Tertúlia de Fischer abre janela para a música do Sul

Um dos últimos eventos do 24º Porto Alegre em Cena, o inusitado show “Discutindo a Relação: Música e Literatura” poderia talvez atrair público maior, caso tivesse sido programado para uma data mais favorável aos militantes da arte e da cultura. No sábado, 23/09, à noite, ocupou apenas a metade do auditório (120 lugares) do Instituto Goethe, no Bairro Moinhos de Vento. Uma pena.
Escudado pelo flautista Ayres Potthoff e o violonista Mathias Pinto, ambos professores de música e habitués de saraus na capital gaúcha, o professor de literatura Luís Augusto Fischer iniciou e terminou suas falas admitindo que não sabia exatamente como definir o evento classificado como “espetáculo local” no índice do catálogo do Porto Alegre em Cena de 2017.
Foi uma tertúlia, sem dúvida, em que Fischer, Pinto e Potthoff usaram como iscas textos de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Olavo Bilac, Rui Barbosa e João do Rio; e canções de Anacleto Medeiros, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Carlos Gomes, Joaquim Callado e Pixinguinha – todos autores que viveram no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX.
A ideia subjacente a esse passeio lítero-musical era tentar captar os momentos em que os gêneros literários (conto, romance, crônica) e musicais (polca, maxixe, lundu, modinha, valsa, tango, chorinho) se cruzaram na história brasileira, gerando as raízes do que se conhece hoje por MPB – música popular brasileira.
Segundo o consenso resultante dos depoimentos dos três componentes do Discutindo a Relação, a MPB começou a tomar forma a partir do maxixe ‘Corta Jaca’ de Chiquinha Gonzaga, da polca ‘Ameno Resedá’ de Ernesto Nazareth e do chorinho ‘Carinhoso’ de Pinxinguinha – o primeiro de 1893, o último de 1917.
Com duração de 80 minutos, a tertúlia de Fischer, Potthoff e Mathias restringiu-se a personagens atuantes no Rio de Janeiro, reforçando a lenda de que a MPB teve origem na ex-capital do Brasil, de onde teria sido difundida, por partituras, para o resto do país, que depois passaria a receber a influência carioca via rádio, disco e TV.
Em seus comentários finais, Fischer abriu uma janela lateral ao citar o gaúcho João Simões Lopes Neto, que nos idos de 1913, sob o pseudônimo de João do Sul, andou escrevendo crônicas populares sobre praticantes de serenatas em Pelotas, uma das cidades do interior que possuíam conservatórios, bandas e orquestras, sem falar dos músicos de botecos, de bailes e de serestas que tocavam de tudo.
Por aí se vê que a percepção do fenômeno carioca como meca cultural corresponde a um estereótipo provinciano que mereceria ser discutido por outros musicólogos atuantes como o radialista, músico e professor Arthur de Farias, autor de uma excelente história da música em Porto Alegre. A música regional gaúcha, por exemplo, é um farto filão a ser explorado.
Não cabem dúvidas de que as tertúlias coordenadas por Fischer podem render bons espetáculos e até tornar-se programa de rádio ou TV, saciando a fome de conhecimento de um público perdido em rodas de música contaminadas pelo jabá, conforme conta Katia Suman num dos capítulos de O Alcance da Canção (Editora Arquipélago, 392 páginas, 2106), livro organizado por Luís Augusto Fischer e Carlos Augusto Bonifácio Leite.

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