Paulo “Multimídia” José

Em ação no longa-metragem Saneamento Básico, o filme, de Jorge Furtado (Foto: Divulgação/JÁ)

Naira Hofmeister

O gaúcho Paulo José, 68 anos, pode ser considerado um ator popular, completo. Começou a fazer teatro aos dez anos e sua carreira profissional nos palcos teve início na militância no Teatro de Equipe, em Porto Alegre, onde realizava espetáculos políticos.

No Rio de Janeiro, foi fundador do Teatro de Arena, ao lado de Augusto Boal. Nos mais de 40 filmes em que participou, encarnou tipos brasileiros no cinema, como o anti-herói Macunaíma e o Joça Ramírez, na produção Anahy de Las Missiones.

No horário nobre da telinha, emocionou as famílias sentadas na poltrona da sala em mais de 30 novelas. A mais recente participação em uma produção da TV foi na minissérie JK, no início de 2006, na Globo.

Seu protagonismo cultural não se restringe apenas a belas atuações. Paulo José também é produtor e diretor de teatro e, agora, estréia como realizador audiovisual. Apesar de já ter dirigido as minisséries O Tempo e o Vento, Agosto e Incidente em Anteres, todas na TV Globo, esta é a primeira vez que lança um longa-metragem, Grupo Galpão, que teve pré-estréia em Porto Alegre na segunda-feira (7) à noite, em sessão comentada no Santander Cultural.

O filme segue em cartaz durante a mostra Do Palco à Tela do Cine Santander, composta de filmes sobre o teatro, até 13 de agosto. O documentário que Paulo José apresenta parece ser uma síntese de sua vida cultural.

No filme, o gaúcho assina a produção e sua esposa, Kika Lopes, dirige a obra. Do outro lado das câmeras, o Paulo José que aparece é o diretor de espetáculos da trupe mineira, que prepara a montagem de Um homem é um homem, de Bertold Brecht.

Além do trabalho com o grupo de Belo Horizonte, Paulo José acaba de estrear no teatro da UERJ, no Rio de Janeiro, a peça Antônio e Cleópatra, de Shakespeare; terminou as gravações do novo longa-metragem de Jorge Furtado, Saneamento Básico, o filme, e se prepara para dar início a outro projeto de cinema, A Ceia dos Cardeais, ao lado dos colegas e amigos Domingos de Oliveira e Aderbal Freire Filho.

A movimentação no espaço de produção cultural contrasta com sua condição fragilizada, exposta depois da descoberta do mal de Parkinson que o obriga a uma disciplina impressionante. Recém chegado de Bento Gonçalves, onde por mais de um mês enfrentou uma rotina de trabalho de 12 horas diárias, nas filmagens de Saneamento Básico, o filme, Paulo José veio a Porto Alegre com uma agenda repleta de compromissos para o lançamento do longa-metragem da esposa.

A voz se foi com o clima inconstante na Serra. E os remédios pioram os efeitos da bronquite ainda mais. Mesmo assim, Paulo José se mostra disposto: com uma rolha entre os dentes, exercita as cordas vocais por 15 minutos antes de começar a entrevista. Recuperada a voz, ele pergunta, sorrindo: “O que é mesmo que você quer saber?”.

Mesmo admitindo que a televisão é a área que menos o atrai artisticamente, Paulo José critica a opinião daqueles que a consideram uma arte menor: “ninguém gosta de televisão, só todo mundo”, brinca, deixando claro que a massa é que determina a importância de uma mídia, não os especialistas. “A televisão tem uma possibilidade de multiplicação da expressão do ator e por isso é mais bem paga, mas ninguém é obrigado a fazer”.

Se na sua opinião o palco representa a face transgressiva da arte, é na TV que o público encontra a diversão. “O teatro levanta muito mais questões do que respostas e a televisão é o momento relaxante”. Ainda assim, é ela que rege a identidade cultural do país, e, portanto, é lógico que seja a condutora das práticas na área. “De que maneira a massa iria ao cinema, se não estivessem lá os atores conhecidos, as histórias a que estão acostumados?”.

A entrada da Globofilmes no mercado cinematográfico nacional representou um incremento da produção, mas gerou também críticas quanto à homogeinização das temáticas. Para Paulo José, no entanto, não foi apenas a quantidade de filmes que aumentou, mas também a qualidade das obras, ou seja, ganhou a indústria nacional. “Não é verdade que a televisão ou esse cinema de massa tenham tirado o público do cinema autoral, porque esse tipo de produção nunca teve público de fato”.

Nas artes cênicas, a regra na opinião de Paulo José é ir para o centro do país: “É muito mais interessante estar no Rio de Janeiro ou em São Paulo, onde se irradia teatro, do que em Porto Alegre”. Mesmo assim, salienta que o apoio à regionalização da cultura – principalmente o estatal – tem proporcionado o desenvolvimento do trabalho de grupos como o Galpão (BH), o Armazém, de Curitiba e o Oi Nóis Aqui Traveiz, em Porto Alegre, que receberam patrocínio da Petrobras. “Não é uma peça, mas o grupo que recebe a verba. Isso dá mais estabilidade para fazer teatro”.

Adquira nossas publicações

texto asjjsa akskalsa

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *