O racismo bem tratado por um escritor branco

Geraldo Hasse
Um bom narrador surgiu na praça. É Mauro Paz, gaúcho de Porto Alegre (1981) e publicitário em São Paulo. Publicado pela Editora Patuá em agosto de 2017, seu livro “Entre Lembrar e Esquecer” tem timing para se tornar filme. Até parece que foi escrito para a tela.
A pegada do autor se revela logo nas cinco primeiras linhas: “Depois de mudar para São Paulo, sempre que o telefone vibrava e na tela surgia o número da casa da minha mãe, eu esperava uma notícia de morte. Numa tarde de setembro a notícia chegou. Ao contrário da ordem natural do tempo, não trouxe o nome de nenhum dos meus pais. Cadu, meu sobrinho de dezessete anos, estava morto.”
Inspirado numa história real ocorrida em abril de 2013 em Porto Alegre, o livro investiga de forma coloquial a morte de um adolescente, de 17 anos, cujo corpo, com sinais de violência, apareceu nos fundos de uma casa vizinha de um condomínio residencial na zona sul onde se dera uma festa guardada por seguranças.
Detalhes 1: o jovem morto era um negro da classe média; 2: a festa fora na casa de um deputado num condomínio; 3: a polícia não fez perícia no local do acidente/crime; 4: a imprensa ignorou o caso e só se mexeu meses depois, após uma manifestação pública de protesto.
A história é narrada por um jornalista que se sente na obrigação de investigar o caso, já que a vítima é seu sobrinho. A intervalos mais ou menos regulares, o narrador oferece sacadas tri-pertinentes sobre o racismo embutido no comportamento da sociedade branca. O título do livro vem de um raciocínio segundo o qual “a sanidade vem do equilíbrio entre lembrar e esquecer.”

Mauro Paz lançara o livro em Porto Alegre em outubro / Divulgação

Formado em Letras, Mauro Paz é contista, com dois livros publicados, e tem participação em diversas antologias de contos, gênero literário que exercitou em oficinas dirigidas pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil. Além do aprendizado em cursos, parece que herdou algo da vivência reportarial do pai, o jornalista Walmaro Paz. Pela forma como escreve, é leitor de novelas policiais.
Seu livro, definido como romance, é mais uma novela que se desenrola sem digressões, agarrado ao estilo vapt-vupt dos roteiristas de takes cinematográficos. Não certamente por acaso, os assuntos são separados por números; a maior parte dos takes ocupa menos de uma página. Tática que poderia ajudar a manter o leitor preso à narrativa, não fosse ela extremamente fluída, com toques precisos sobre a geografia humana de Porto Alegre.
Registrada na última página, a tiragem inicial de agosto foi de apenas 100 exemplares, número já superado em setembro, em atenção à demanda direta junto à Editora Patuá, de São Paulo, que vende exclusivamente pelo seu site (http://editorapatua.com.br/).
Até o final de outubro o livro também estará disponível em algumas livrarias independentes – como a Bamboletras, de Porto Alegre. Está sendo vendido a R$ 40 o exemplar.

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