Rebobinando a fita

Artigo Geraldo Hasse 

Passados cinco meses do segundo governo de Dilma Rousseff, vem a impressão de que estamos assistindo à rebobinagem de uma fita cujo conteúdo, até outro dia, foi gratificante para a maioria dos brasileiros. Tanto que a presidenta foi reeleita, na suposição (e na promessa) de que a bonança continuaria por mais um longo período.
Foi então que a minoria abonada começou a chiar, ameaçou entrar com um processo de impedimento e impôs um Bradesco boy no comando da economia. E tudo começou a mudar.
Os brasileiros passaram os meses de novembro e dezembro de 2014 sob uma chuva de ameaças veladas. Nessa primeira etapa da mudança em curso, o economista Guido Mantega, o ministro mais longevo na Fazenda, passou a ser pintado como um paspalho, um Zé Ninguém, um pau mandado da Dilma.
Era uma campanha de terra arrasada para aplainar o terreno para a aterrissagem do salvador da pátria enviado por São Bradesco em nome do Deus Mercado.
No afã de promover o ajuste fiscal e conter a inflação, o duo Joaquim Levy (Fazenda) e Alex Tombini (Banco Central) apertou o torniquete sobre os gastos governamentais e elevou os juros (esta semana) para 13,75%, taxa que não é apenas imoral, mas inconstitucional. A economia se ressente do aperto, o emprego cai e os prognósticos vão se tornando cada vez mais negativos.
Depois de dar ao mundo uma série de lições sobre como aquecer a economia e distribuir renda aos setores tradicionalmente marginalizados da sociedade, o governo brasileiro põe o pé no freio, num estranho surto de ortodoxia monetarista. Nada a ver!
Todo mundo sabe que essa receita concentradora foi usada sem sucesso pelo FMI em todo o mundo, inclusive na Argentina, cuja economia até hoje não se recuperou do “choque de gestão” aplicado no tempo do presidente Menem.
Sendo claro que o monetarismo não dá certo, como se pode explicar a adoção desse receituário por um governo legitimamente eleito pela maioria do eleitorado?
Parece ser a marcha de uma governante que se sente inexplicavelmente fraca, embora tenha ganho a eleição, sete meses atrás – algo que parece ter acontecido há uma década. Daí a sensação de que estamos caminhando para trás ou rebobinando a fita dos anos de recente prosperidade.
É como se estivéssemos dentro de um trem que perdeu força na subida e ameaça retroceder. A despeito da campanha pela volta dos militares, a composição ferroviária se mantém nos trilhos da normalidade democrática e ruma para a estação 2018, mas nos vagões atulhados de aliados, amigos e adversários ninguém se entende, é um deus nos acuda, o maquinista só pensa no freio fiscal, o foguista não põe lenha suficiente na fornalha e, na janela dos notáveis, a presidenta olha a paisagem e informa aos repórteres:
– Fechei a boca e emagreci 12 quilos.
Parece um recado sinistramente esquizofrênico. A bela promoveu em si mesma um ajuste físico que corresponde a 15% do seu peso anterior. Se a economia brasileira emagrecer na mesma proporção, estaremos roubados.
Durante a viagem desse maluco trem brasil, os passageiros não falam de outra coisa: é a Operação Lava Jato, que mirou na Petrobras e acertou nas empreiteiras, ou vice-versa, o que dá quase no mesmo. Da Operação Zelotes pouco se fala depois da prisão do ex-presidente da CBF como parte do escândalo da FIFA.
Sem dúvida, agora ficou mais claro do que nunca, a corrupção tem dimensões globais. Mas a pergunta que não quer calar é a seguinte: por que o combate aos mal feitos da minoria do andar de cima tem que castigar a maioria situada na base da pirâmide social?
A alguns parece que o trem vai descarrilar. A outros, que a presidenta premedita apenas corrigir os desvios para chegar inteira em 2018, a ponto de indicar um sucessor viável.
No PT o único sobrevivente parece ser Lula – e olhe lá.
No PMDB pululam os candidatos avulsos, a começar pelo deputado Eduardo Cunha e o senador Renan Calheiros, mas no Partidão Central do Brasil o único com a ficha limpa é o vice-presidente Michel Temer, a quem não falta, aliás, uma bela primeira-dama.
No campo do conservadorismo moralista, pode vingar a candidatura do jovem Aécio Neves, que precisa apenas se controlar um pouco, como fazia – e como fazia bem! – seu tio Tancredo.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Não nos dispersemos!”
Apelo feito em 1985 por Tancredo Neves, temeroso de uma recidiva dos militares golpistas

 
 

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