Memória: Histórias de Eduardo Galeano em Porto Alegre

No dia 13 de abril de 2015, o mundo perdeu Eduardo Galeano. O escritor uruguaio morreu aos 75 anos, vítima de um câncer que já estava espalhado pelo corpo.
Trinta anos antes, Galeano esteve em Porto Alegre e Gramado – participou, inclusive da festa de lançamento do Jornal JÁ, com o qual colaborou com crônicas durante várias edições.
O relato a seguir foi extraído da edição número 1 do jornal, publicada em outubro de 1985, e mostra como o uruguaio passeou por Porto Alegre e Gramado com bom humor, apesar de uma gripe – e da chateação provocada pela extrema frieza do público em sua noite de autógrafos.
Galeano: Um alerta contra o separatismo
Eduardo Galeano esteve em Porto Alegre para ensinar e aprender sobre a América Latina. Ensinou na Assembleia e aprendeu na noite de Porto Alegre e na tarde de Gramado. Levou ideias definidas sobre as duas realidades gaúchas com que pode conviver em três dias.
Numa terra onde os mitos duram menos que o relâmpago, Eduardo Galeano é uma honrosa exceção. Respeitado, lido e admirado por toda a América Latina, não é de estranhar que sua vinda até Porto Alegre, tenha provocado frisson nos meios intelectuais.
A gripe que o acometeu no Rio de Janeiro, no entanto, liquidou com as intenções de muita gente em repartir longas noitadas de papo elocubrados com o autor das “Veias Abertas da América Latina”.
A gripe e o próprio Galeano, mais afeito a papos de botequim, muito longe da empoada figura do intelectual europeu (logo decadente) que nossos representantes locais da classe tentam imitar.
Grande papo, Galeano. Seus dois últimos livros, “Nascimentos” e “ As Caras e as Máscaras”, verdadeiras colchas de retalho de mil histórias, são pouco para mostrar as outras mil que ele é capaz de contar de viva voz.
A gripe, que o fez literalmente derreter durante a entrevista coletiva na Livraria Quarup, não limitou seu bom humor, regado a Coca-Cola (bebida estranha para um crítico ferrenho das multinacionais). Tanto assim que, depois de atender ao final da coletiva, a um repórter solitário e atrasado, comentou: “Puxa, eu bolava grandes frases e ele ficava impassível, escutando. Depois, quando dizia coisas desimportantes, anotava tudo”.
Uma de suas histórias: Em 1935 Trujillo resolve modernizar a República Dominicana. Começa abrindo uma fábrica de calçados , dele mesmo. E decreta: ninguém pode circular descalço nas grandes cidades dominicanas. Quem tenta é preso, as cadeias logo ficam cheias. Aos miseráveis camponeses, resta comprar um par de sapatos por aldeia. Quem precisa ir à capital, os calça e vai. Melhor ainda, os camponeses descobrem que podem ir em duplas, bastando para isto que cada um calce um pé do par de sapatos, e enfaixe o outro pé, como se estivesse quebrado. No palácio lamenta a falta de compreensão do povo a seu projeto de modernização.
Horas depois da coletiva, a sessão de autógrafos, também na Livraria Quarup. Muito menos gente que o esperado. Mas o que irrita Galeano é a frieza das pessoas, que entregam o livro, dizem seu nome e esperam o autógrafo em silêncio.
Ele queria conversar, saber das coisas da gente brasileira. Chateado, vai embora assim que a fila termina. Á noite, novamente se esvaindo em suor, consequência da gripe, fala na Assembleia para um plenário superlotado por um público – aí sim, entusiasta. Saiu de lá ruim. Muita gente pensou que precisasse ir a um hospital. Mas não foi.
Foi, isto sim, para a Churrascaria do Negrão, saber se o churrasco do Rio Grande se compara ao do Uruguai. Era tanta gente, cerca de 20 pessoas, que ninguém lembrou de perguntar se havia gostado da carne. Da cerveja, gostou. Gostou tanto que nela afogou a gripe.
Magicamente curado, contou histórias para o grupo mais próximo. Os outros, como bons intelectuais gaúchos esqueceram do convidado e começaram a brigar entre si. Aos poucos a mesa foi esvaziando, todos reconciliados, a noite avançando. Restou o grupo que cercava Galeano, vendo-o derrubar sucessivas Brahmas enquanto contava suas histórias.
Outra delas: este ano, depois de uma longa procura, a avó encontra a neta, que havia sido sequestrada com sua mãe pela ditadura Argentina, quando tinha apenas um ano de idade. A garota está agora com nove.
Fora levada de Buenos Aires para o Peru. No reencontro, choro e emoção. A velha senhora leva a neta para casa e, num gesto de amor e de exorcismo resolve banhá-la. Em pleno banho, um cheiro forte e indecifrável começa a tomar conta da menina. A vó a ensaboa outra vez mas o cheiro não cede. Só então a velha senhora o reconhece: a menina está cheirando a nenê. O mágico momento do reencontro cria nela a regressão, expressa através do cheiro, na busca do carinho materno que lhe foi negado.
A noite avança e o grupo é expulso da Churrascaria do Negrão. Seguem todos para o Bar do Beto, onde Galeano continua derrubando cervejas e contando histórias.
Esta, ele não confirma, mas conta de qualquer maneira: 16 de julho de 1950. O Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai e pleno Maracanã. O país está em choque, mas a seleção uruguaia festeja na boate e na piscina do hotel. Apenas o capitão do time e autor do gol, Obdulio Varela, fica de fora da festa. Diz que o resultado foi injusto. Alia-se à dor dos brasileiros, e passa a noite percorrendo os botecos do Rio, se embebedando junto à torcida local e xingando “aquele filha da puta do Varela”. Sorte sua que não havia ainda televisão, e não foi reconhecido.
Ficou, de Galeano, a figura de um intelectual que não confunde engajamento com rabugice. Foi dormir às quatro e meia da manhã e antes do meio dia já estava em Gramado, passeio um tanto estranho mas que, recomendado sabe-se lá por quem, ele fez questão de fazer.
Foi, viu, e admirou-se. Depois de uma noite passada em volta da mesa de uma bar, ao melhor estilo brasileiro, depois de suas notáveis histórias sobre a realidade latino-americana, depois de anos e anos vividos a estudar e denunciar as relações de dominação no continente, Galeano passou pelas ruas de Gramado, viu seus prédios, suas lojas e seus hotéis.
Na manhã seguinte, pouco antes de embarcar para Montevidéu, comentava ao grupo que o levou ao aeroporto: “Vocês, gaúchos, com esta mania de separatismo que vem desde a Revolução Farroupilha, precisam lembrar que, separados do Brasil, terão que usar só aqueles móveis de Gramado. O que me parece motivo suficiente para mudar de ideia”.

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