
Líder do MST, João Pedro Stédile afirmou que todo ano haverá ações em 8 de março (Foto: Ana Luiza Leal/JÁ)
Cláudia Viegas, especial para o Jornal JÁ
O 8 de março deste ano foi apenas o começo. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promete continuar sua luta pela conscientização da população contra o “modelo concentrador do agronegócio” e o “deserto verde”. É o que garante o líder do MST, João Pedro Stédile, que esteve em Porto Alegre, nesta quinta-feira, 9 de novembro, para o Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom. Depois da palestra, Stédile concedeu entrevista exclusiva ao Jornal JÁ.
Veja quais são os planos do movimento diante da iminente mudança no cenário político do Rio Grande do Sul e as articulações que prepara com entidades em nível internacional.
JÁ – Quais são os planos do MST perante o novo governo do Estado que assume o poder no ano que vem? O que o movimento pretende realizar no próximo dia 8 de março?
Stédile – A nossa obrigação, como eu disse na palestra, é fazer um trabalho permanente de conscientizar a nossa base para elevar o nível de conhecimento, de consciência da realidade. É isso que nós estamos fazendo permanentemente. Agora, as ações não são planejadas como e fosse alguma coisa assim, matematicamente. Isso depende muito de cada movimento, dos problemas que enfrentam na base. O que é certo é que, seguramente, as nossas companheiras da Via Campesina seguirão aproveitando o 8 de março para fazer novas ações de mobilização que tragam mais consciência para a nossa sociedade e que denunciem esse modelo perverso do agronegócio que afeta não só a monocultura de eucalipto como outras monoculturas, como os alimentos que vêm já cada vez mais contaminados com o uso do agrotóxico que o agronegócio vem trazendo.
JÁ – Existe alguma articulação do MST com o Uruguai para manifestações contra as fábricas de papel que estão se instalando naquele país?
Stédile – Nós temos duas articulações que envolvem os uruguaios e os argentinos. Tem uma que é uma rede ambientalista que se chama Amigos da Terra, cuja sede é justamente em Montevidéu. Com freqüência são feitas reuniões aqui no Cone Sul para debater como o meio ambiente está sendo agredido e quais são as ações comuns que cada um de nós pode fazer nos seus países. E a outra rede é a da própria Via Campesina, dos movimentos camponeses. Aí no caso do Uruguai é mais fraco. Praticamente, nas últimas décadas eles acabaram com os camponeses. Mas com os argentinos já há diversas organizações camponesas. Eu acho que o lado bom dessa intervenção de empresas transnacionais é que como são as mesmas empresas que estão lá no Uruguai, que estão na Argentina, que estão aqui no Brasil, isso facilita, também, nos obriga a ter cada vez mais uma consciência internacional e nós começarmos a nos articular para fazer também ações internacionais ao mesmo tempo.
JÁ – Com relação à aprovação do cultivo de transgênicos, o MST chegou a entrar com ação de inconstitucionalidade a uma medida provisória do governo Lula, de 2003, que liberou esse plantio para uma safra. Depois, com a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de 2005, essa ação perdeu o objeto, mas existe uma outra que requer que a lei seja considerada inconstitucional por ter vários dispositivos que contrariam o texto da Constituição de 1988, como possibilitar o plantio de transgênicos sem a necessidade de estudo prévio de impacto ambiental. Só que esta última ação está há mais de um ano no Supremo Tribunal Federal (STF) e não foi julgada. O MST vai se mobilizar para obter a declaração de inconstitucionalidade da lei?
Stédile – A nossa pressão é mais no geral em relação à opinião pública, não tanto em direção ao STF, porque a gente sabe que lá há mais do que um poder judicial, aquilo lá é uma extensão do poder político, só reflete o que as classes dominantes dominam no Congresso, no Poder Executivo, e assim por diante. Então o nosso esforço é conscientizar a população de que a Lei de Biossegurança vai, como ela está, ser usada cada vez mais pelas empresas apenas para o seu lucro. E o que é pior: mesmo quando a gente consegue alguns avanços na lei, como é o caso da determinação de rotulagem de todos os produtos transgênicos nas prateleiras dos supermercados, eles não obedecem. Essa determinação já existe desde abril de 2003, e até hoje nós não vimos nenhum produto em prateleira de supermercado que tenha lá a caracterização “Esse produto contém transgênicos”. Então, isso também é uma denúncia que nós fazemos com maior freqüência junto com o Greenpeace e com outros meios ambientalistas: conscientizar o consumidor que exija a aplicação dessa lei. Outros companheiros, o próprio Idec [Instituto de Defesa do Consumidor], têm atuado mais nessa questão jurídica. Mas eu acho que nós, dos movimentos camponeses, o nosso papel maior é ir mais além do acompanhamento dessas disputas jurídicas. É conscientizarmos a população e fazermos atos que sirvam de pedagogia, de exemplo, como as mulheres fizeram aqui na Aracruz. E é isso que nós vamos continuar fazendo.
JÁ – Isto significa que o MST vai realizar ações em supermercados, por exemplo?
