Um latino na tribuna

Naira Hofmeister

A reação do público após quase duas horas de interatividade com o conferencista Jorge Castañeda é o emblema da boa receptividade que sua palestra teve. Nas rodinhas que se formaram no saguão do Salão de Atos da UFRGS após a apresentação, a todo momento se ouviam comentários entusiasmados com a análise sobre a América Latina.

Castañeda mostrou ter grande domínio da platéia, expondo a situação atual das esquerdas latino-americanas, com pitadas de ironias, provocações e piadas, algumas politicamente incorretas. O escritor mexicano não ficou mais de 15 minutos sem ser aplaudido – foram cinco interrupções para palmas em cena aberta.

A maioria, por comentários sobre políticos, como “Hugo Chávez é um Perón com petróleo”. Também sobrou para seus conterrâneos: ”Não menosprezem o talento dos mexicanos para fraudar eleições”. E para os latinos: “Ninguém tem mais cordialidade que nós: somos capazes de nos pegar com alguém pela manhã e jantar juntos à noite”.

Na tentativa de definir o que era “esquerda”, soltou uma pérola. “Antes, existiam centros que outorgavam certificados de esquerda. Moscou, que já não existe, Pequim, que não quer, e Havana, que não importa”. Aplusos na platéia. Seguiu: “Então a melhor maneira de definir quem é de esquerda, e perguntar se se considera de esquerda. Se a pessoa acha que sim, aceitamos”.

Mostrando-se confortável independente do interlocutor, Carlos Castañeda já fez gracinhas na entrevista coletiva – que lhe renderam notas sobre seu bom humor em diversos veículos de imprensa.

“Uma das principais contribuições que o México deu ao mundo foi o populismo. A outra, a tequila”, comparou, para a descontração dos repórteres.

América Latina com graça

Falando sobre a conjuntura latino-americana, Carlos Castañeda provocou com bom humor. Em uma análise da estrutura política no México, afirmou que Vicente Fox era um ótimo candidato, o que não lhe garantiu sucesso como governante. “Somos especialistas em grandes candidatos e maus presidentes”.

Também zombou do sistema político de seu país e disse que os mexicanos não tinham capacidade de organizar uma eleição. “A média de escolaridade é de sete anos no México. Estamos exigindo uma tarefa muito difícil até mesmo para um doutor”. Por isso, o México teria inventado o sistema em que o candidato que recebe mais votos perde a eleição. “Mas veja, não só inventamos, como também exportamos para os Estados Unidos”.

Usando como exemplo a tentativa de luta dos zapatistas, capitaneados pelo Comandante Marcos, explicou que atualmente não há mais razões para guerrilha armada, pois vivemos numa democracia.

“Marcos podia caminhar pelas ruas, dar discursos, falar ao Congresso, receber estrangeiros no núcleo de sua organização. Se ele conseguia tudo o que queria, porque fazer uma guerrilha?”.

Outro sinal do humor de Castañeda, veio na avaliação sobre os mercados comuns da América Latina. “O México não achou vantajoso dividir os benefícios do NAFTA [com os países que participariam da ALCA]. Tudo bem, somos irmãos, mas não vamos compartilhar tudo, não é verdade?”.

Ainda falando sobre a integração dos mercados latinos, fez pouco caso da proposta liderada por Hugo Chávez, a ALBA (Alternativa Bolivariana para a América). Primeiro, porque, considerando que a ALCA não existe – já que Brasil e México não assinaram o tratado –, não haveria razão para uma alternativa.

Em seguida, emendou: “De toda a maneira, não sei o que é. Daniel Ortega disse que queria entrar na ALBA, mas não entendo como se entra, se é pela janela, pela porta, com uma chave, cartão…”.

Falando sobre a construção de um muro na fronteira entre Estados Unidos e México, menosprezou o que alguns consideram o símbolo da segregação entre subdesenvolvidos e primeiro mundo. “Não temos que dar tanta importância a isso… é apenas uma defesa de fronteiras, como a que existia em Berlim, depois da Segunda Guerra”.

E terminou com a seguinte comparação. Acredita que os norte-americanos deveriam estar felizes, pois são invadidos por imigrantes mexicanos, que têm a mesma cultura e são gente trabalhadora.

“Mas imaginem o que acontece na França, Inglaterra, Alemanha, Espanha ou Holanda, onde há milhares de paquistaneses e árabes?”. Avisou que o problema não era com a etnia, mas sim, de ordem religiosa. “Não que todos os muçulmanos sejam terrosistas, mas à exceção do IRA e da ETA, todos os terroristas são muçulmanos”.

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