Em pouco menos de uma hora, o historiador norte-americano Robert Darnton mostrou a relação entre o Iluminismo e o mundo contemporâneo na conferência Voltaire, Rousseau e nós, que aconteceu na terça-feira, 27 de março. Foi a segunda sessão do ano do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul.
Mais uma vez, o Salão de Atos da UFRGS esteve lotado por um público interessado – o professor da Universidade de Princeton respondeu a perguntas por mais de 30 minutos. Especialista em Iluminismo, ele fez uso de muitos termos em francês, mantidos dessa forma pelos tradutores, caso de Ancient Regime, que se refere à monarquia vigente na França antes da Revolução.
Darnton justificou a escolha do tema, dizendo que o Iluminismo está na base fundamental da civilização ocidental. “Suas idéias baseiam-se nos direitos humanos e partem da reavaliação do patrimônio cultural de uma era”, entende.
O historiador explorou as transformações culturais na Revolução Francesa e os novos significados e nexos sociais que ela trouxe. “O poder não vem apenas do cano de uma arma, vem também de uma revolução cultural, da transformação de valores e de atitudes”.
Mesmo assim, o pesquisador observa que a resistência a uma nova relação social só foi vencida pela violência. Para exemplificar as mudanças que aconteceram no final do século XVIII, recorreu ao slogan da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. “A igualdade se dá no momento em que deixam o pronome vous e passam a usar o tu”.
Segundo Darnton, o pronome vous (vós) provoca distanciamento e hierarquização, ao passo que o tu causa uma sensação de intimidade e maior igualdade. Assim, a sociedade francesa adotou o uso do tu nas relações cotidianas pós-Revolução. “Desempenhamos papéis cotidianamente, lutamos para estabelecer uma ordem e nunca paramos para pensar que as coisas poderia ser de outra forma”, refletiu Darnton, analisando as convenções empregadas no mundo atual.
Ele acredita que uma reflexão sobre o tema ou mesmo a alteração no comportamento, na visão de mundo das pessoas, só acontecem diante de uma passagem extraordinária, um choque revolucionário, como foi a Revolução Francesa no século XVIII e o episódio do 11 de Setembro, na contemporaneidade. “Quando aconteceram aquelas explosões, todos nós paramos no tempo. Naquele momento, todos éramos iguais, estávamos unidos pela catástrofe”.
Por fim criticou o fundamentalismo que o ataque gerou, de ambos os lados. “O ressurgimento da religião fanática é perigosíssimo”, concluiu. Foi uma palestra didática e fluente, apesar das quebras para leitura de citações de textos de Montesquieu, Diderot e Pierre Bourdieu.
Veja a síntese da conferência
Voltaire e Rousseau morreram em 1778 e suas teorias iluministas foram inspiradoras da Revolução Francesa. Além disso, nada mais tinham em comum, pelo contrário, eram fortes opositores.
Na segunda noite do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, coube ao historiador americano Robert Darnton fazer um relato dessa rivalidade entre dois dos grandes pensadores da civilização ocidental.
“São opostos lendários: Voltaire defendia a reforma e Rousseau, a Revolução”, resumiu.
A ilustração típica do embate intelectual entre ambos é a carta que Voltaire envia a Rousseau aos receber e ler o livro Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755).
Opositor das teorias românticas de retorno ao passado – onde a moral seria mais eficiente no controle social – Voltaire escreve que “ninguém colocou alguma vez tanto engenho em nos querer converter em animais” do que Rousseau. Ler sua obra o fez desejar “caminhar em quatro patas”.
O reformista
Mesmo não sendo nobre, Voltaire era bem relacionado com a corte. Assim, suas propostas para uma ordem mais igualitária eram um espelho da aristocracia. “Ele acreditava que a sociedade ideal era polida, tinha boas maneiras, conversas sofisticadas”.
Robert Darnton (foto) advertiu a platéia de que essa posição política não podia ser considerada de direita, visto que a dicotomia entre esquerda e direita foi justamente inaugurada com a Revolução Francesa. “Voltaire entendia a política com temas anacrônicos. Para ele o importante era haver uma administração racional da sociedade”.
A partir da morte de uma atriz por quem se apaixonou, Voltaire passa a refletir sobre o sofrimento e o bem o mal. Adrianne, que tinha interpretado sua peça Édipo, morre antes de receber a extrema unção, pois na época, os artistas deveriam renunciar à profissão antes de receber o sacramento.
O corpo da moça foi jogado numa vala comum e coberto com cal para apressar a decomposição. “Essa situação obcecou Voltaire com o assunto da própria morte. Ele temia ter o mesmo fim de sua amante”. Assim, ao escrever a obra Cândido, Voltaire coloca seu personagem principal diante dessa cena. “A reação de Cândido, no capítulo 22, é muito curiosa. Ele simplesmente diz que foi algo realmente descortês”. Essa é a passagem que Darnton identifica como a definição de sociedade polida desejada por Voltaire.
