Geraldo Hasse
No Brasil estão acontecendo coisas até há pouco impensáveis. Parecia totalmente improvável a condenação à prisão de executivos de empreiteiras como a Camargo Correa Construções, desde os anos 1950 presente em grandes obras públicas como a construção de Brasilia, a ponte Rio-Niterói, a usina de Itaipu ou o Metrô de São Paulo.
No duro, no duro, faz tempo que a Camargo Corrêa não é uma simples empreiteira e, sim, um grupo econômico de grande porte e altos interesses nas áreas de cimento e energia. Algo como um Grupo Votorantim ligeiramente menor, pois de origem mais recente.
Mas o que dizer da Odebrecht, que domina o setor petroquímico? A construtora é grande, mas o grupo Odebrecht é gigantesco. E temos na “lista do mal” outras empreiteiras de extração mais recente, como a baiana OAS, que se criou à sombra do governador e senador Antonio Carlos Magalhães, o falecido vice-rei do Norte.
Por uma ironia da História, ficou fora do rolo o megaempreiteiro Olacyr de Moraes, recentemente falecido. Fundador da Constran, que chegou a ser uma das dez maiores empreiteiras de obras públicas do Brasil, ele fez sucesso como plantador de soja e chegou a ter um banco de médio porte (Itamarati), mas quebrou sufocado pelas dívidas da construção da Ferronorte, vítima da perseguição de políticos paulistas que não lhe deram licença para chegar ao porto de Santos.
Visionário sem força política no regime democrático, acabou tendo de repassar sua construtora para seus executivos. Se algum dia comprou alguém, não se divulgou; o que ficou patente é que aos setenta e tantos anos gostava de aparecer em restaurantes paulistanos com lindas moças contratadas by leasing.
Também não aparece nas listas o nome do também falecido Cecilio do Rego Almeida, o maior empreiteiro do Paraná e considerado o pivô da demissão — por “corrupção”, segundo os órgãos de segurança da ditadura militar — do governador Haroldo Leon Peres em 1971.
Se levantarmos os nomes dos envolvidos nos escândalos Lava-Jato (propinas para assegurar obras públicas) e Zelotes (propinas para obter o perdão por dívidas com a Secretaria da Receita Federal), estará formada a lista preliminar da fatia mais balofamente corrupta da grande plutocracia brasileira.
Dos maiores frequentadores dos rankings das grandes empresas nacionais não escapa quase ninguém: lá estão Bradesco, Construtora Camargo Corrêa, Gerdau, Itaú, OAS, Odebrecht e a até a gaúcha RBS. Isso tudo sem falar do flamante emergente Eike Batista, que saiu de campo içado pelos guindastes de sua própria megalomania.
Quando se fala dessa turma de alto coturno e colarinho alvo, é praticamente impossível não recordar Antonio Ermírio de Moraes, que morreu há alguns meses.
Ele saiu de cena absolutamente isento da pecha que atinge seus antigos pares do empresariado nacional. Antonio Ermírio era um sujeito meio tímido mas dado a arroubos de exibicionismo, como quando, em palestras ou entrevistas à imprensa, se punha na lousa a debulhar equações matemáticas sobre fatos triviais da vida econômica.
Desde que se formou engenheiro metalúrgico na Colorado University, nos States, ganhou fama de gênio. Depois de trabalhar 12 horas por dia nas suas empresas (aço, cimento, mineração, banco, celulose), dava expediente na Beneficência Portuguesa, da qual foi provedor por vários anos. Chegou a ter veleidades políticas – foi candidato a governador de São Paulo no fim da ditadura militar, mas não conseguiu os votos que esperava e voltou à vida empresarial. Não há menção a seu nome em qualquer falcatrua ou irregularidade.
Impõe-se a pergunta: se tivesse uma empreiteira de obras públicas, o grupo Votorantim estaria enredado em alguma das investigações em curso?
Não se pode responder a uma hipótese, mas precisamente aí parece estar o X da questão: tanto no caso da Lava-Jato como da Zelotes, a imoralidade reside no vínculo das empresas com os agentes da administração pública.
Incluamos o Mensalão em nosso raciocínio e o que vemos? Figuras de proa do mundo político, desde ex-ministros até deputadinhos de legendas de aluguel.
É de supor, portanto, que os conluios entre empreendedores e representantes do poder instituído existem desde os tempos das ferrovias do Barão de Mauá, da construção de quartéis por Roberto Simonsen nos anos 1920, das obras de Brasília nos anos 1950 ou da Paulipetro nos anos 1970 – até que chegamos à construção de plataformas de exploração do petróleo do pré-salve-se quem puder.
O que podemos concluir por enquanto é que finalmente o sistema policial-judiciário brasileiro chegou às fontes da corrupção, como cobrava o senador Pedro Simon na época da CPI da Corrupção, 20 anos atrás. “Cadê os corruptores?!”, bradava o político gaúcho, hoje aposentado.
Mais do que nunca, está ficando claro que o empresariado brasileiro faz muita coisa mas também rouba, no que conta com a ajuda jeitosa de funcionários públicos e a conivência esperta de políticos.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O respeito irrefletido pela autoridade é o maior inimigo da verdade”.
Albert Einstein (1879-1955)
O empresariado faz, mas rouba
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Comentários
Uma resposta para “O empresariado faz, mas rouba”
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Poucos escapam….

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