Geraldo Hasse
No seu terceiro encontro preparatório para o congresso nacional do partido (11 a 14 de junho em Salvador), o PT de Porto Alegre reuniu mais de uma centena de militantes e simpatizantes no sábado (9) para debater como sair do impasse em que se encontra.
Com o auditório do Sindicato dos Bancários quase lotado, o PT da capital gaúcha elogiou o legado de Olívio Dutra e avançou na ideia de renovar a direção nacional do partido, controlada por paulistas, reduzindo a influência pessoal de Lula, apontado como responsável pela indicação do economista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.
O encontro privilegiou as manifestações dos deputados federais Paulo Pimenta e Maria do Rosário, além do ex-prefeito e ex-deputado estadual Raul Pont.
Cada um deles teve 15 minutos para expor seus pontos de vista. Em seguida, manifestaram-se 17 pessoas, cada uma com três minutos.
No final, o trio Pimenta, Rosário e Pont teve mais de cinco a dez minutos para uma síntese das propostas levantadas na reunião, considerada bastante convergente e produtiva. A seguir, uma síntese das falas, por ordem de entrada em cena:
RAUL PONT: “PRECISAMOS REVER NOSSAS ALIANÇAS”
Começou recomendando a leitura de um documento de Samuel Pinheiro Guimarães (Impeachment, golpe de Estado e ditadura de “mercado”) publicado em março; e de uma entrevista de Leda Paulani, economista da USP, que se declarou “bastante decepcionada” com os rumos do segundo governo de Dilma.
“Depois de 12 anos vividos no comando do país, eu partilho da tese de que o partido precisa mudar principalmente em relação ao delineado em 2003 quanto ao pragmatismo em favor da governabilidade”, introduziu.
“As alianças feitas com o centro e a direita não nos atendem e cobram um preço programático e ideológico. Acredito que vivemos uma transição da qual precisamos sair com uma alternativa para 2018”, defendeu.
Segundo Pont, a experiência dos governos petistas de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul mostra que é possível executar o que classificou como “uma nova política”. “Nem precisamos fazer orçamentos participativos bonitinhos, mas não podemos depender do PMDB, essa federação melequenta com quem não é possível tocar nenhum projeto de futuro”, alfinetou.
O ex-deputado foi duro com o sistema de alianças à direita: “são danosas” e sugeriu formar uma frente o PSol e o PCdoB – “sem abandonar o centro trabalhista e mantendo conversas com esses partidos republicanos que estão por aí meio sem rumo”.
Lembrou que o partido enfrenta um momento delicado, “só com fatos negativos contra nós”: a crise internacional, “a tragédia” da Petrobras, derrotas na Câmara e no Senado, as dificuldades com a opinião pública.
“E temos de agir logo porque a companheirada do interior já está ligando para saber com quem poderá se aliar para as eleições de 2016”.
Para Pont, os pontos básicos da retomada das origens do PT devem ser a retomada do sistema congressual de consulta às bases e o voto direto para todos os filiados, que também deveriam ter uma contribuição financeira obrigatória (pelo menos semestral).
Ocupantes de cargos públicos ou em comissão deveriam pagar uma mensalidade à sigla e ao sistema de arrecadação que mantém o PT precisa ser desburocratizado. “Hoje está excessivamente centralizado na direção nacional”.
Pont clamou ainda pela aplicação do estatuto que prevê o afastamento de todos os dirigentes indiciados em inquéritos policiais/judiciais. “Precisamos considerar que o foco é o PT, que vem sendo apontado como culpado de tudo. Sangramos dez anos com o Mensalão e agora estamos arcando com a desgraça da Petrobras. Temos de ser exemplares no combater a quaisquer privilégios que o Estado burguês criou para nos cooptar”, finalizou.
ROSÁRIO: “NOSSOS ALIADOS SÃO INIMIGOS”
A deputada federal Maria do Rosário iniciou sua fala referindo-se à uma “semana dura em Brasília”, com o debate sobre a crise, que tem um viés econômico e outro político – mas que é também uma crise ética.
Rosário concordou com Raul Ponto sobre alianças inadequadas. “A direita não vai desistir. A aliança estratégica do PMDB é contra o PT. Os nossos aliados de governo são nossos adversários estratégicos”.
A deputada notou que “há uma crise de confiança em relação às conquistas obtidas pelos governos petistas. Ninguém fez mais políticas sociais nem criou infraestrutura para o desenvolvimento do que o PT, mas só elegemos dois senadores em 2014 –sendo governo!”.
Ela fez também uma referência às manifestações de 2013 – sua leitura é de que o PT não soube escutar corretamente as ruas, que “mostraram o esgotamento de nossa relação com a sociedade”
Para piorar o cenário, há as medidas provisórias referentes ao seguro-desemprego e direitos dos trabalhadores, editadas pelo Planalto. “Mas elas não fazem ajuste econômico”, criticou.
