O gol de letra de Luís Augusto Fischer e a canção de Bob Dylan

Geraldo Hasse
Por uma cósmica coincidência, rolaram apenas duas semanas entre o lançamento do livro “O Alcance da Canção” no dia 28/9 em Porto Alegre e o anúncio em Estocolmo de que o Nobel de Literatura de 2016 vai para o poeta-músico norte-americano Bob Dylan, de 75 anos.
Os dois fatos em duas capitais tão distantes têm algo em comum: reverenciam o poder da canção popular como uma das principais expressões artísticas da vida contemporânea. Estocolmo e Porto Alegre no mesmo diapasão… doce ilusão.
alcance-da-cancao-capaEnquanto Dylan acrescentou quatro milhões de euros à sua fortuna, os organizadores do livro gaúcho precisaram do apoio da FAPERGS para colocar de pé um produto editorial digno de ser lançado num programa-de-auditório radiofônico com canja de N estrelas da canção. Na real, o lançamento foi na Palavraria, cujo espaço não comporta mais do que um banquinho-e-um-violão.
Com 354 páginas, organizado por Luís Augusto Fischer e Guto Leite, O “Alcance da Canção” contém 22 ensaios sobre diversos aspectos do trabalho de vários “cancionistas”, termo empregado para designar os autores de letras musicadas. Com tiragem de 2 mil exemplares, o livro foi publicado pela Arquipélago Editorial.
Ousadia e coragem
Sem dúvida, dar o polpudo galardão para um cantor pop foi uma rara ousadia da ínclita Academia de Ciências da Suécia, que não costuma confraternizar com gente ligada à contracultura e, mesmo assim, premiou um ícone da rebeldia juvenil dos anos 60. Mas, convenhamos, corajoso mesmo foi o Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ao criar, há 25 anos, por iniciativa do professor LA Fischer, a disciplina Canção Popular, que vem ajudando a formar mestres e doutores em literatura brasileira. O que se estuda na UFRGS é Noel Rosa, João Gilberto, Chico, Gil, Caetano, a milonga, a bossa nova, o samba-enredo e temas de origem estrangeira como Atahualpa Yupanqui e Bob Dylan, cujas canções exercem poderosa influência sobre a cultura popular all over the world.
A entronização da canção popular como tema de estudo na UFRGS talvez ajude a explicar porque a capital gaúcha, apesar de distante dos centros do poder administrativo e econômico-financeiro do país, mantém características de vanguarda cultural. Aqui viveram alguns trabalhadores intelectuais que bem poderiam ter ganho o Nobel literário – Erico Verissimo, Mario Quintana, Josué Guimarães, Moacyr Scliar. E estão por aí meia dúzia de escritores com bagagem para viajar eventualmente a Estocolmo: LF Veríssimo, LA Assis Brasil, AG Schlee, Al Cheuiche, JC Pozenato e o próprio LA Fischer.
Sem dúvida, as chances desses obreiros contemporâneos diminuíram agora que os suecos abriram a porteira para a canção popular. Mas nessa nova categoria o Rio Grande do Sul e o Brasil poderiam concorrer com uma baita seleção de cancionistas atuantes em Porto Alegre, Pelotas, Fortaleza, Olinda, Belém, Campo Grande, Salvador, Vitória da Conquista, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras praças musicais.
Antes tarde do que nunca
Na realidade, a pergunta emergente é: por que somente agora os membros da academia sueca se deram conta da importância da canção popular como eixo da comunicação social no mundo moderno?
Ao longo do século XX a poesia popular foi difundida sobretudo pelo disco, o rádio, o cinema e a TV – em muitos casos, com aguda estridência. A partir dos anos 1990, com a internet, a coisa se tornou um dos fenômenos culturais mais intensos da era cibernética, fundindo letras e músicas em discos, filmes, shows de palco e TV.
Muito antes do Nobel, prêmios como o Oscar e o Grammy reconheceram o peso da canção popular no mix cultural da modernidade. Um quarto de século atrás, o curso de Letras da UFRGS avançou ao admitir que tal forma de expressão constitui um dos eixos formativos da cultura brasileira – e isso vem no mínimo desde Noel Rosa (1910-1937), que se viabilizou via disco+rádio, quando o samba-enredo engatinhava nos bairros do Rio, décadas antes da bossa-nova. Para marcar esse gol, Fischer contou com a ajuda de Homero Araujo e Paulo Seben de Azevedo.
Eis aí um bom pretexto para uma saudável manifestação de bairrismo: enquanto os caçadores de nobeis de literatura passavam os anos procurando e descartando talentos condensados em formato de livro, alguém do Terceiro Mundo saltou na frente, plasmando o novo em pleno bairro Bom Fim, o bom e velho Bonfa onde circulou anônimo o próprio Bob Dylan, ciceroneado por Eduardo Bueno, o Peninha, seu tradutor. Um achado & um perdido nas noites fumacentas do portinho.