A lógica de Voltaire para uma sociedade harmônica foi interpretada pelo acadêmico americano como uma sucessão de termos: polidez, polícia e política. “O Antigo Regime era policial, portanto, um poder”.
A partir da publicação de O Século de Luis XIV, Voltaire inaugura a idéia de que cultura também é sinônimo de poder. “O livro traz uma definição de Estado-teatro, transforma a corte de Luis XIV numa encenação e o exercício do poder, em atuação”. Em uma sociedade onde a cultura é o coração do sistema de poder, não haveria mal em impor costumes de cima para baixo. “Para Voltaire, essa relação de civilidade significava progresso”.
O revolucionário
Mesmo sendo opositor de Voltaire, Rousseau concordava com idéia de que a história cultural era fator de composição da sociedade. Mas para ele, “as cadeias que prendiam os homens provinham da arte”.
Por isso, Rousseau atacou a cultura em si, não apenas suas manifestações, defendendo uma verdadeira revolução cultural. Da mesma forma que seu rival, é um trauma que leva Rousseau a refletir profundamente sobre a moral e a purificação.
Um dia, ao fazer o caminho para visitar o amigo Diderot que estava na prisão, Rousseau passou pelo orfanato aonde havia deixado seus 5 filhos ilegítimos. O mal-estar causado pela situação o leva a refletir sobre sua existência. È sob o efeito dessas indagações que escreve o Discurso sobre a Restauração das Ciências e das Artes (1750). “Rousseau se dá conta de que se corrompeu por respeitar a série de valores culturais imposta para adequação social”.
Assim, o pensador interpreta a cultura como uma força do mal, algo relativo à manutenção do poder das classes dominantes. Robert Darton advertiu o público de que o conceito de cultura insinuado por Rousseau no século XVIII e mais amplo do que o utilizado atualmente. “Ele fala sobre um poder inserido nos costumes, nas línguas, nos quadros sociais.
Na verdade, Rousseau inventou a Antropologia”. Ou seja, o conjunto de simbologias que conferem poder a um sistema político estabelecido, tudo aquilo que tem sentido. “Mesmo a geologia e a física estão dentro desse conjunto, pois são compreendidos através de conceitos culturais”.
A cultura que mantém e a que modifica
Sem defender a visão de um ou de outro, Robert Darnton procurou adaptar as contribuições de Voltaire e Rousseau para a contemporaneidade. “O poder não vem apenas do cano da arma, vem também da cultura, da manutenção de valores e atitudes que regem as relações”.
A cultura é responsável pela quebra da igualdade em que fomos criados por Deus – é ela que mantém a sociedade hierarquizada. Assim, apenas uma reconfiguração dos códigos culturais pode modificar as relações de poder existentes na sociedade. “Para uma verdadeira revolução cultural é necessário transformar valores”.
A revolução cultural imprimida pela Revolução Francesa pode ser sistematizada no emprego dos pronomes vous e tu, na França do Século das Luzes, cujo lema era Igualdade Liberdade, Fraternidade. “A igualdade se dá no momento em que deixam o pronome vous e passam a usar o tu”.
Segundo Darnton, o primeiro provoca distanciamento e hierarquização, ao passo que tu causa uma sensação de intimidade e maior igualdade. A resistência à nova ordem social originou “uma guerra trágica”, mas ainda assim, a sociedade francesa adotou o uso do tu nas relações cotidianas pós-Revolução.
A idéia de que “o mundo não é o melhor mas é o único possível”, contida no Contrato Social de Rousseau, é a questão visceral do debate contemporâneo. “Desempenhamos papéis cotidianamente, lutamos para estabelecer uma ordem e nunca paramos para pensar que as coisas poderia ser de outra forma”, refletiu Darnton, analisando as convenções empregadas no mundo atual. A crença na imobilidade do mundo é o que nos impede de sugerir alternativas.
Essa estabilidade só pode ser rompida através de um um evento extraordinário. “Quando aconteceram aquelas explosões, todos nós paramos no tempo. Naquele momento, todos éramos iguais, estávamos unidos pela catástrofe”. A partir do choque revolucionário “é possível fazer uma reconstrução social da realidade”.
No caso francês, Darnton observa que “a liberação social gerou terror”, que culminou com as guerras napoleônicas. Mas no século XX, que “nos ensinou a desconfiar”, o historiador acredita que os grandes eventos possibilitam reordenar as coisas, relativizar a ordem estabelecida. “A partir de um acontecimento podemos repensar a realidade, não mais com algo dado, mas como algo que pode ser ou não”.
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