Pelo contrário, prosseguiu Maria do Rosário, “as metas do governo nos isolam”.
Mais uma vez seguindo linhas parecidas com a de Raul Pont, a deputada lembrou do distanciamento com a base do partido e questionou a fala de preocupação com a fomração de novos militantes.
“Não criamos associações de bairros nos locais onde construímos casas. Fizemos uma renovação da política educacional e não temos canais com os estudantes. E temos de engolir um ministro Mangabeira nos apresentando uma baboseira sobre a Pátria Educadora!”
PAULO PIMENTA: “a direita domina”
O também deputado federal Paulo Pimenta iniciou sua participação com um questionamento: “Os governos petistas tiraram 36 milhões de pessoas da miséria e agora estamos numa crise que nos coloca diante da pergunta: ainda é possível construir uma democracia socialista num só país?”
Embora tenha também tecido críticas à aliança PT-PMDB, Pimenta foi mais conciliatório. “A coalizão feita por Lula em 2003 resultou numa política econômica que não apenas tirou milhões da pobreza, via criação de empregos, distribuição de renda e investimentos em inclusão social. Ela beneficiou o agronegócio, os bancos, a construção civil, empresários da infraestrutura, e de outros setores industriais e de serviços, que foram, beneficiados com o fomento do BNDES, e financiamentos do Banco do Brasil e da Caixa”.
Apesar disso, Pimenta acredita que esse modelo de crescimento via incentivo ao consumo chegou ao limite em 2014, apesar da influência da crise financeira global de 2008.
“Embora tenha aproveitado as medidas de Lula e Dilma, a verdade é que o capital não nos enxerga como aliado, tanto que apostou no Aécio”, recordou, acrescentando que mesmo derrotada, a elite financeira “continua na ofensiva atrás de suas metas: reduzir os custos da mão-de-obra via terceirizações, diminuir o papel do Estado na economia, incentivar a privatização de ativos estatais”.
“Não nos iludamos, a direita tem 80% do Congresso. Além disso, tem a mídia, o empresariado e o Judiciário”, anotou ainda.
Pimenta também abordou a organização de base, assim como seus colegas que o antecederam ao microfone. “Precisamos admitir que o erro não foi do governo. Quem errou foi o partido ao desconstituir-se como organizador da sociedade. Nossos quadros foram todos para dentro dos governos”, lamentou.
Porém, agora, com o PT assumindo um “papel secundário” no governo federal, a situação está ainda pior. “Corremos o risco de perder nos próximos três anos o que construímos nos últimos trinta anos”.
Juventude teme caminhar para trás
Uma das integrantes da Juventude Petista, Rossana Prux, fez coro à Maria do Rosário, criticando a falta de ações diante das manifestações de 2013. “O partido ficou perplexo”, lamentou.
“A direita soube capitanear melhor 2013 melhor do que o PT. Após cinco meses de governo, a juventude teme caminhar para trás”.
Lembrou de projetos que tramitam no Congresso Nacional com forte apelo conservador, como a terceirização dos contratos de trabalho, a redução da maioridade penal, a abolição do T das embalagens dos transgênicos.
“Seguindo assim, em 2018 não vai ter Lula que resolva. Nossa agenda não pode ficar restrita a segurar a onda conservadora”, clamou, completando que é preciso “empurrar o partido mais para a esquerda”.
O militante Pedro Loss concordou. “Sabemos o que precisa ser feito: retomar as bandeiras históricas e virar protagonista outra vez”
O economista Ubiratan de Souza, também seguiu na mesma linha, lembrando que a política econômica que está sendo implementada não tem coerência com as propostas eleitorais de 2014.
“O problema não é a Dilma. O problema é que ela foi pressionada a nomear Joaquim Levy para a Fazenda. Essa política está criando inflação e desemprego. E aumentando os ganhos do rentismo. A última elevação em 0,5% dos juros do Banco Central significa um ganho de R$ 12 bilhões/ano para os rentistas. É um ajuste fiscal ao contrário, em favor do sistema financeiro. Tudo isso começou com a política de coalizão criada por Lula em 2003”, apontou.
A escritora Tania Jamardo Faillace atribuiu as dificuldades atuais à uma postura ainda mais anterior do partido. “A atual situação do PT começou lá atrás quando Zé Dirceu promoveu filiações on line, abrindo as portas do partido para um monte de vagabundos”.
Para a militante, Dilma está sozinha e o ministro da Defesa, Jacques Wagner “é homem do Pentágono”. Lula tampouco merece a confiança da base.
