O crime ecológico compensa

Geraldo Hasse
O crime ecológico compensa, eis o que se pode concluir, depois do acordo pelo qual o Ministério Público obrigou a Samarco Mineração a criar um fundo de R$ 1 bilhão para compensar os danos provocados pelo rompimento de duas barragens de resíduos em Minas Gerais.
Esse valor representa 1/4 do lucro anual da empresa pertencente à Vale e a um grupo australiano.
A Samarco, ou seja, a Vale estava usando a água para encobrir a sujeira de décadas de mineração, prática milenar que em si mesma constitui um crime contra a Natureza.
Os mineradores começam derrubando as matas da superfície e terminam por contaminar os cursos d’água.
O que se chamou de acidente em Mariana foi a súbita revelação de um crime continuado só comparável a dois outros crimes não menos hediondos praticados no mesmo ambiente — o “desbravamento” das selvas do rio Doce e o genocídio dos índios que habitavam essa região em tudo similar à Amazônia.
Em tudo similar, sim: fauna, flora, clima, solo, subsolo.
A única diferença é que as matas do rio Doce estavam no leste, junto ao Atlântico, enquanto a floresta amazônica configura uma ilha verde isolada no miolo da América do Sul e distante de quaisquer oceanos.
Uma ilha que está sendo submetida ao mesmo processo de exploração vigente na mata atlântica de Minas, sul da Bahia e Espírito Santo.
Agora de que adianta chorar a lama derramada? O que cabe fazer é tirar do desastre as lições cabíveis.
Como? Com educação ambiental, aprimoramento da legislação ambiental e aplicação da justiça, sem com isso penalizar ainda mais as vítimas da catástrofe.
Ainda que a Natureza tenha um imensurável poder regenerador, não podemos deixar de comparar o enlameamento do rio Doce a outros grandes acidentes ecológicos provocados pela desídia empresarial combinada ao afrouxamento da vigilância técnica.
A ruptura das barragens da Samarco lembra a contaminação química por mercúrio da baía de Minamata no Japão; o envenenamento do rio Bophal na India pela Rhodia; a explosão da plataforma de petróleo da Petrobras e os frequentes acidentes com petroleiras no mar.
São acidentes provocados por grandes empresas que se comportam como se estivessem acima das leis e dos direitos das pessoas.
Tudo isso está fartamente documentado. Basta uma consulta ao Google para ser tomado pela sensação de que as grandes corporações empresariais estão usando seu poder para destruir o planeta.
Há um desmanche em curso. Um desmanche impune. A Vale e a Petrobras são as campeãs nacionais nessa corrida sinistra.
O pior é a derrota moral: nos acomodamos diante desse imperialismo empresarial e, impotentes, perdemos a capacidade da indignação.
A cada acidente ambiental, a população oscila da perplexidade à desolação, mas acaba tomada pela sensação de impotência diante do poder das corporações globais.
A rigor, a Samarco devia ser fechada e seus dirigentes presos sob a acusação de irresponsabilidade, homicídio, mortandade animal, corrupção, negligência, atentado contra o patrimônio natural etc.
Mas não. No fundo, todo mundo acaba numa torcida para que a empresa volte a funcionar, mantendo-se os empregos e salvando-se os tributos das administrações públicas, as receitas cambiais da mineração e os dividendos dos acionistas.
Não é assim que funciona o capitalismo? Então bola pra frente e que se retirem do campo os inconformados.
Ou seja, a cada acidente ambiental fica provado que o crime compensa.
Ao ser obrigada a criar um fundo de R$ 1 bilhão para iniciar a “mitigação” dos danos produzidos, a Samarco ganhou um salvo conduto para continuar sendo a mesma, ou seja, negligente, irresponsável e…lucrativa.
Depois de matar pessoas, animais e um rio, a mineração está autorizada a continuar sendo uma fábrica de danos ambientais e doenças humanas.

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