A antiga fazenda Annoni, localizada no município de Pontão (RS), onde ocorreu em 29 de outubro de 1985 a primeira ocupação brasileira de latifúndio por famílias organizadas no MST, recebeu nesta terça-feira (28) milhares de pessoas de todas as regiões do estado para a 40ª Romaria da Terra.
A edição comemorativa do evento, que acontece sempre na terça-feira de Carnaval por ocasião do aniversário de morte do indígena Sepé Tiaraju, resgatou a luta dos agricultores do assentamento por transformação social, sendo norteada pelo tema “Romaria da Terra: 40 anos de luta e memória das conquistas” e pelo lema “Terra de Deus, terra de irmãos”.
A acolhida aos romeiros começou por volta das 7h30 no Instituto Educar, uma escola de ensino médio, técnico e superior construída há 12 anos pelas famílias assentadas na Annoni, seguida de caminhada até a sede da comunidade Nossa Senhora Aparecida. Durante o trajeto, de cerca de 2 quilômetros, foram carregadas 40 tochas em celebração aos 40 anos da Romaria da Terra e uma cruz de mais de 3 metros de altura com escoras, representando as dificuldades enfrentadas pelos agricultores e a solidariedade que eles receberam da igreja, universidades, artistas, partidos políticos e sindicatos à época dos acampamentos na Encruzilhada Natalino e na fazenda Annoni. A cruz levava tiras de tecido nas cores branco e vermelho, em memória às crianças e adultos que morreram nos dois acampamentos, vítimas da falta de assistência médica por parte dos governos.

Também foi carregado durante o trajeto um sino, instrumento utilizado pelas famílias na ocupação da Annoni como sinal da alerta para problemas, notícias importantes ou chamamento para celebrações. A caminhada ainda lembrou, por meio de cartazes, seis mártires que tombaram em lutas a favor das causas populares: Sepé Tiaraju, Joceli Corrêa, Elton Brum da Silva, Lari Grosseli, Roseli Nunes e Vitalvino Mori. Os três últimos foram assassinados numa manifestação de agricultores em Sarandi, em 1987, dois anos depois de ocorrer a ocupação da fazenda Annoni.
Todas estas simbologias acompanharam a caminhada em cinco paradas, que resgataram a história da Romaria da Terra e a luta das mais de 400 famílias que hoje vivem nas comunidades do assentamento. Uma tratou das conquistas que os assentados obtiveram nestes últimos anos, entre elas o fortalecimento do trabalho coletivo através das cooperativas e agroindústrias, e da educação por meio da construção de escolas e do método de ensino diferenciado do MST. A romaria ainda destacou o papel fundamental que as mulheres tiveram no desmanche do latifúndio de mais de 9 mil hectares.
Para o padre Arnildo Fritzen, que desde a ocupação sempre esteve ao lado das famílias Sem Terra, a grande lição que fica à sociedade da luta pela Annoni é de que o povo organizado se torna educador. “A luta pela terra nos mostra que o poder popular existe e que é possível transformar um latifúndio em terra produtiva e de boas oportunidades para muitas pessoas”, disse.

O coordenador nacional do MST, João Pedro Stedile foi um dos fundadores do Movimento e ajudou na organização das famílias nas ocupações das fazendas Macali, Brilhante e Encruzilhada Natalino. Na 40ª romaria, ele criticou as medidas de retiradas de direitos adotadas pelo governo Temer e falou dos desafios da classe trabalhadora na atual conjuntura política. “Em tempos de crise, temos que fazer trabalho de base para uma formação política que leve as pessoas a refletir sobre os problemas que estamos enfrentando”, apontou.
Após chegarem ao Assentamento Nossa Senhora Aparecida, os romeiros participaram de uma celebração eucarística, coordenada pela Arquidiocese de Passo Fundo, e de tribuna popular. No local, também foi realizada uma feira com produtos da reforma agrária.
Romaria da Terra celebra 40 anos da ocupação da Fazenda Annoni
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