Já Mamão lembrou que o mesmo modelo de coalização que foi alvo de diversas críticas ao longo do sábado foi adotado em estados e prefeituras administradas pela sigla. “Mas o PT não sabe usar a burocracia”, observou.
O presidente da primeira zonal do PT de Porto Alegre, Erick da Silva lamentou a falta de consultas às bases. “O PT não foi consultado sobre a nomeação dos ministros Levy,
Katia Abreu, Kassab e outros representantes de um lado da dicotomia que vem desde o primeiro governo Lula. Portanto, digo desde já que o 5º congresso do PT não vai resolver porque os delegados já foram eleitos há anos. O PT se desidrata a cada eleição. Precisamos mudar a direção do partido”, provocou.
Rodrigo Campos concordou. “O 5º congresso dificilmente vai mudar algo no PT, que se acomodou demais no poder e deixou de se ocupar com as atividades partidárias de base. Agora, com Eduardo Cunha na Câmara, as reformas ficaram mais difíceis. Além disso, o que informa e influencia o governo são os colunistas da mídia conservadora”, lamentou.
Retomada das bandeiras é imperativo
Reginete Bispo, do Movimento de Mulheres Negras estava pessimista. “Acho que já perdemos esse governo. Lamento dizer que o fortalecimento do neoliberalismo fascista tem como base a intolerância, o machismo e o racismo”, introduziu.
Para ela, a saída é recuperar a relação com os beneficiados pelas políticas públicas dos governos petistas.
O advogado Luiz Augusto Waschburger relembrou o senador João Paulo Bisol.
“Vi na TV Senado um depoimento comovente dele, dizendo que o PT foi a coisa mais fantástica que já aconteceu no Brasil. E que só o amor poderá recuperá-lo”.
Pediu que o PT não se envergonhe de suas bandeiras, pois na sua opinião, só vai retomar seu caminho se “buscar coisas como a regulamentação da mídia e a reforma política”.
A professora Sueli Mousker abordou as razões para o afastamento da militância. “Não queremos deixar de defender Dilma, mas como defender esse governo”?
Ela também aposta em um reencontro com ideias pregados no passado, especialmente focados na ecologia. “A energia solar era nosso tema, alimentação orgânica era nossa bandeira”, resumiu.
O servidor público Ademir Medeiros Rodrigues relatou que há seis meses tenta reunir militantes.
“Venho lá da zonal 160, na Vila Nova. No primeiro de maio, fui pra Volta do Gasômetro com um vizinho. Assamos uma carne. Não vi petista por ali, apesar da questão duríssima que representa a terceirização da mão-de-obra. Estou me sentindo bastante solito, mas marquei para o dia 26 de maio às 20 horas uma reunião lá na sede do CTG Inhanduí, na Vila Nova”, anunciou
União é a palavra de ordem
O professor Assis Brasil Olegário Filho também fez sua análise sobre as jornadas de junho de 2013. “Há alguns anos, André Singer anunciou em livro o fim do modelo lulista. Hoje sabemos que o reformismo social desmobilizou os movimentos de base. Ao incorporar consumidores, o partido não fez politização”.
Militante antigo, Sylvio Nogueira culpou a atual direção da sigla. “Qual a orientação do partido para atuar junto aos movimentos sociais? Onde está aquela estrutura de participação? Precisamos voltar aos núcleos de atuação”, defendeu.
Jussara Dutra, utilizou seu tempo para falar sobre uma recente viagem ao Chile, onde participou de uma reunião da Internacional da Educação. Segundo seu relato, a presidenta Michelle Bachelet apareceu no meio da reunião – no mesmo dia em que havia demitido todo o seu ministério.
“Ela foi lá conversar com o presidente do sindicato nacional dos professores, comunicar a decisão de desprivatizar escolas que haviam sido desestatizadas pelo general Pinochet. Portanto, o que eu trouxe dessa viagem do Chile foi a lição da unidade. Unidade, essa é a palavra do momento para o PT e para a esquerda”.
Militância cobra coragem para agir
A advogada Tâmara Biolo Soares queria saber se o debate feito no sábado vai significar alguma ação objetiva. “Foram muito boas falas aqui entre nós, diante de dois deputados federais, mas eu pergunto: quando o conteúdo exposto nesses debates vai se transformar em ações e medidas do partido”?
O servidor público Luiz Borba narrou sua surpresa ao se deparar, nas eleições de 2014, com eleitores do PSDB que haviam ingressado em universidades graças ao ProUni, programa criado na gestão de Lula na Presidência da República.
“Infeliz o dirigente de esquerda que não entende que o modelo de governo de coalizão criado por Lula começou a vazar em 2005. Todos fazem boas análises, mas o que falta mesmo é coragem para agir”, avaliou.
