Matheus Chaparini
A Agapan – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, uma das mais importantes e antigas entidades de defesa do ambiente no Brasil e na América Latina, em atividade desde 1971, está à procura de nova sede. Terá que sair em novembro da sala que ocupa desde 2012 na avenida Osvaldo Aranha, no Bom Fim.
O aluguel do imóvel era pago por um sócio-benemérito, que, por questões de saúde, não pode mais se comprometer com a despesa. Sem condições de arcar com a conta de R$ 1.400 mensais, a entidade vem promovendo atividades de arrecadação de fundos para ganhar tempo. No último sábado, 17, aconteceu a primeira edição do “Almoço do Bem”, que juntou alimentação vegana, debate e canja musical. Mas a mudança é inevitável porque a proprietária do imóvel quer colocá-lo à venda.
Para tentar resolver o problema, a Prefeitura apresentou duas alternativas à entidade. A primeira, foi a Casa da Estrela, um casarão abandonado localizado no bairro Petrópolis, junto à escadaria onde a rua Guararapes encontra a Camerino. A casa teria capacidade para abrigar tranquilamente todas atividades da associação. A mudança seria vantajosa também para a comunidade do bairro, que se queixa da insegurança que traz a casa. Há seis anos, o segurança da rua, Leonel Machado, é quem cuida do imóvel. Ele garante que passa todas as noites ali e que as invasões pararam. Mas, conta que antes a casa servia de abrigo para moradores de rua e esconderijo para assaltantes e usuários de droga. “Uma vez até tentaram colocar fogo em um casal que dormia no porão. Por sorte, naquela noite eles não estavam”, revela Leonel.
O problema é que o casarão de Petrópolis está em péssimas condições. O custo estimado da reforma é de R$ 2 milhões. O imóvel pertence à prefeitura de Porto Alegre e é tombado. O município deve reformá-lo, mas não há verba prevista. Outra questão é que a obra levaria bastante tempo e a associação precisa de uma solução rápida.

A outra possível saída é uma sala sob o viaduto José Eduardo Utzig, na esquina das avenidas Dom Pedro II e Benjamin Constant. É uma peça com banheiro que atualmente serve como vestiário dos funcionários da Guarda Municipal. O espaço precisa de pequenos reparos e deve ser entregue pela Prefeitura à Agapan nas próximas semanas. É um paliativo. Provavelmente, as reuniões não possam ser realizadas ali, mas o local pode abrigar o acervo, que além de livros, inclui toda a documentação da entidade e materiais de divulgação. Para o arquiteto e biólogo Francisco Milanez, ex-presidente da associação, não resolve o problema de dispor o material, mas pelo menos fica guardado. “Nosso maior sonho era ter uma biblioteca.”
Imobiliária bancava os custos
O imóvel da Osvaldo Aranha é uma ampla sala com uma peça para reuniões e outras duas onde está o acervo encaixotado e empilhado. “Nós vamos ter que fazer uma triagem nesse material. Tem coisa que pegou cupim, então estamos vendo formas de descupinizar com métodos naturais. A gente não pode tocar um venenão que a gente combate, né?”, afirma o atual vice-presidente, advogado Roberto Rebés Abreu.
Até setembro deste ano quem arcava com as despesas da sala era a imobiliária Guarida, do que decorre uma situação um tanto inusitada. Que interesse teria uma empresa do ramo imobiliário em gastar dinheiro com uma entidade ambiental? Acontece que a determinação vinha de um dos sócios da empresa, Ederon Amaro Soares da Silva. “Não o conheço pessoalmente, mas parece que o Ederon tem um perfil um pouco diferente do perfil empresarial. Era decisão dele destinar essa verba e eu nunca vi ele usar isso pra se promover”, conta Abreu.


Em função de problemas de saúde, ele teve de se afastar das atividades da imobiliária. Em setembro deste ano, a Agapan foi comunicada de que o aluguel não seria mais pago pela Guarida. Além disso, a proprietária pretende vender o imóvel e quer a liberação.
Em outubro o aluguel já pesou sobre a associação. Abreu afirma que a entidade tem condições financeiras de garantir o teto até o final de novembro.
Antiga sede foi destruída ilegalmente
A associação já teve sede própria. Mas a destruição da casa da Agapan, em plena Semana do Meio Ambiente, foi uma história tão esquisita quanto mal contada, que curiosamente rendeu pouca notícia na época.
Era uma segunda-feira, 6 de junho de 2011, o dia seguinte ao Dia Mundial do Meio Ambiente, quando os associados da Agapan receberam a notícia: a casa havia sido demolida. A pequena casa de madeira com telhado vivo situada na esquina das avenidas Aureliano de Figueiredo Pinto e Praia de Belas abrigava as reuniões e possibilitava alguns experimentos como tijolos ecológicos, feitos com argila. O terreno pertence ao Município e havia sido cedida pela Prefeitura pelo prazo de vinte anos.

