Renan Antunes de Oliveira
Não está mais atrás das grades o padre franciscano Paulo Back, 72, condenado pela Justiça a 26 anos de cadeia por abuso de coroinhas e seminaristas sob sua guarda no Rio Grande do Sul, SC, PR, SP, RJ e ES ao longo de 44 anos de sacerdócio.
Depois de um ano e meio detido no presídio de Criciúma, ele foi libertado para recorrer da condenação ao STJ.
Na prática, ele ganhou uma baita mordomia: prisão domiciliar no Palácio Episcopal, a residência oficial do bispo da cidade, num condomínio luxuoso e arborizado.
Melhor, impossível – lá, ele tem a chave do portão.
Sai às ruas quando quer, como para suas sessões de acupuntura e passeios pelas redondezas.
Pode receber visitas a qualquer hora, todos os dias.
Tem suíte privativa equipada com combo TV-fone-internet.
As refeições são feitas na cafeteria do condomínio, preparadas pelas mesmas cozinheiras do bispo e servidas por copeiras – o serviço de copa vai das 6 às 22.
O ambiente é levíssimo: à mesa, ele tem a companhia de seminaristas, religiosos em trânsito na cidade e padres aposentados.
Nas horas vagas se dedica a cuidar do meio ambiente do condo: cultiva flores e verduras nos jardins do episcopado.

SE DISSE VÍTIMA POLÍTICA
O padre recebeu o repórter na manhã de um sábado de janeiro, na sala de visitas do condomínio.
É um salão acolhedor, com um conjunto de sofás, TV a cabo e ornada com um retrato de um padre da congregação, a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.
Ao primeiro contato, ele se mostrou um homem afável.
Alto e magro, o padre sentou numa cadeira ao lado esquerdo da minha poltrona, apoiou sua mão direita no meu braço e com suavidade perguntou o que poderia fazer por mim.
Talvez pelo hábito de receber confissões, ele desviou os olhos azuis e sua voz se tornou só um sussurro, encorajador: “Fale, meu filho”.
Me identifiquei como repórter. Ele nem piscou. Perguntei, com a delicadeza possível : “Padre, o senhor é um homem condenado por pedofilia e eu queria saber…”
Ele faz uma leve pressão no meu braço para me interromper, joga a cabeça para trás, continua me segurando, eleva a voz um pouco: “Já expliquei mil vezes…”
Deixei ele falar: “Foi uma armação política contra mim, porque meu sobrinho era candidato do PSDB à vaga de vice de Forquilhinhas” – cidade vizinha de Criciúma, onde ele nasceu e estava como pároco da igreja Sagrado Coração de Jesus até ser detido, em julho de 2012.
O repórter esperava ouvir dele uma confissão, mas ele estava no modo de combate: “Se você for ler o processo verá que a principal acusação contra mim partiu de um menino perturbado. Era um gordinho que tinha umas tetinhas e por isto sofria bullying dos coleguinhas, tenho muita pena dele”.
Argumentei que a primeira acusação surgiu apenas em 2011, porém logo se tornou uma enxurrada de 40 casos recolhidos pelo Ministério Público Estadual (MPE).
O padre então me mandou ler o processo, mas sabe que isto é impossível porque ele corre em segredo de justiça, por envolver menores.
Segundo o MPE, depois que os pais do menino gordinho fizeram a primeira denúncia e a prisão dele foi divulgada, 11 adultos procuraram a polícia com acusações semelhantes.
Em dezembro de 2012, Back foi condenado a 20 anos de cadeia pela Comarca de Forquilhinhas, por “atos libidinosos diversos da conjunção carnal” – por vários relatos de advogados que viram o processo ele gostava de exibir-se pelado e apalpar a genitália dos meninos.
A repercussão na imprensa catarinense foi mínima. Em maio de 2014, o MPE recorreu da decisão ao Tribunal de Justiça e conseguiu aumentar a pena para 26 anos – no final do ano passado a defesa dele levou o caso ao STJ, obtendo o direito de esperar pela sentença na confortável casa do bispo.
