Um crime desafia Porto Alegre

Elmar Bones

A imagem que Porto Alegre construiu nos últimos anos, de cidade-referência em práticas democráticas e de participação comunitária, estará definitivamente comprometida se não forem esclarecidos os fatos que ocorrem na Restinga desde o dia 12 de janeiro de 2008.

Já são quatro pessoas mortas: a líder comunitária Marlene Álvares de Oliveira, de 51 anos, seu companheiro, Osmar Matos de Souza, 57 anos, e duas prostitutas, uma delas abatida a pauladas, gritando por socorro no meio da rua. Passaram-se 50 dias, a polícia não tem pista dos assassinos. A Restinga pede socorro e o movimento comunitário nas áreas populares está ferido de morte.

Além da inoperância policial, chama atenção a inércia da imprensa que até agora não deu a devida dimensão ao caso. A reportagem mais completa saiu na Zero Hora deste domingo (50 dias depois!).

O crime ocorreu por volta das 3h da madrugada do sábado, 12 de janeiro. Na edição do dia seguinte, domingo (que fecha sábado de manhã!) saiu uma pequena nota imprecisa, sem foto na página do obituário, dizendo que “um incêndio criminoso no bairro Restinga matou uma líder comunitária e deixou seu companheiro gravemente ferido”. Mencionava um “homem alto e branco” que teria invadido o apartamento de Marlene e Souza, no térreo de um condomínio na rua Clara Nunes. Souza foi amarrado na sala com camisetas embebidas em álcool, Marlene foi levada para o quarto dos fundos no pátio. “Teria sido torturada com agulhas de seringas, haveria indícios de que ela teria sofrido violência sexual”. No “pé” da matéria dizia que Marlene “além de organizar um sopão para moradoras mais carentes do bairro, tinha participação política na comunidade, no Orçamento Participativo e no Conselho Municipal de Saúde”.

Na terça-feira, o caso ocupa três quartos de uma página, na seção policial. “Polícia sem pistas sobre matador de líder comunitária”. Delegado “não tem qualquer informação sobre o assassino (ou assassinos)”, nem sobre os motivos do crime. “A tortura, a violência sexual e o fogo ateado no (sic) corpo, que deixaram apavorados os moradores do bairro da Zona Sul são mistérios que os policiais ainda não conseguiram entender”.

Socorrida por vizinhos que sentiram a fumaça, Marlene morreu a caminho do hospital. Seu companheiro, com 70% do corpo queimado ainda resistiu alguns dias. Foi ele quem deu a única pista: “um homem alto e branco, desconhecido no bairro”. Pelas declarações do delegado, a lei do silêncio estava imperando na Restinga. Ninguém sabia nada. No boca-a-boca da comunidade, porém, a história corria com detalhes macabros. Marlene, que dependia de muletas para andar, foi arrastada e perfurada com agulhas, antes de ser queimada. Seu companheiro, foi pendurado de cabeça para baixo com álcool derramado no ânus…

A esta altura, mesmo sem informações, o delegado tinha uma certeza: “A polícia não acredita que os traficantes da região estejam por trás do crime. Policiais têm informações de que eles e a líder comunitária tinham uma espécie de “acordo”: os traficantes não cometiam crimes na região e Marlene não os delatava”.

Na parte final da matéria, o repórter relata uma rápida passagem no local do crime, “nas esquinas da Rua Clara Nunes e Antonio da Silveira”, onde “o medo de alguns vizinhos é tanto que eles abandonaram suas casas e não retornaram. Um vizinho conta que o apartamento das vítimas foi arrombado “para levar o que havia sobrado”. No terminal do ônibus, alguém informou que o ponto comercial mantido pela Aproder foi depredado, colocaram fogo nas paredes e nas lixeiras. Marlene era presidente da Aproder (Associação Pró-Desenvolvimento da Restinga.).

No dia seguinte, o jornal se manteve burocraticamente atento: “Crime na Restinga: Polícia apura outras hipóteses para assassinato”. A nota de 25 linhas num canto da página policial é uma típica manobra de investigação sem rumo: “Novas informações levaram a polícia da Capital a outras linhas de investigação na morte da líder comunitária …” A polícia descobriu que horas antes do crime, Marlene teve um bate boca com uma mulher, com ciúme do marido. Antes de ir embora, a mulher “teria feito ameaças”. O delegado incluiu entre as hipótese o crime passional. A polícia descobriu também que Marlene informou numa reunião que  a Aproder já contava com R$ 370 mil em doações, para construir um shopping comunitário. Segundo o repórter “um policial raciocinou”: ‘Alguém pode ter achado que o dinheiro ficava em uma conta bancária. Depois, invadiu a casa de Marlene e a torturou para que ela o entregasse (sic)”.

A partir daí a polícia não tinha mais o que dizer e os repórteres, ao que parece, não tinham o que perguntar. No dia 12 de fevereiro, um texto legenda sob a foto da faixa colocada pelos moradores no prédio de Marlene, registrou um mês do crime sem solução. Depois, talvez porque entramos em tempos de “agenda positiva” e houve uma conferência mundial de cidade, com representantes de muitos países que vieram a Porto Alegre atraídos pelas experiências da cidade com gestão democrática e participação popular, o assunto desapareceu.

Retornou neste domingo, na referida reportagem assinada por Carlos Wagner. Mesmo ele, repórter experiente, passeia pela periferia do drama da Restinga, onde duas pessoas foram queimadas vivas, uma prostituta apareceu pendurada num fio de nylon outra foi morta a pauladas gritando socorro no meio da rua. E ninguém viu nada.

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Comentários

  1. Avatar de Fabio Araújo
    Fabio Araújo

    Engraçado…Lá Em SP…A Polícia DEU UMA PRIORIDADE…Para O CASO BIANCA…estava CLARO…que o Assasino Era O CUNHADO…Eles tanto se empenharam…que botaram o Monstro Na Cadeia…por isso…EU ACREDITO Que Se As AUTORIDADES…aqui Do RS…fizerem um pouquinho mais de ESFORÇO…conseguem ELUCIDAR Esse CRIME Bárbaro…E Punir…os Assasinos Da Dona Marlene.

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