
Detalhe da ‘polaroid’ impressa por Tom Lisboa em frente à Camara Municipal (Fotos: Naira Hofmeister/JÁ)
Naira Hofmeister
“Perceba como cada um dos cinco andares do Edifício Hermann, à sua esquerda, possui uma sacada diferente”. A frase, escrita num papel amarelo retangular, está colada num orelhão na Rua da Praia, perto das Lojas Americanas. Um pouco mais adiante, noutro telefone, o mesmo papel amarelo avisa: “Olhe para cima: você está sendo observado”.
As mensagens são o resultado da intervenção urbana que o artista visual Tom Lisboa realizou na cidade na semana passada, intitulada “Polaróides (In)Visíveis”. Em pequenos cartões amarelados, com formato e tamanho que lembram as fotografias polaróides, Tom Lisboa sugere olhares fotográficos pouco comuns para cidade. A proposta é provocar o pedestre a reparar detalhes que passam despercebidos no cotidiano.
“A relação com a polaroid e a fotografia não são equivocadas. Polaroid tem a ver com este registro instantâneo que estou propondo. A única diferença é que minha polaroid não impõe a visão de um fotógrafo, ela apenas dá a descrição de um possível enquadramento. A imagem é a pessoa quem faz”, explica Lisboa.
O artista visual repete na capital do Rio Grande do Sul a iniciativa realizada em Curitiba no mês de maio, reconhecida por um dos mais importantes prêmios de fotografia nacional, o Porto Seguro. Apesar de tecnicamente não ser um trabalho de fotografia, Polaróides (In)Visíveis utiliza os fundamentos básicos da arte: enquadramento, iluminação e profundidade de campo. “A boa foto não depende da câmera, mas sim, da visão do fotógrafo”, opina.

O artista fixa as Polaroides (In)Visíveis em paradas de ônibus e telefones públicos0
Além dos orelhões, as paradas de ônibus do centro de Porto Alegre também receberam os adesivos amarelos. “São locais onde tradicionalmente, a pessoa se permite observar, pois está parada, esperando o ônibus ou fazendo uma ligação”.
Além do local incomum, Tom Lisboa buscou ângulos que dificilmente são percebidos. O alto dos prédios, um detalhe ao fundo de uma cena ou um reflexo na fachada de vidros. “Uma das características das imagens é que geralmente não são cartões postais, são aquelas coisas mais invisíveis para querm anda diariamente na correria”.
A imagem escondida
Munido de um caderninho, ‘molduras’ de polaróides e uma caneta, Tom Lisboa sai a caminhar pela cidade, buscando ângulos não usuais da urbanidade. Quando enxerga um ponto de ônibus ou telefone público, pára e começa a observar o entorno. “Fico um tempão olhando para os lados, para cima, esperando aparecer uma imagem que eu queira destacar’, conta. Foi assim que descobriu a assimetria nas sacadas do Edifício Hermann e a estátua em cima do prédio da Livraria do Globo, na Rua da Praia, que parece observar o movimento na avenida.

No ponto de ônibus, ele procura o ângulo ideal da foto
Em frente à Câmara de Vereadores, por exemplo, Tom Lisboa sugere um enquadramento do cenário formado pelos trilhos do aeromóvel, a chaminé da Usina do Gasômetro e os coqueiros da avenida Loureiro da Silva.
Lisboa, pára, observa, anota no caderninho e em seguida, transcreve o texto para o papel amarelo. Colada na parada de ônibus, a polaróide vira uma espécie de exposição permanente.
Ou nem tanto: minutos depois, o artista volta ao local e, surpresa, a intervenção não está mais lá. “É a primeira vez que desenvolvo um desprendimento tão grande da minha obra, já soube de turistas que levaram uma polaróide como souvenir”, confessa.

Minutos depois, a sugestão é levada embora por um pedestre
Para quem não conseguir achar as polaróides de Lisboa pela cidade, a dica é aguardar até 3 de setembro, quando ele abre uma exposição na Galeria Lunara, na Usina do Gasômetro. Nesse mesmo dia, será lançado o site do artista, de onde o internauta pode também ‘baixar’ as sugestões de fotografias imaginárias – de Porto Alegre e Curitiba.

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