Stédile – Claro, eu acredito que as companheiras estão discutindo pelo menos para nós exigirmos a rotulagem dos transgênicos, para chamar a atenção de como está piorando a qualidade dos alimentos em função dos agrotóxicos, o que é tão grave quanto os transgênicos.
JÁ – Qual é a sua avaliação do primeiro mandato do governo do presidente Lula em relação ao meio ambiente?
Stédile – O governo Lula é um governo de composição. Tem uma área de direita, uma de centro e uma de esquerda. Tem todas as forças políticas. Não é um governo de esquerda. Por isto, se transforma num governo ambíguo. Em todas a áreas em que ele atua, seja no meio ambiente, seja na reforma agrária, ele vem tomando medidas ambíguas. Tem medidas que favorecem a conservação do meio ambiente, e às vezes vem a pressão da direita, e o governo toma medidas que prejudicam o meio ambiente.
JÁ – É o caso dos embates entre o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Agricultura na questão dos transgênicos e entre o Ministério do Meio Ambiente e o das Minas e Energia por causa do licenciamento de grandes hidrelétricas?
Stédile – Exatamente. É este o governo que nós temos, um governo ambíguo.
Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom: mais do mesmo

Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior (esq), Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas e João Pedro Stédile integraram a mesa.
Ana Luiza Leal, especial para o JÁ
“A luta contra a Aracruz é apenas o modelo. Ela é o diabo; queremos destruir todo o inferno”. A frase é de João Pedro Stédile, líder da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que deu a tônica ao Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom.
Também integraram a mesa Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior, e Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas. A pauta do encontro foi a reação da grande imprensa à ação das mulheres da Via Campesina na Aracruz Celulose, no dia 8 de março de 2006, em Barra do Ribeiro/RS.
As duas horas e meia de debate foram marcadas por muitos “abaixo ao capital estrangeiro das transnacionais” e pouca reflexão acerca da cobertura da mídia sobre as questões socioambientais. Mais do mesmo. Os destinatários dos ataques – grande imprensa gaúcha e nacional, governo, papeleiras – não compareceram.
Enquanto o discurso de Vanderléia, que abriu os trabalhos da noite, girou em torno da defesa das mulheres camponesas, vítimas da “sociedade neoliberalista patriarcal”, Stédile optou por uma fala que não tinha por objetivo “falar mal das RBS, Globo”. O líder do MST preferiu recontar aos presentes a história econômica do Brasil, do pau-brasil aos transgênicos, de forma crítica, e dar um panorama do que é polêmica nos dias atuais, como a pretensa “sustentabilidade” do biodiesel. Colocou o eucalipto em pé de igualdade com as demais monoculturas que ameaçam a biodiversidade brasileira, a exemplo da soja, do arroz, da cana-de-açúcar etc.
“Chegamos a uma situação em que dez ou 12 empresas, como a Monsanto, são as todas-poderosas da agricultura no Brasil. Essas transnacionais controlam todo o ciclo de produção: do laboratório que produz a semente transgênica, à definição do preço do grão, e impõem isso aos pequenos produtores”, declara.
Para Stédile, o governo mente quando diz que os agricultores bateram recordes de exportação de soja. “Quem bate recorde no país é a Bunge e as outras três que dominam o mercado da oleogianosa. São essas as empresas que vendem o grão e atingem as cifras”, polemiza.
O líder do MST também levantou a questão da padronização global dos alimentos, que seria uma marca da ação econômica das transnacionais. Segundo dados que trouxe para o seminário, até o ano de 1500, a humanidade se alimentava de cerca de 300 vegetais. Nos 1900, caiu para 33: “E hoje, a maioria da alimentação é baseada em cinco produtos: soja, trigo, arroz, feijão e milho. Você come isso aqui e em qualquer lugar no mundo”.
Denuncismo não é a solução para a luta dos movimentos sociais
Segundo o jornalista da Agência Carta Maior Marco Aurélio Weissheimer, o fenômeno da cobertura da grande imprensa ao 8 de março de 2006 deve ser enxergado dentro do contexto global dos conglomerados de mídia, que já é realidade no Rio Grande do Sul. “Parece óbvio repetir isso, mas a Aracruz investe muito dinheiro em publicidade e em relacionamento com a imprensa. E tudo é apresentado de forma bem natural pela mídia, como se não influísse no conteúdo do que está sendo veiculado”, relata.
Na opinião do jornalista, o movimentos sociais devem estar preparados para a cobertura mais negativa possível por parte da mídia. “É inocência nossa achar que, algum dia, será feita uma matéria favorável. Não se pode continuar batendo na mesma tecla do denuncismo”, defende.
Weissheimer acredita que esse estágio poderá ser superado com a identificação dos braços econômicos que sustentam os grupos midiáticos. “A situação só mudará quando realizarmos estudos analíticos sérios sobre essas empresas, além de continuarmos investindo na construção instrumentos de comunicação do lado de cá”, acredita.
Questionado pelo JÁ sobre a forma como seria feita a “comunicação do lado de cá”, respondeu, evasivo: “A mídia alternativa ainda é muito precária, mas está melhor do que há dois, três anos. A saída é a internet, aliada à criatividade do pessoal que vai para a Comunicação”.

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