Depois do curso de Canção Popular, vem agora o livro aprofundar a leitura do fenômeno letra-e-música. Em “O Alcance da Canção”, um dos textos mais instigantes focaliza as versões brasileiras das letras de Bob Dylan. Nas primeiras duas páginas de seu longo ensaio (24 páginas), a mestra em literatura brasileira Demirse Merilva Rufatto traça um retrato profundo do artista que diluiu o folk americano no showbiz mundial — o que já bastaria para justificar sua nobelização. Mas Dylan foi mais do que isso. Ele se colocou e permaneceu no centro da música popular enquanto os Estados Unidos faziam das suas no Vietname, em Cuba e no Brasll, entre outros quintais, no afã insano de conter o avanço do comunismo, que acabou ruindo sozinho, sob o peso da dialética da História.
O jornalista-escritor Lourenço Cazarré, autor de uma carrada de livros, distribuiu aos seus amigos internéticos um desabafo dizendo que a escolha de Bob Dylan como Nobel de Literatura foi um lance de marketing da Academia de Ciências da Suécia, cujo objetivo seria afagar corações e mentes de centenas de milhões de fãs do cancionista americano.
Segundo o escritor-jornalista, que se criou em Pelotas e vive em Brasília, os acadêmicos suecos devem ter pensado assim: “Por que conceder o Nobel a um poeta qualquer, que deve ter 1.300 leitores em seu país e mais 859 espalhados pelo mundo, se podemos concedê-lo a um astro da música pop, tocado no mundo inteiro?” Faz sentido, mas estaria o Nobel precisando de publicidade?
O anúncio do prêmio a Dylan bateu recordes em todas as mídias. “A entrega do Nobel a um poeta qualquer, da Tailândia ou da Rússia, nem seria percebida”, argumenta Cazarré, para concluir: “O prêmio Nobel, cuja atribuição sempre foi política, passou a girar agora — como tudo mais — em função do marketing.”
A hipótese é bastante plausível, do ponto de vista da academia sueca, mas fica a dúvida: os curadores do Nobel correriam o risco de indicar alguém capaz de recusar a honraria? Seria Dylan capaz de chutar o balde? Nem pensar: no mundo capitalista (e até no que resta do comunismo), ninguém em sã consciência desprezaria tantos milhões de euros.
Sendo o marketing uma via de mão dupla e Bob Dylan um cara bastante ligado no vil metal (como bem lembrou um ácido Belchior numa letra de 1976), podemos concluir que rolou aí um bom negócio para ambos os lados, mas não só isso. Nesse aspecto, aliás, vale a pena ler em “O Alcance da Canção” o ensaio da jornalista Katia Suman sobre a influência do jabá (propina) na difusão da música no rádio e na TV.
A nobelização de Dylan está rendendo pano pra muita manga. Se era isso que pretendia com o Nobel de Literatura de 2016 – bajular os fãs de um monstro sagrado da canção popular com objetivos político-mercadológicos–, a Academia de Ciências da Suécia marcou um gol de placa. Com alguma controvérsia, naturalmente.
Por exemplo, logo de cara se acreditou que a escolha foi atribuída aos livros de depoimentos e memórias lançados recentemente pelo artista. Nesse caso, teria sido uma bola fora da academia sueca. Se fosse o caso de premiar o livro de um cantor-compositor, por que os suecos não consideraram a densa “Verdade Tropical” de Caetano Velloso?
Nesse livro de 1997, com 524 páginas editadas pela Companhia das Letras, o vate baiano escreveu sobre Dylan (página 272): “Ele é uma figura a um tempo central e à parte no panorama dos anos 60 – e um traço forte do século. Um dos mais impressionantes exemplos da pujança criativa da cultura popular americana, da cultura popular americano tout court. No momento em que os ingleses dominavam o jogo com sua versão do rock’n’roll do lado de lá do Atlântico, do lado de cá Dylan já apresentava o espessamento desse caldo em que Beatles e Rolling Stones beberam, mostrando onde está a nascente e de onde jorra a energia”.
Diante de uma síntese tão generosa sobre o alcance da obra de Bob Dylan, cabe indagar se o próprio astro pop americano seria capaz de escrever algo equivalente sobre Caetano ou sobre Chico Buarque ou Gilberto Gil, três caras que ficaram aqui ralando na contracultura do subdesenvolvimento latino-americano enquanto o imperialismo ianque sobrevoava o planeta, fazendo espionagem aqui e lançando bombas ali, com apoio de uma parafernália tecnológica.

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