O nome dele sumiu do noticiário – e no sistema penal seu destino era um segredo bem guardado.
TERRA DE SANTOS
Até a revelação do escândalo o padre Back era reverenciado em Forquilhinhas, por sua origem. Seus pais e os de uma dupla de santos, seus conterrâneos dom Evaristo e dona Zilda Arns, fundaram a cidade.
Foi o próprio dom Evaristo, hoje com 92, quem ordenou Back sacerdote, em 1968.
No processo, não foi possível precisar o número de pessoas que teriam sido vítimas dele em sua carreira religiosa, iniciada aos 10 anos, em 1954, num seminário do Paraná.
Os promotores contataram cerca de 40, mas estimam que este número pode chegar a 100 porque Back atuou em dezenas de paróquias e seminários de seis estados por mais de quatro décadas.
Nenhum dos hoje adultos quis testemunhar.
ESTUDIOSO
Na salinha de espera a conversa com o padre se torna um papo de barbearia – a esta altura ele já tinha soltado meu braço.
Back conta que era sua tarefa ensinar temas da sexualidade aos adolescentes sob sua guarda porque “os pais não ensinam aos filhos, é um tema tabu”.
Ele disse que “os meninos (nos seminários) dizem uns aos outros que ‘quem não se masturba é viadinho’, o que afeta alguns” – cabia a ele dar a orientação correta sobre o tema.
Back mergulhou na internet para estudar os casos de abusos de padres católicos ocorridos em Boston (EUA), de grande repercussão internacional e tema de um filme concorrente ao Oscar.
Sem que ninguém lhe pergunte, ele compara os casos e tira o corpo fora: “Nunca houve nada parecido aqui no Brasil, não é um tema presente nas nossas igrejas católicas”.
O bispo da cidade não quis dar entrevista – talvez porque no ano passado o Papa Francisco pediu aos católicos para não mais acobertar casos de pedofilia, autorizando inclusive abertura de processos contra os bispos que o fizerem.
NO SALÃO DE BELEZA
Em Forquilhinhas, a mãe de um dos meninos que constam da denúncia inicial pediu para falar sem ser identificada, porque revelaria a identidade do filho – o que aliás, não é um mistério, porque toda cidade sabe quem ele é.
“O que mais me choca é que o pessoal falava mal deste padre, durante anos a gente ouvia coisas. Mas eu achava que era fofoca, até que ele deu em cima do meu filho”, disse a mãe, ainda enfurecida.
Ela contou que “na mesma hora em que eu soube peguei meu menino pela mão e corri para a delegacia”. Deu no que deu.
Na defesa, o padre manteve a tese de perseguição política por causa da candidatura do tal sobrinho: “Eu tinha muita influência na cidade, queriam me tirar da disputa”, sustenta. Com o escândalo, o sobrinho abandonou a a candidatura e a política, de uma vez por todas.
PERSEGUIDO
Fim do papo.
O padre leva o repórter para visitar suas hortas e posa para algumas fotos.
Pede que eu não publique sua história porque “isto pode me complicar”.
Insiste em sua inocência: “É uma provação. Me sinto um homem feliz por ter tido uma vida religiosa plena, ajudei milhares de pessoas. Se hoje sou perseguido, nada mais é do que mesma coisa que aconteceu com São Pedro, São Paulo e o próprio Jesus”.
Ele leva o repórter até a saída do condomínio. No portão, notei que estava com as mãos trêmulas. Queixou-se de uma vaga doença neurológica e teve pequena dificuldade para localizar a chave num molho enorme, até conseguir.
Última resposta, já com o pé na calçada: ele não soube dizer quando seu caso será julgado pelo STF.
Aí, curvou a cabeça e se despediu com humildade: “Vá com Deus”.
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Padre condenado por pedofilia aguarda recurso em liberdade
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