
Protesto criticou postura da mídia e buscou informar população sobre o conflito (Fotos: Helen Lopes/JÁ)
Helen Lopes
Ativistas de diversos movimentos sociais, munidos de cartazes, faixas, bandeiras e alto falantes, se reuniram na tarde desta quinta-feira, 9 de outubro, na área central da 52ª Feira do Livro. O protesto teve como alvo o silêncio da grande mídia sobre conflito em Oaxaca, cidade que pertence ao estado de mesmo nome que fica ao sul do México, onde um levante popular está sendo duramente reprimido por forças policiais do presidente Vicente Fox.
O confronto começou em maio deste ano quando o governo local, comandado por Ulises Ruiz, conteve violentamente uma manifestação de professores por melhores salários. Desde então, trabalhadores de outras categorias, estudantes, indígenas e militantes de esquerda se uniram formando a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca, que pretendia destituir o governador Ruiz e instalar um governo popular.
A situação se agravou no final de outubro, quando mais de 4 mil policiais federais avançaram sobre a cidade com o apoio de helicópteros e caminhões armados. Mais de sete pessoas teriam morrido, dezenas estariam desaparecidas ou presas. Como a cidade está sitiada, os números não são oficias.
Protesto contra RBS
Depois da concentração na ala central da Feira, os manifestantes seguiram para a Área Internacional, entregaram panfletos e denunciaram o que estava acontecendo no México pelo alto-falante. Em seguida, foram em direção ao estande da RBS, onde protestaram contra a omissão da emissora.

Ruy Carlos Ostermann fez que não viu
“O povo não esquece, abaixo RBS”, gritavam os ativistas, empunhando cartazes de solidariedade à mobilização mexicana, em frente ao estúdio da Rádio Gaúcha. Lá dentro o jornalista Ruy Carlos Ostermann tentava entrevistar o senador Paulo Paim (PT) e o cartunista Ziraldo. Mesmo com o barulho dos manifestantes, o apresentador seguiu o programa e não deu atenção ao protesto. Os entrevistados também não falaram sobre o assunto.
Para Eduardo Colling, integrante do movimento Resistência Popular, a mídia não dá destaque ao tema porque não a interessa. Ele explicou que o protesto foi em frente à RBS porque a empresa é a maior do Estado. “Ninguém se informa pelos meios de comunicação desse país, eles mostram o que querem”, reclama.
Participaram do ato representantes do Levante Popular da Juventude, Via Campesina, Resistência Popular, Movimento dos Sem Terra, Movimento dos Catadores, Juventude Revolucionária do Alegrete, Mateando com a Resistência Santa Isabel FM 91,7, Associação Brasileira de Rádio Comunitária, Movimento Hip Hop/RS e Sindicato dos Municipários de Cachoeirinha.
Informações desencontradas
As informações sobre a situação de Oaxaca, além de escassas, são desencontradas. No site da BBC Brasil, a última notícia, de 29 de outubro, afirma que “a polícia do México retomou o controle sobre a cidade de Oaxaca, pondo fim a uma ocupação de professores e ativistas grevistas que durava cinco meses. Pelo menos seis pessoas morreram em confrontos desde então”.
No site do Estado de São Paulo, uma matéria, de 30 de outubro, diz que “o governo mexicano reconheceu ainda não ter o controle completo da cidade de Oaxaca, capital do estado que leva o mesmo nome. No entanto, o governo enviou centenas de policiais federais, que viram os manifestantes erguerem novas barricadas e se recusam a abrir mão do domínio da capital após cinco meses de protestos”.
De acordo com a Folha de São Paulo, em notícia publicada na quinta-feira (9/11), “líderes da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (Appo) reuniram-se nesta quarta-feira (8/11) com o arcebispo da Arquediocese de Oaxaca para pedir refúgio político à Igreja Católica. Eles afirmam que têm recebido ameaças e temem agressões”.
O editor de Opinião do jornal mexicano La Jornada, Luiz Hernández Navarro, disse em artigo no site da Revista Carta Maior que a polícia atirou bombas de gás lacrimogêneo, disparou armas de fogo e invadiu domicílios particulares. A polícia federal afirmou em nota que o avanço das forças policiais se realizou “com estrito apego à legalidade” e debaixo da “permanente observação dos representantes da Comissão Nacional de Direitos Humanos e de meios de comunicação nacionais e estrangeiros”. Mas Navarro assegura que a história é diferente: “após a prisão de populares, a polícia agrediu jornalistas e confiscou escritos, blocos de papel e canetas”.
A Assembléia Popular de Oaxaca criou um site: www.asambleapopulardeoaxaca.com/boletines. A última postagem é de segunda-feira, 6 de novembro, apresentando os pontos acertados em uma plenária, entre eles a resistência às tropas federais, a liberação de seus companheiros detidos – segundo a APPO, mais de 50 pessoas foram presas arbitrariamente- e a luta pela manutenção da Rádio Universitária, que parece ser a principal fonte de comunicação dos insurgentes.
O Centro de Mídia Independente também acompanha o caso na sua página na internet: www.midiaindependente.org.

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