PT de Porto Alegre em busca de uma saída
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Comentários
Uma resposta para “PT de Porto Alegre em busca de uma saída”
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O ajuste fiscal foi necessário para cobrir o prejuízo do governo com os aumentos ocorridos na taxa de abril de 2013 até a presente data e tudo começou com as mídias fomentando uma campanha descabida de uma inflação descontrolada. Quem não lembra da capa da veja com foto da Ana Maria Braga usando um colar de tomates em abril de 2013. De lá para cá a taxa selic aumentou em 6% ao ano. Isso significa que a cada ano, mais 150 bilhões dos impostos que pagamos serão destinados para pagar o os juros da nossa divida pública para os nossos rentistas.
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Soluções existem.
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Sugestão para evitar que o pessimismo, orquestrado, que vem ganhando força possa contaminar o Brasil e o governo, da Presidente Dilma, causando prejuízos a todos os brasileiros, faço esse encaminhamento. Trata-se de uma pauta positiva que beneficiará a todos isso garante a sua viabilidade quanto à aprovação geral. Aproveito para antecipar meus agradecimentos pela apreciação da mesma bem como, desculpar-me, por me valer desse espaço para encaminhar, o presente documento, para sua avaliação e re-encaminhamento posterior se for o caso.
Paulo Fernandes Teixeira
CRE 4608-06 4ª Região – RS
paulofteixeira@outlook.com
A solução, para alavancar o desenvolvimento, é investir mais. E para viabilizar, esses investimentos, uma forma é quitar as dívidas dos estados e municípios para com a União dando a eles a condição de investirem mais em saúde educação e segurança etc…
As dividas dos estados e municípios com a União, podem ser solucionadas, com seriedade, desde que, a formulação encontrada, proporcione ganhos para os envolvidos nessa contenda. Trilhar, sempre pelos mesmos caminhos, que costumeiramente nos são impostos, nos conduz fatalmente aos mesmos resultados. Para avançar, ainda mais, temos que trilhar por novos caminhos que, quando devidamente traçados, nos possibilitam alcançar os, mais longínquos, objetivos almejados.
Veja a seguir um roteiro, de procedimentos viáveis, onde os únicos empecilhos só podem ocorrer devido a preconceitos, enraizados, ou marasmo político.
· A União, de posse do total das dívidas que estados e municípios.
· A União estipulará o espaço de tempo que julgue necessário para receber o montante dessas dívidas.
· Uma vez definido esse tempo, seria elaborado um cronograma financeiro, com a programação das datas e valores a serem quitados pela União.
· Após a execução dos os itens acima, os lideres do governo no congresso, de posse dos dados, conversariam com todos os deputados e senadores sobre a possibilidade que estados e municípios, fiquem livres de suas dívidas para com a União. Em compensação, o Congresso, em contra partida, aprovaria por lei em regime de urgência a emissão de papel moeda, no montante dos valores que serão quitados conforme os respectivos parcelamentos, de acordo com o cronograma, como forma do governo federal se ressarcir dos recursos que deixará de receber dos estados e municípios. A grande vantagem é que os estados e municípios, com a isenção dada, passariam de imediato a disporem de maiores recursos para investir. Fazendo com que esse volume de recursos espraiado Brasil a fora criara as condições para um novo ciclo de desenvolvimento.
É bom lembrar que o aumento na demanda é a força centrifuga que gera a espiral do desenvolvimento com geração de trabalho e renda.
A demanda é o maior atrativo, para o empresariado, pois a demanda assegura as vendas e conseqüentemente o lucro bem como o retorno do investimento efetuado. A ausência da demanda é a principal causa da estagnação de uma economia, pois inibe o estimulo empresarial, restringe a oferta de capitais para novos investimentos, a modernizações dos setores com novas tecnologias.
Para quem apregoa que um país soberano não pode emitir moeda, sem lastro e/ou sem assumir o comprometimento, antecipado, da dívida pública, sugiro que leiam o texto Senhoriagem ou Soberania no seguinte link:
http://www.passeidireto.com/arquivo/1563389/wray_soberania-ou-senhoriagem
Para quem argumenta que qualquer emissão de moeda é inflacionária, questiono porque buscam e festejam todos os recursos que venham a ser captados, para fomentar o desenvolvimento, uma vez que esses recursos circulando na economia não diferem no efeito que seria causado, por igual montante injetado na economia, pela simples emissão de moeda. Até porque, o papel moeda, não pode ser diferenciado quanto a sua origem.
Outra vantagem, desse modelo, é que, o volume, autorizado e a data da emissão, só ocorrerão, quando o governo federal achar conveniente. Podendo, assim, o governo desqualificar qualquer crítica, infundada, de risco inflacionário. Esses recursos, uma vez emitidos, poderão ter uso imediato ou fazer parte do superávit primário.
Porto Alegre 10 de março de 2014.

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