
Naira Hofmeister e Helen Lopes (texto)
Tânia Meinerz (fotos)*
“Não tem comparação. As crianças dividiam espaço com ratos e baratas”, lembra Dona Teresinha, 67 anos, uma das remanescentes da Vila Planetário. Hoje, mais de 470 pessoas moram na área de 6.210 m² compreendida entre as ruas Santa Terezinha, Luiz Manoel, Dr. Olinto de Oliveira e Jacinto Gomes. Noventa delas já habitavam o local antes da urbanização, em 1992.

Os moradores têm que pagar uma parcela mensal pela casa, que é uma concessão do poder público e não podem vendê-la. O imóvel só muda de dono se alguém morre – nesse caso, passa para o parente mais próximo. Mas filhos começam a ser um problema: ainda que as estatísticas da prefeitura indiquem que 42% da população local esteja com idade entre 21 e 60 anos, basta caminhar nas ruas internas para comprovar que a criançada tomou conta do lugar. “É pelo menos a metade”, calcula Seu Antônio.

A economia é que não mudou nesses 15 anos: a maioria da população sobrevive do lixo. São recicladores, catadores, puxadores de carrinho. O excesso de resíduos da atividade gera problemas: há lixo espalhado pelas ruas, amontoado nas portas das casas, ocupando o espaço que deveria ser um parquinho para as crianças. Essa é a principal reclamação dos habitantes da Planetário: a construção de um galpão de reciclagem, prometido pelo município no projeto original, mas que nunca saiu do papel.

Mulheres lideraram movimento
Como a subsistência de 90% dos moradores vinha da reciclagem de lixo, essa era a matéria prima principal para a construção dos barracos. O esgoto escoava por um valão no meio das casas e fios de luz “gateados” ameaçam a segurança dos moradores. O quadro chamou a atenção da Irmã Udila Pierdoná, da Igreja Santa Teresinha.

Incentivadas por Irmã Udila, as mulheres da Vila Planetário organizaram um centro comunitário. “Lá a gente assava pão para vender e fazia artesanato”, lembra Juçara. Também havia aulas de reforço para as crianças e curso para os jovens.
O galpão de madeira passou a ser ponto de encontro dos moradores. Foi lá que, nos anos 80, decidiram pela construção de um banheiro comunitário. Dessa mobilização surgiu a Associação de Moradores da Vila Planetário, em 1985. “Nós queríamos organizar a vila para ter uma vida decente”, discursa Seu Antônio, que está à frente da entidade. Hoje, a briga é por verbas para o segundo piso da creche.
*Leia íntegra da reportagem no Jornal JÁ Bom Fim/Moinhos de agosto, que circula gratuitamente nos bairros Bom Fim, Moinhos de Vento, Rio Branco, Santa Cecília, Santana, Farroupilha, Cidade Baixa, Independêcia e Floresta.

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