Corta pra outra cena. Um casal decide abrir uma pizzaria, escolhe o endereço e vai atrás da papelada necessária para tirar o alvará junto à Secretaria Municipal da Indústria e Comércio (SMIC). Só que o endereço escolhido não é deles.
Os então futuros proprietários da pizzaria usaram o endereço da Agapan na Receita Federal, Junta Comercial, CEEE e DMAE, constituindo a documentação necessária para a obtenção do alvará provisório. E a SMIC liberou o funcionamento, pois a demolição só poderia ter sido autorizada pela Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV).
A delegada da Policia Civil que cuidou do caso, a titular da Delegacia de Meio Ambiente, Elisangela Melo Reghelin, apurou que o banco de dados da Prefeitura não era atualizado em relação aos imóveis públicos. Assim, nada constava sobre o terreno adquirido pelo Município em 1979.
A SMIC concedeu o alvará provisório à empresa Peruzatto e Kindermann. Com o absurdo documento em mãos, a empresa contratou a Demolidora Gilberto Bexiga e pôs a casa abaixo.
A delegada constatou que os funcionários da SMIC não tiveram culpa e apenas seguiram os trâmites normais. O casal responsável pela empresa foi indiciado por falsidade ideológica, tentativa de estelionato, esbulho possessório em concurso de pessoas e dano qualificado pelo prejuízo da vítima. O arquiteto responsável pela demolição foi indiciado como coautor pelo crime de dano qualificado e como partícipe do esbulho.
O vice-presidente, Roberto Rebés Abreu, conta que na época a Agapan decidiu não ingressar na Justiça em relação ao caso. “O casal que derrubou a casa tinha uma longa ficha policial. A informação que tínhamos é de que eram quadrilheiros. O conselho decidiu não levar adiante a ação cível, até pelo risco de represálias.”
Francisco Milanez era o presidente na época. Ele conta que a demolição foi feita à noite. “Os caras foram super bem articulados, já vieram com caminhão. Quando nós chegamos lá, eles haviam derrubado a casa e levado algumas partes. Lembro que nós estávamos prestes a transferir nosso acervo pra lá. Foi nossa sorte, poderíamos ter perdido muito mais.”
Desde sua fundação a Agapan passou por diversas sedes alugadas ou emprestadas. A sede própria veio com a construção desta casa. “Qualquer entidade que preste um serviço como o que a Agapan vem prestando tem que ter algum apoio. E eu não falo nem em dinheiro, mas em um local, para a segurança do nosso material. Nós temos a maior documentação histórica sobre meio ambiente no Brasil”, conclui Milanez.
O desafio é a renovação
Atualmente a Agapan conta com mais de mil associados, porém, o cadastro está desatualizado. Segundo Abreu, a entidade tem aproximadamente 50 membros atuantes e apenas 40 estão em dia, o que piora a situação financeira da entidade, que funciona na base do trabalho voluntário. A associação é uma das mais importantes e antigas entidades de defesa do ambiente no Brasil e na América Latina. O principal desafio hoje á a renovação do pessoal.
“Nós temos uma dificuldade de renovação, a maior parte do pessoal está há bastante tempo na instituição. A gente precisa trazer gente jovem pros quadros da Agapan, tentar agregar pessoas novas que possam tocar esse barco quando a gente não puder mais fazer”, afirma o atual vice-presidente. Ele, que se associou formalmente há um ano e meio, e o atual presidente, Leonardo Melgarejo, podem ser considerados da nova geração da Agapan. “Os novatos já estão com mais de 50”, brinca.
Milanez, membro da associação desde o primeiro ano, demonstra um otimismo em relação às redes sociais e à internet. “De 2 ou 3 anos pra cá que nós começamos a usar melhor as redes sociais, o que está nos dando uma nova faceta, de agilidade, para se mobilizar e para circular informação. Estamos conseguindo mostrar melhor o nosso trabalho, isso ajuda a atrair gente nova.”
Pra onde vai a Agapan?
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Comentários
Uma resposta para “Pra onde vai a Agapan?”
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Parabéns pela reportagem! A Agapan precisa do apoio da comunidade para continuar defendendo o ambiente natural, cada vez mais agredido e sensível.

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