
Geraldo Hasse, especial para o JÁ
Numa cerimônia singela, presenciada por uma centena de pessoas, na manhã de sábado (17/3), o prefeito Romildo Bolzan Junior reentroduziu no centro de Osório a profissão de engraxate. O projeto tocado pelo Serviço de Assistência Social da prefeitura gastou R$ 6 mil para gerar quatro empregos.
Depois de um breve discurso em que lembrou o nome de alguns companheiros de escola e de futebol que iniciaram a vida profissional dando brilho aos sapatos dos mais abonados da cidade, Bolzan, recém-entrado no 48º ano de vida, sentou-se num dos dois cadeirões instalados pela prefeitura junto ao último ponto onde esse serviço funcionou até cinco anos atrás.
Quem lhe passou a graxa, por R$ 3 (preço de tabela), foi ninguém menos do que o último engraxate osoriense, Guilherme Antunes dos Santos, o popular “Queijinho”, que pôde inaugurar assim a sua nova caixa de engraxate — agora, com a inscrição “Engraxate “Emérito” – oferecida pela prefeitura.
Exultante no uniforme doado pelo governo municipal, Queijinho estava sem trabalhar desde que sofreu um acidente vascular, no início do século XX. “Quero que agora todos meus fregueses voltem pra mim”, disse ele, cercado por familiares emocionados.
O mais feliz era o seu irmão mais velho, João Antunes dos Santos, 64 anos, pedreiro profissional, que fez parte da comunidade de jovens engraxates que passavam os dias prestando serviços na antiga rodoviária, a alguns metros da Boca do Brilho, reaberta nos fundos da catedral, ao lado do mais antigo ponto de táxi de Osório. “Nós éramos uns 15 moleques, a gente engraxava, vendia jornal e carregava mala no centro”, conta João, lembrando de um tempo, 50 anos atrás, em que só havia quatro táxis em Osório (hoje são 58).

Em sua fala, o prefeito explicou que os 6 mil reais do projeto Boca do Brilho foram gastos na construção dos dois cadeirões, ambos equipados com tablado e telhado, tudo em madeira de lei (itauba) “capaz de agüentar 50 anos na intempérie”. Dentro da mesma verba deu para incluir também as quatro caixas de engraxate e todos os insumos e instrumentos necessários aos exercício da atividade, praticamente esquecida desde que a juventude aderiu ao tênis e a maior parte do povo passou a andar de chinelas de plástico. “São empregos modestos, mas valiosos para o povo da periferia”, disse Bolzan, que costuma ser cumprimentado por ter “ganho” o Parque Eólico de Osório, investimento de R$ 670 milhões que gerou 40 postos fixos de trabalho qualificado.
Vanda Diemeczuk, coordenadora de Assistência Social de Osório, calcula que cada um dos quatro engraxates remobilizados pela prefeitura vai faturar entre 15 e 20 reais por dia. Uma de suas idéias para movimentar a Boca do Brilho é mobilizar as mulheres para que levem à praça suas botas de couro. A Boca do Brilho vai funcionar todos os dias. No começo será operada por engraxates veteranos credenciados pela prefeitura, mas no futuro poderá dar prioridade para jovens carentes, a critério do Poder Judiciário. O projeto faz parte da comemoração dos 150 anos de Osório, que se tornou município em dezembro de 1857.

Deixe um comentário