói que está estampada nas páginas dos jornais e outdoors da Ilha: o exemplo de Che Guevara. As manhãs de domingo em que o Ministro do Interior ou o Presidente do Banco Nacional de Cuba – depois de dar expediente de 12 horas durante seis dias da semana – trabalhar como estivador voluntário aos domingos. O guerrilheiro que dava voz de prisão a si mesmo porque tinha dormido enquanto vigiava o acampamento ou que voltou a todas as fazendas para pagar as dívidas do tempo de guerrilha, depois que tomou o poder.

O Che que inspirou o discurso de Fidel Castro, quando a notícia de sua morte – 40 anos atrás – foi oficializada. “Se queremos um futuro melhor, que sejamos com Che”.

Mas a brincadeira que corre solta em Havana é que a grande herança de Che Guevara ao povo cubano foi a tendência a “enforcar” o banho.

* A repórter esteve em Havana nos meses de janeiro e fevereiro deste ano.

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