No último sábado, como faz todas as semanas, a professora Sandra saiu de sua casa para ir à feira ecológica do Bom Fim. “A feira é como se fosse a minha horta.” Em torno das 10h, vestindo uma roupa comum, calçou um par de chinelos e foi a pé até a Redenção. Mas o passeio, que costuma ser tranquilo e despreocupado, dessa vez foi diferente.
Sandra de Deus conta que foi vítima de um furto na feira. Quando a professora de jornalismo e pró-reitora de extensão da UFRGS foi relatar o ocorrido a um dos seguranças, veio a pior parte da história. O homem questionou a veracidade do relato de Sandra e insinuou que ela não fosse uma vítima em potencial: “Com tanta gente aqui na feira porque eles iriam assaltar a senhora?”
Para Sandra, ficou muito clara a diferença entre ela e outros clientes da feira: “Uma mulher negra, vestida como eu estava, na visão dele, poderia ser a assaltante, mas não a assaltada.”
“Meu incômodo maior foi o comportamento do segurança”

A professora recorda o momento em que o furto aconteceu. Enquanto escolhia um pé de manjericão em uma das bancas da FAE (Feira dos Agricultores Ecologistas), uma mulher e um homem começaram a empurrá-la contra a banca. Sandra virou para reclamar com a mulher e foi provavelmente neste momento que o homem colocou a mão em sua sacola e pegou sua carteira. Quando se deu conta do furto, o casal já havia desaparecido, levando pouco mais de cem reais, um cartão de banco e outro de passagens de ônibus.
“Eu coloquei isso na conta do descuido. É horrível tu pensar que em um lugar onde tu circula livre, leve e solta tu precisa ter atenção com a segurança, mas é a realidade.”
Sandra procurou o segurança para relatar o roubo. A primeira reação do homem foi dizer que ela estava calma demais para quem tinha sido assaltada. Em seguida, questionou se ela tinha certeza de que tinha dinheiro e se haveria alguém com ela, que pudesse comprovar a história. A professora então narrou o ocorrido em detalhes ao segurança que não fez nada a respeito. “Fiquei muito chateada na hora, fiquei indignada! É uma situação que te desarma.”
Após o diálogo, Sandra procurou a banca de achados e perdidos da feira, para relatar o furto. A professora optou por preservar a identidade do segurança, temendo que ele pudesse ser demitido.
“Na verdade, ele é só a ponta de um sistema todo que enxerga as pessoas de uma forma diferente pela cor. Vou esperar passar um pouco e vou lá e vou dizer pra ele: moço, hoje eu não fui assaltada, mas eu preciso ter uma conversa séria contigo.”
Sandra diz ser comum passar por casos de discriminação racial e que o problema não é mais grave devido à sua posição de professora de jornalismo. “Quantas vezes um segurança faz alguma coisa com alguma mulher negra e ninguém dá bola?
Organização da feira vê oportunidade de ampliar o debate
A organização da feira lamentou os incidentes. Assim que tomou conhecimento do ocorrido, a responsável pela comunicação da FAE, Laura Neis, pediu o contato da professora Sandra de Deus. “Temos que tratar essa situação como uma possibilidade de ampliar o debate, jogar luz sobre esse tema que a gente vive de maneira velada”, afirmou Laura.
Com relação aos furtos, ela afirmou que eventualmente ocorrem casos semelhantes. Para inibir estas ações foram contratados os seguranças. “Como a feira é um ambiente de confiança, construído pela comunidade, às vezes a gente esquece que está em um local público onde circulam 5 mil pessoas.”
Professora relata furto e racismo na feira ecológica
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