Matheus Chaparini
Dez anos atrás eu era um piá sozinho perdido em Buenos Aires.
Amontoado entre dezenas de milhares de castelhanos, ouvia os gritos enlouquecidos: “Oooooo vamo los stoooones!” como se fosse um Boca e River na porra do Monumental de Nuñez lotado.
Era minha primeira viagem sozinho, eu era menor de idade e os corôas tiveram até que assinar papelada pra eu poder partir.
E agora os velhos me inventam de aparecer aqui na província. E mais: no glorioso Gigante da beira do rio. Mas dez anos se passaram, os tempos são outros. Os custos também. E como a vida não anda nada fácil para quem vive de imprensa – digo apenas de imprensa, não de imprensa, construção civil e shows dos Stones – não deu para ir.
Pelo menos não dentro do estádio. Mas o lado de fora é sempre democrático.
Partimos, eu mais um colega do JÁ, garrafita de pinga, meia dúzia de pilas pra ceva, sem muita eira a caminho do Beira. Trocadilhos infames à parte, pra nós, foi um grande espetáculo. E o maior que podíamos pagar. O palco ficou posicionado na goleira sul, portão 7. O portão oposto era o 3, e de lá se podia ver um pedacinho do palco e quase todo o telão. E dava para ouvir muito roquenrou.
Apesar da moça do tempo da tevê ter passado a semana inteira brigando com a previsão, tentando segurar a chuva na hora do show, uma água pesada desabou sobre Porto Alegre durante quase toda a noite. Não sei como reagiu o pessoal que pagou um mês de aluguel pra assistir lá de dentro, mas o povo da rua ignorou o aguaceiro.
Depois de meia hora de show, teve um grupo mais exaltado que não aguentou ficar do lado de fora. Alguns bretes foram derrubados, houve correria de seguranças. Umas 50 pessoas conseguiram entrar, metade foi puxada de volta para fora. Os demais atingiram a glória.
Como represália, os seguranças do estádio colocaram uma enorme lona preta sobre o portão. Ninguém via mais nada. Não sei ao certo se foi a chuva ou o bom senso que derrubou as cortinas e desnudou novamente nossa janela de ver os Stones.
Sobre o desempenho da banda não há muito o que dizer. Os velhos estão em perfeita forma. Keith Richards é o guitarrista mais foda do rock. O Ronnie Wood é outro monstrengo. Nunca fui o maior fã do Charlie Watt, mas tenho que reconhecer a precisão do cara, uma banda como os Stones precisam de um metrônomo sério na bateria. E o Mick Jagger é sempre o Mick Jagger, canta, dança, se sacode, sai andando pela chuva, comanda o espetáculo. Do auge dos setenta e poucos, o faz como se ainda tivesse vinte.
Pelos arredores do Gigante, encontrei os caras da banda Cartas na Rua, que foram fazer um aquecimento pro show e tentar entrar de gaiato no navio. Encontrei também uma penca de conhecidos sem ingresso e um camarada da antiga, dos tempos de banda, que conseguiu a maior façanha registrada pela nossa equipe: entrou no show por cem pila. E de forma quase completamente lícita. Até o fechamento desta matéria ninguém fez melhor – não sem correr o risco de tomar umas cassetadas.
A Cachorro Grande foi a banda escolhida para o show de abertura. Baita escolha. Muito mais adequada que a escolha dos Titãs, em São Paulo, e do Ultraje a Rigor, no Rio – onde o vocalista Roger conseguiu brigar com a plateia que havia feito a obvia constatação de que ele é um coxinha.
Pra não dizer que eu só falei de flores, na hora da saída, o camarada que me acompanhava foi alvo da profissão mais antiga do mundo: o descuidista. Na parada de ônibus, uma distração, um esbarrão, um bote certeiro no bolso e um celular perdido.
Na manhã seguinte acordei naquela ressaca stoniana e os jornais anunciavam que tinha sido o show mais empolgante que os Rolling Stones já fizeram no Brasil. Foi meu segundo. E ninguém pode dizer que eu não fui.
O show dos Stones visto do Portão 3 do Beira Rio
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