Prédios podem ser vistos como “livros de pedra”

Guilherme Kolling

Um dos debates contemporâneos que está na pauta de grandes cidades em desenvolvimento em todo mundo é o tema da preservação do patrimônio histórico: o que deve ser preservado e o que pode ser demolido em nome do progresso?

Provocados pela reportagem do JÁ, os historiadores Roger Chartier e Sandra Pesavento falaram sobre o tema na coletiva de imprensa que antecedeu a conferência dos dois professores no ciclo Fronteiras do Pensamento, na terça-feira, 22 de maio.

A pesquisadora da UFRGS, Sandra Pesavento, declarou-se a favor da preservação da paisagem urbana e da recuperação de prédios antigos, mas fez uma ressalva. “Isso não significa negar um processo de transformação, que é necessário. É preciso destruir para poder construir”, admitiu.

Para a acadêmica, a questão que se impõe é a necessidade de preservar não apenas o grandioso, o prédio-sede do governo, ou o local onde morou alguém importante. “A cidade não é feita só do espetacular. Tem outros elementos do patrimônio edificado que merecem atenção, mas são destruídos em nome do progresso, causando grandes prejuízos à história”.

Sandra lembrou o caso brasileiro, que registra uma série de perdas, como prédios de arquitetura eclética do século XIX, ou habitações particulares em Art-Noveau, que foram demolidos, assim como casas particulares de estilo colonial, tudo por uma questão de padrão estético ou falta de atenção do poder público.

Até bens tombados pelo IPHAN foram derrubados, caso de alguns cortiços, destacados por representar um tipo exemplar de construção popular de determinado período. “O pior é que não há muitas fotos registrando-os, porque a preferência, é claro, está em fotografar o belo”.

Roger Chartier citou o caso francês, que tem um sólido inventário de “lugares da memória”, o que não impediu a destruição irremediável de prédios importantes de Paris que deram lugar, por exemplo, a estações do metrô. “Há que se criar políticas públicas capazes de preservar as construções com sentido de referência para a população. E a sociedade deve ajudar a aclarar as decisões políticas nesse sentido”, propôs.

Na mesma linha, Sandra Pesavento destacou que falta, no caso brasileiro, educação patrimonial que ensine a olhar a cidade como um campo de memória. “Só assim se pode olhar para um prédio e ver um livro de pedra. Quando isso acontecer teremos meio caminho andado”, acredita.

A professora da UFRGS também aposta na interferência de entidades da sociedade civil nas decisões governamentais nessa área, já que “as empresas imobiliárias são mais fortes do que o cidadão comum”.

“Se deixarmos a decisão apenas nas mãos do poder público, a corrente que defende a tradição vai sair perdendo, pelo poder das construtoras. O Estado é muito pressionado pela turma pró-destruição”, disse, salientando mais uma vez a importância de mobilizações populares em defesa da preservação.

Tema também esteve presente na conferência

O tema da manutenção de lugares da memória e edificações importantes também esteve presente na série de perguntas que o público fez aos professores Roger Chartier e Sandra Pesavento, após as conferências no Fronteiras do Pensamento.

Uma das questões levantadas ao longo dos 23 minutos de interatividade com o público foi a razão pela qual aumentou tanto o interesse pela preservação do patrimônio histórico.

Segundo Chartier, há uma verdadeira obsessão pela história nos últimos anos e uma das reações é a vontade crescente de conservar tudo o que possua rastros da história, para que possam ser registrados e conservados ou restaurados, no caso de edifícios. “Se uma construção relevante é destruída, já não é mais possível reconstituir esse arquivo de memória”, observou.

Sandra Pesavento relacionou o fenômeno à “ameaça da perda”, quando uma praça, cinema, clube ou outro equipamento urbano são destruídos em função do desenvolvimento – para a construção de uma grande avenida, por exemplo – o que causa um despertar em determinadas comunidades.

“É uma luta pela preservação das origens, da memória, de marcos identitários que reforçam o reconhecimento daquele grupo. Assim, um lugar que estava abandonado ou esquecido e, de repente, vai ser destruído, causa uma grande comoção e logo surgem várias histórias relacionadas: “ah, meus pais começaram a namorar ali”, ou “meu avô me levava para passear lá todos os dias, etc”.

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